Posto que é chama: a infinitude do finito e a finitude do infinito

Reflexões sobre o amor na poesia, sobretudo nos poemas do compositor e poeta brasileiro Vinicius de Moraes

viniciusdemoraes

Mesmo na memória do menos letrado dos brasileiros, reverberam os dois versos finais do “Soneto de fidelidade”, que transcrevo integralmente a seguir:

 

De tudo, ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.

 

Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento.

 

E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama

 

Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.

 

Isto não é um texto acadêmico sobre poesia. Isto mal é um texto sobre poesia. É antes uma reflexão apaixonada e fria sobre Amor. Não venho falar de rimas, de anáforas, aféreses. Não quero escandir os versos, dissecar estrofes – o que aliás gosto de fazer, sendo para mim a descoberta da vida oculta e fulgurante de um poema. Para muitos, porém, é a autópsia da Poesia, e eu não vim abrir cadáver.

Quero mesmo falar de amor – na Poesia e a partir do poema. A partir do Vinicius, o homem que amou mais do que todos (e não me refiro ao fato de ter se casado nove vezes); o homem que era o Amor. Quero falar a partir da vida e dos versos do Vinicius, uma vida difícil de se dissociar dos versos.

O poema em questão foi publicado em 1946, no livro Poemas, sonetos e baladas. É, aliás, o primeiro soneto do livro. Vamos nos concentrar apenas naqueles versos famosíssimos:

 

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.

 

O encantamento que os sons das palavras produzem nos ouvidos gera a reação inevitável: sim, são versos, antes de tudo, belos. Muito belos. Mas o que há por trás da beleza do som talvez nem todo leitor perceba – ou se percebe, finge que não, para não macular o seu agrado.

Suzana de Moraes, primeira filha do poeta, era uma que percebia. Ela declarava que ficaria indignada se recebesse de alguém versos que falassem de um amor fadado ao fracasso (“que não seja imortal”). Então, melhor fingir não entender essa verdade terrível inscrita nos versos… Ou não. Melhor descer aos abismos dos versos.

Vinícius tem apenas a coragem de transpor em palavras – e o dom de fazê-lo belamente – o que todo ser humano, no fundo, sabe: nada, absolutamente nada, na vida, tem a garantia da eternidade. Se a própria vida não é eterna, como poderíamos garantir algo assim?

Em outras palavras: se digo a alguém “meu amor por você é infinito”, isto é e não é verdade. Nesse momento, estou sendo absolutamente sincero, pois a sensação dentro de mim é realmente a de estar vivendo um amor sem fim. No entanto, nada pode garantir que, num futuro próximo ou distante, em qualquer outro momento, eu ainda tenha essa sensação dentro de mim. Caso não tenha, isso não faz de mim um vil mentiroso.

É um fato que a palavra, hoje, perdeu muito de seu valor. Daí a instituição dos chamados “acordos pré-nupciais”, por exemplo, e de outras tantas deliberações judiciais. Já que “palavras, o vento leva”, como nos diz a sabedoria popular, “vale o que tá escrito”, segundo a mesma. “A regra é clara”.

Entretanto, expressões como “homem de palavra” ou “dou minha palavra” eventualmente são ainda lembradas e utilizadas. Desde a primeira vez que lemos “E Deus disse: ‘Faça-se a luz’, e a luz se fez”, já ficou evidente que a palavra tem um grande poder – não só a de Deus. Entre os homens, principalmente no campo afetivo, nas coisas do coração – às vezes muito distantes das coisas da lei –, a palavra ainda vale muito – ou nós esperamos que valha, ingenuamente e apesar de tantas evidências de que a palavra não dá conta de tudo. Quantas vezes já não ouvimos – ou dissemos: “Mas você disse/prometeu que…”? E quantas vezes não respondemos – ou nos responderam – com “Esquece o que eu disse”, “Era diferente”…? Tudo isso é cobrança muito justa em relação a tarefas cotidianas ou objetivas (prometer um almoço ou um favor, pagar uma dívida…), mas em relação a emoções? Será justo?

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. / […] Todo o mundo é composto de mudança”, disse Camões, há muito tempo. E essas palavras ainda hoje dizem muito. Todas as coisas – e pessoas! – mudam o tempo todo, mesmo. E não é falha de caráter, não é por maldade ou vilania. Faz parte das coisas e das pessoas e é um direito que elas têm.

Diante disso, é muito injusto cobrar de quem um dia lhe disse “Vou te amar pra sempre” que realmente ame para sempre. É muito injusto dizer “Mas você disse que ia me amar pra sempre”. É lutar contra a natureza humana. É desrespeitar o momento do outro. É condenar como mentira palavras que foram ditas um dia com muito mais amor do que, de repente, você mesmo jamais sentiu, enquanto seu ímpeto é só exercer propriedade. É uma verdadeira condenação, vontade de encarcerar o outro numa prisão perpétua junto de si – e amor não é e nem pode ser isso. Amor não é e nem pode ser obrigação. Às vezes, a maior prova de amor e respeito é mesmo deixar partir, se o outro não quiser ficar, por mais que doa muito – e justamente porque dói tanto.

O expressão “sem fim”, e, por extensão, o “amor infinito”, tem relação com intensidade. Este é um amor tão grande que não se pode enxergar o seu limite. “Amar para sempre” tem evidente relação com o tempo; é amar até o fim dos tempos. Não há homem que possa garantir amar até o fim dos tempos; só podemos jurar o amor presente, mas o homem que diz “até o fim dos tempos”, para chegar a dizer isso, é porque sente um amor tão grande – tão infinito – que sente que poderia – e tem vontade mesmo – de amar para sempre.

Portanto, as expressões de tempo, quando se referem ao amor, não falam de tempo; falam do que o homem pode falar: intensidade. Amar “para sempre”, “eternamente”, “infinitamente” etc. é tudo expressão de amor intenso. Talvez não dure até o fim da vida – o mais próximo do “para sempre” que o amor pode chegar, dentro da vida finita do homem –, mas podemos ter a certeza: a pessoa que nos diz isso, no momento em que diz, se estiver há muito tempo longe de nós, sente aquele vazio estranho no peito e, muito sinceramente, até chora, de pura saudade.

É o que torna possível, por exemplo, um verso como “amou-me eternamente por seis meses”, de um poeta anônimo rabiscador de muros no bairro do Grajaú; é o que torna possíveis os versos do nosso poeta. Tanta intensidade é flagrante em poemas como Os acrobata, do qual destaco a estrofe a seguir:

 

Oh, acima

Mais longe que tudo

Além, mais longe que acima do além!

Como dois acrobatas

Subamos, lentíssimos

Lá onde o infinito

De tão infinito

Nem mais nome tem

Subamos!

 

Como às vezes é impossível separar o poeta do homem, vale lembrar que o Soneto de fidelidade, que vimos há pouco, foi escrito em Portugal, outubro de 1939, para Tati de Moraes (pseudônimo da tradutora e jornalista Beatriz Azevedo de Melo Moraes), primeira esposa de Vinicius – e a mais importante, segundo o próprio, até porque teria aprendido muito sobre literatura com ela e teria se “convertido” ao comunismo sob influência dela.

A história do casal é digna de romances românticos do século XIX. Quando se conheceram, Tati (lê-se com a tônica no “i”) já era noiva de um rapaz rico de São Paulo – enquanto Vinicius ainda não era mais do que um estudante e poeta em ascensão. Tati, por sua vez, dois anos mais velha do que Vinicius, já trabalhava como tradutora, estudara na Europa, era mulher independente; culta, esperta e bonita, seus atributos foram, inclusive, a inspiração para a personagem Narizinho, de Monteiro Lobato, que fora grande amigo de sua mãe. Apesar de tudo, foi tão intensa a atração mútua entre Tati e Vinicius que ela desfez o noivado e foi se juntar a ele na Inglaterra, quando o poeta estudava por lá.

A esse propósito, vale ressaltar que “o poema A última elegia, ambientado em Londres [e escrito em 1938], tem como ponto de partida os encontros entre os dois. Vinicius fugia à noite do Magdalen College [campus da Universidade de Oxford, onde o poeta estava fazendo um curso] para se encontrarem às escondidas. Eles se casaram por procuração em 1939 [ela no Rio, ele em Oxford], enquanto Vinicius ainda estudava, ferindo uma das regras da instituição, que não permitia alunos casados”, conta-se na última edição de Cinco elegias, reeditado em conjunto com Novos poemas em 2012 pela Companhia das Letras. Vinicius escalava os muros do Magdalen College para escapar à noite, pegava o trem em Oxford, encontrava Tati em Londres e regressava pela manhã, quando a entrada e a saída dos estudantes eram liberadas.

Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, os dois retornam da Europa, vindo por Portugal. É em Estoril, região portuária portuguesa, que Vinicius escreve o Soneto de fidelidade, dedicado à Tati, enquanto aguardam a partida do navio de volta ao Brasil, em 1939. A união do casal, sacramentada neste ano, duraria mais onze – e foi, seguramente, uma chama infinita, mesmo que o poema demonstrasse que o poeta já tinha consciência da possibilidade da finitude, que sempre ronda todas as relações amorosas.

Em 1953, seria gravado, pela cantora Aracy de Almeida, o primeiro samba de autoria de Vinicius (em parceria com Antônio Maria), Quando tu passas por mim:

 

Quando tu passas por mim

Por mim passam saudades cruéis

Passam saudades de um tempo

Em que a vida eu vivia a teus pés

 

Quando tu passas por mim

Passam coisas que eu quero esquecer

Beijos de amor infiéis

Juras que fazem sofrer

 

Quando tu passas por mim

Passa o tempo e me leva para trás

Leva-me a um tempo sem fim

A um amor onde o amor foi demais

 

E eu que só fiz te adorar

E de tanto te amar penei mágoas sem fim

Hoje nem olho para trás

Quando tu passas por mim

 

Logo, ainda que se fale de “um amor onde o amor foi demais”, cuja lembrança traz “saudades cruéis” e juras do passado que, no presente, “fazem doer”, não há mais por que olhar para trás. Esta passagem da mulher por ele é muito mais trágica do que a famosa passagem, que ainda viria, da “Garota de Ipanema”. A “Garota” é uma chama que lhe dá vontade de acender; “Quando tu passas por mim” é chama já extinta, da qual só ficaram as cicatrizes das queimaduras dolorosas da saudade.

Quando uma chama se apagava, Vinicius acendia outra, com a mesma vontade de infinita intensidade; tanto que para sua terceira mulher, Lila Bôscoli, ele escreveria o belíssimo Poema dos olhos da amada, em 1950, depois transformado em canção.

Vinicius não mentia; amava, mesmo. Era ele todo intensidade. Em depoimento sobre os amores da juventude do poeta, afirma sua irmã, Laetitia de Moraes:

 

“Durante esse período de intensa busca de si mesmo […], encontrou Vinicius seu primeiro amor, a ele se entregando total e intensamente. Ela chegara, enfim. A Namorada. Outras houvera antes, menos namoradas que “garotas”, dessas com quem se conversa agarradinho no escuro dos portões de ruas transversais. Era a Namorada, aquela a quem se quer que todo o mundo veja e admire, com quem se deseja casar e ter filhos e morrer juntos. Vinicius dissolve-se em amor:

“A minha namorada é tão bonita; tem olhos como besourinhos do céu, tem olhos como estrelinhas que estão sempre balbuciando aos passarinhos… É tão bonita! Tem um cabelo fino, um corpo menino e um andar pequenino, e é a minha namorada…”

Era bonita, sim, mas uma menina como as outras. De família burguesa, que não via com bons olhos o namoro dela com um rapaz de vinte anos, formado mas ainda sem emprego, indeciso sobre o que pretendia fazer de si, sem fortuna… e já falando em ficar noivo e casar. Ela própria, dividida entre o carinho por Vinicius e o respeito às ideias da família, e talvez um pouco assustada com a veemência do poeta, retribuiu-lhe, em pequeno e esquivamente, o grande sentimento que lhe dedicou meu irmão. O fato de residir em São Paulo, as dificuldades que a família dela levantava para que ele a visse, ainda que, a princípio, exacerbassem o seu amor, acabaram por esgarçá-lo, apequená-lo.

Quando morreu, não sei.”

 

Isto sem contar a fascinação do menino, ainda aos oito anos, segundo conta a irmã, por uma amiga de sua mãe, “moça bonita e dona de lindas pernas, que Vinicius conseguiu, certa vez, e escondido debaixo da mesa, sorrateiramente alisar”. O poeta, desde cedo, portanto, já amava cada mulher intensamente, nela buscando O Amor; A Mulher. Ele se aventurou, lançando-se inteiro e inconsequentemente nessa busca, ao longo de toda a vida – e talvez ainda esteja em busca.

Diferente dos homens em geral, Vinicius apenas tem a coragem de reconhecer na chama, no fogo, a verdadeira metáfora do Amor – e não só da Paixão. Dessa maneira, ainda que não seja imortal – já que todo fogo em algum momento se apaga –, enquanto esta chama queimar – a graça do Amor é a beleza do fogo crepitando –, Vinicius deseja que seja tão intenso que as suas labaredas subam até o céu, além do céu, acima do além, mais longe que acima do além, até lá onde o infinito, de tão infinito, nem mais nome tem…

Mas o tempo? Seu tempo é “quando”.

Rafael Mendes
Rafael Mendes é ficcionista, poeta, ator, dublador, revisor, professor, amador - posto que ficcionaliza, poeta, atua, dubla, revisa, professa, ama. Atualmente é doutorando em Literatura Brasileira pela UFRJ e pesquisa a obra do poeta Dante Milano. É autor do volume de contos Desmoronaventos (2014).
Rafael Mendes
Rafael Mendes é ficcionista, poeta, ator, dublador, revisor, professor, amador - posto que ficcionaliza, poeta, atua, dubla, revisa, professa, ama. Atualmente é doutorando em Literatura Brasileira pela UFRJ e pesquisa a obra do poeta Dante Milano. É autor do volume de contos Desmoronaventos (2014).
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