Por menos passionalidade e mais argumentação

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Ilustração: autoria desconhecida

Navegar pela internet pode ser uma experiência incrível de aprendizado e interatividade, quando se sabe canalizar suas ferramentas para a produtividade. As redes sociais são um espaço interessante de discussão, onde é possível saber sobre as atualidades e checar as reações imediatas das pessoas. Mas, ao ler certas postagens, impregnadas de ódio, alienação e superficialidade, a gente se questiona sobre essa contradição contemporânea: alta tecnologia x mentalidade rasa. A despeito de todo aparato sofisticado de que dispomos, cada vez mais nos reaproximamos da barbárie.

Vivemos numa época em que a liberdade de expressão virou vale-tudo. Discutir é ótimo, sobre o que quer que seja, contanto que se utilizem argumentos e não xingamentos. A moda é dos “haters”, usuários ávidos por comentar contra qualquer assunto, apenas pelo prazer de expressar sua rebeldia sem causa, sua raiva desmedida. Em nome de quê? Da polêmica. E não da polêmica saudável, que visa chegar a uma solução plausível para um problema ou ao menos refletir sobre ele. Trata-se da polêmica pela polêmica, da modinha pela modinha, sem utilidade.

É provável que a passionalidade latina também nos atrapalhe. Há certos assuntos tabus na cultura brasileira, como religião e preconceito racial. Por muito tempo tentou-se tapar o sol com a peneira, num discurso de falsa aceitação. Como existe muita miscigenação no país, quase não há discriminação: uma dedução bastante errônea. Como existe muito sincretismo religioso, quase não há intolerância: outro absurdo. Ora, cada um possui as suas convicções, a sua fé, os seus gostos pessoais. Isso não é passível de discussão, é vida privada. O que está em pauta são as questões sociais, as ideias políticas, filosóficas, etc. O problema é a mistura que se faz entre a esfera privada e a discussão pública. Passa a ser uma competição pessoal. É a era das informações prontas e das opiniões formadas. Já se parte do pressuposto de que o outro está errado: tenho que rebater tudo que ele diz sem nem prestar atenção, preciso massacrá-lo para me autoafirmar. Para me autoafirmar como o quê? Como um ignorante fechado em seu mundinho de verdades absolutas?

A Terceira Guerra Mundial é virtual. No Facebook, você precisa se posicionar, e de preferência de uma maneira radical. É a favor da redução da maioridade penal? Isso mesmo! Lugar de bandido é na cadeia! Se tem idade para roubar e matar tem idade para pagar pelos crimes! Tá com pena? Leva pra casa! Queria ver se fosse você ou um parente seu vítima desses bandidinhos… Lamento, mas são argumentos inválidos porque não são de ordem prática, racional, pautados na realidade. São brados de cachorro louco. Para argumentar é preciso conhecer o assunto e analisar todos os seus ângulos. Não posso comentar sobre um livro que eu não li; não posso julgar uma matéria apenas pelo título; não posso discutir uma problemática social baseado apenas em minhas preferências ou minhas experiências individuais.

Então, atinge-se o nível da ofensa pessoal. Outro tipo de argumentação terrivelmente injusta e incoerente é procurar denegrir a pessoa que profere uma opinião contrária à minha. Se Ruth Rocha diz que Harry Potter não é literatura significa que ela é uma recalcada, uma qualquer que não sabe o que está falando. A afirmação da autora é altamente contestável, de fato. Porém, é preciso separar o pensamento do interlocutor. Para que crucificar eternamente alguém por causa de uma frase? Será que não é possível também avaliar seus pontos positivos? A entrevista completa de Ruth Rocha é bastante interessante e possui diversos comentários pertinentes, além da proclamação infeliz que gerou tanta repercussão. Um caso parecido ocorreu recentemente em relação a um vídeo para a Globo News com texto ousado do Zeca Camargo sobre a morte do cantor sertanejo Cristiano Araújo. Quando se lê os comentários no Youtube, percebe-se uma quantidade significativa de pessoas xingando o jornalista, comparando sua fama com a do cantor, questionando sua autoridade para apresentar aquelas falas. Discordar dos argumentos de Zeca, classificando-os como falhos ou preconceituosos em algum sentido, é perfeitamente possível. O erro, mais uma vez, consiste em denegrir a pessoa, em vez de contestar suas ideias. Essa não é a questão. Não precisamos de um (muito menos de vários) bodes expiatórios para externar nossos ódios.

É cansativo, frustrante ver tanta discussão infrutífera num espaço que poderia ser usado como verdadeira democracia e construção de ideias. Falta consciência, discernimento, compreensão. Mas há esperança. Sempre há (ou precisamos acreditar nisso). Também vejo, ainda que seja em menor escala, comentários inteligentes, discussões prolíficas, sátiras críticas, que me fazem repensar meus conceitos, atualizar minhas informações (como esses textos: Uma resposta a Ruth Rocha sobre Harry Potter não ser literatura e Cristiano Araújo é um ídolo de verdade, Zeca). Realmente, é preciso saber filtrar, e bem, o conteúdo da Internet, ou corre-se o risco de enlouquecer. Ainda torço por uma sociedade menos passional e mais argumentativa. Se for uma utopia, vale a pena sonhar.