Polêmico: “A função do escritor”, segundo o melhor contista da história

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O conto tem como uma de suas características mais importantes o “minimalismo narrativo”. Raymond Carver, referência mundial neste gênero, participou de oficinas literárias com o famoso professor Jonh Gardner, na Chico State College. Gardner dizia a Carver para usar quinze palavras em vez das vinte e cinco de determinado trecho dum conto. Posteriormente, Carver ouviu de seu editor que devia usar cinco no lugar das quinze. O fato é que o produto deste minimalismo contribuiu para a formação dum contista incrível. Raymond Carver deixou inúmeras coletâneas de contos, uma obra vasta, tornando-se um dos maiores nomes do gênero.

Mas este texto não é sobre Raymond Carver; e sim sobre o que disse o escritor que Carver apontou como, provável, “melhor contista de todos os tempos”, o russo: Anton Tchekhov. Sobre os contos dele, Carver afirmou o seguinte:

“Os contos de Tchecov são tão maravilhosos (e necessários), hoje, como quando eles apareceram pela primeira vez. Não é apenas o número imenso de contos que ele escreveu —poucos escritores, se houver algum, escreveram mais que ele— é impressionante a frequência com a qual ele produziu obras-primas, contos que nos encorajam, bem como encantam e mexem conosco, que revelam as nossas emoções de forma que só a verdadeira arte conseguiria”.

Raymond Carver
Raymond Carver

O autor de Lolita, Vladimir Nabokov, que não tinha papas na língua, reclamou do russo, dizendo que seus contos eram uma: “miscelânea de terríveis prosaísmos, dos epítetos prontos e das repetições”. Contudo, afirmou que A Dama do Cachorrinho, um dos contos mais famosos de Tchekhov, era “uma das maiores histórias já escritas”.

A rainha da técnica do fluxo de consciência, Virgínia Woolf, fez um apontamento interessante sobre o conto The Common Reader, de Tchekhov:

“Mas é este o final? Nos questionamos. Temos sim a sensação de que perdemos os sentidos; ou talvez a melodia tivesse sido interrompida de repente, sem aviso prévio. Esses contos são inconclusivos, dizemos, e moldamos uma crítica baseada na suposição de que os contos devam terminar de maneira que possamos reconhecer. Ao fazê-lo levantamos a questão da nossa própria condição como leitores. Quando a música é familiar e o fim enfático —apaixonados juntos, vilões derrotados, intrigas expostas— como é na maior parte da literatura vitoriana, as coisas não vão mal, mas quando a música não é familiar e o fim é um ponto de interrogação ou apenas informações que eles passaram através de diálogo, como nas obras de Tchecov, precisamos de um sentido muito ousado e alerta da literatura para nos fazer ouvir a melodia, e em particular as últimas notas que completam a harmonia”.

Enfim, embora seja polêmico afirmar que Anton Tchekhov foi o “melhor contista de todos os tempos”, sem dúvidas, vale conferir o que o russo afirmou acerca da função do escritor, em Cartas:

Anton Tchekhov
Anton Tchekhov

Que o mundo “está infestado com a escória do gênero humano” é perfeitamente verdade. A natureza humana é imperfeita. Mas pensar que a tarefa da literatura é separar o joio do trigo o é rejeitar a própria literatura. A literatura artística é assim chamada porque descreve a vida como realmente é. O seu objetivo é a verdade – incondicional e honestamente. O escritor não é um confeiteiro, um negociante de cosméticos, alguém que entretém; é um homem constrangido pela realização do seu dever e a sua consciência. Para um químico, nada na terra é puro. Um escritor tem de ser tão objetivo como um químico.
Parece-me que o escritor não deveria tentar resolver questões como a existência de Deus, pessimismo, etc. A sua função é descrever aqueles que falam, ou pensam, acerca de Deus e do pessimismo, como e em que circunstâncias. O artista não deveria ser juiz dos seus personagens e das suas conversas, mas apenas um observador imparcial.

Têm razão em exigir que um artista deva ter uma atitude inteligente em relação ao seu trabalho, mas confundem duas coisas: resolver um problema e enunciar corretamente um problema. Para o artista, só a segunda cláusula é obrigatória.
Acusam-me de ser objetivo, chamando-lhe indiferença em relação ao bem e ao mal, falta de ideias e ideais, etc. Querem que, ao descrever ladrões de cavalos, diga: “Roubar cavalos é mau”. Mas isso é sabido há séculos sem que eu tenha de o dizer. Deixem que um júri os julgue; a minha tarefa é simplesmente mostrar que gênero de pessoas são. Escrevo: estão a lidar com ladrões de cavalos e, assim, deixem-me dizer-lhes que não são mendigos, mas gente bem alimentada que segue um culto especial e que roubar cavalos não é simplesmente roubo, mas uma paixão. Claro que seria agradável combinar arte com sermões, mas, quanto a mim, é impossível por questões técnicas. Para descrever ladrões de cavalos em setecentas linhas, tenho de falar, pensar e sentir à maneira deles. De outro modo, a história não será tão compacta como os contos deveriam ser. Quando escrevo, conto inteiramente com o leitor para que este acrescente os elementos subjetivos que faltam na história.

Confesso que quando li pela primeira vez este texto, senti-me um pouco ofendido. Pareceu-me a opinião de alguém que escrevia sem alma. Pobre romântico, eu. Percebi um tempo depois que a fala do russo se reflete noutros dois escritores que me agradam, Machado de Assis e David Foster Wallace. Machado defende a ideia de que o narrador não deve julgar o personagem, ou seja, o escritor não deve exercer sua “onipotência” no texto para explicitar julgamentos morais, na opinião dele. Já Wallace, em seus contos (principalmente em Breves Entrevistas Com Homens Hediondos), parece assumir uma castidade excessiva com esta questão, até mesmo obrigando o leitor a tomar uma posição, passando depois a expor o outro lado da história. Neste jogo de posicionamentos, quem o lê, acaba se sentindo com o poder de decidir. Passei a gostar disso, a concordar com Tchekhov.

O tema é extenso, mas um pouco de discussão faz bem.

Fico a pensar em situações que, escrevendo, julguei ou não o personagem, mas e você, já fez isso? Concorda com Tchekhov?