A presença de Byron em “Desonra”, de J. M. Coetzee

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No livro Desonra, de J. M. Coetzee, há um professor de literatura obcecado não só pela obra de Lord Byron, como também por  sua vida 

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J.M. Coetzee | Foto: Van Halewyck

A autorreferência é um expediente bastante utilizado na literatura. Ocorre desde a Antiguidade, quando o culto aos grandes poetas tinha muito mais importância do que tem hoje. Obras contemporâneas que se utilizam desse recurso costumam agradar aos críticos, principalmente por evidenciarem um certo virtuosismo por parte do autor. Porém, não é sempre que as referências se misturam com propriedade à história, dando sentido real à sua introdução, aumentando significativamente o poder de impacto no leitor. Livros como Desonra, do sulafricano J. M. Coetzee, são um feliz exemplo de como a relação entre a literatura e seu próprio passado pode ser estabelecida com vigor e competência.

A obra conta a história de David Lurie, professor universitário de literatura na Cidade do Cabo obcecado pela vida e obra de Byron, famoso poeta do romantismo inglês. O estudo intensivo do autor leva David a assimilar algumas das visões byronianas em sua vida, como o entendimento do poeta sobre o amor, algo que é sublime e coloca o homem em contato com o mais profundo e nobre do seu ser. É o que o professor diz a si mesmo, é o que ensina. Isso pode ser observado em sua resposta à pergunta da aluna Melanie Isaacs, quando esta o questiona a respeito da morte prematura do poeta:

Trinta e seis. Todos morrem cedo. Ou secam. Ou ficam loucos e são trancafiados. Mas Byron não morreu na Itália. Morreu na Grécia. Foi para a Itália fugindo de um escândalo e ficou lá. Morando. Teve o último grande amor da sua vida. Os ingleses iam muito para a Itália naquela época. Achavam que os italianos ainda estavam em contato com sua própria natureza. Menos amarrados pelas convenções, mais apaixonados.

(c) Government Art Collection; Supplied by The Public Catalogue Foundation
Lord Byron

Trata-se de um belo discurso, mas que entra em contradição com sua própria maneira de viver o amor. David foi casado duas vezes e, separado, viveu por algum tempo apenas em contato semanal com a prostituta Soraya. Com ela, já demonstrava traços de um comportamento sexual coercitivo – quando é rejeitado, descobre seu telefone e a assedia em casa. É algo que vemos sendo exercido com ainda mais ênfase na relação com Melanie, a quem decide seduzir. Cerca-a em locais diversos do campus, aparece na porta de seu apartamento sem avisar, até que a moça cede a sua incômoda insistência. Pense na relação entre eles como algo diferente (“Estranho amor! Mas da aljava de Afrodite, deusa da espuma do mar, sem dúvida nenhuma”), porém não violenta ou opressiva, embora a forma como ele descreve um de seus encontros nos denuncie essa segunda versão:

Estupro não, não exatamente, mas indesejado mesmo assim, profundamente indesejado. Como se ela tivesse resolvido ficar mole, morrer por dentro enquanto aquilo durava, como um coelho quando a boca da raposa se fecha em seu pescoço.

David não consegue encarar seu desejo pela aluna de vinte anos como algo errado. Ele sente desejos que considera naturais e que não deveriam ser controlados. Negá-los seria negar a si mesmo, ser desonesto com a sua própria identidade. Assim, vemos esse homem assumir comportamentos hedonistas e arrogantes, de quem tem direito, de quem deve ser satisfeito.

É interessante como, nesse ponto, a obra de Byron revela algo sobre David. Em classe, o professor explica parte do poema Lara, explorando as estrofes que apresentam Lúcifer e sua maldade orgulhosa na busca por seus desejos:

Era um estranho nesse mundo respirante
De outro mundo caído, espírito errante;
Coisa de escuros sonhares, que moldava
Com a vontade os riscos que o acaso lhe poupava.

[…]

Por outrem
Podia às vezes renunciar ao próprio bem,
Mas não por piedade, nem por obrigação,
Mas por uma estranha maldade de intenção,
Que com secreto orgulho o impulsionava
A fazer o que pouco ou nenhum ousava;
E esse mesmo espírito talvez o anime
Na hora da tentação a ceder ao crime.

A correlação com o protagonista é clara. Ele é condescendente com seus impulsos, assim como Byron é com Lúcifer – um paralelo que deveria alarmá-lo, mas lhe soa como uma espécie de consolo. O poema diz: Sua loucura não é da cabeça, é do coração. E isso parece justificar qualquer ato, tanto do demônio quanto dele. A defesa que David faz desse Lúcifer, reconhecido como um monstro, mas incapaz de dominar-se, é emblemática de sua condição, de sua triste incontinência:

Vejam que o poeta não nos pede para condenar esse ser com o coração louco, esse ser que tem alguma coisa errada em sua própria constituição. Ao contrário, o que nos é proposto é compreender e mostrar tolerância. Mas há um limite para a tolerância. Pois embora viva entre nós, ele não é um de nós. Ele é exatamente o que disse ser: uma coisa, isto é, um monstro. Enfim, Byron irá sugerir que não é possível amá-lo, não no sentido humano mais profundo dessa palavra. Ele será condenado à solidão.

A visão que temos de David a partir dessas ideias não será nunca a que ele requer do mundo. Percebemos a sua covardia, as falácias de sua filosofia barata, calcadas numa exploração da sexualidade feminina nem um pouco digna. Esses preceitos, a que ele se apega com unhas e dentes mesmo diante do Conselho da universidade, após a denúncia feita por Melanie, só serão postos realmente em xeque a partir de um evento violento envolvendo sua filha Lucy. Ele não se identifica com os agressores da moça – por que são negros? Por que são pobres? Por que não têm educação? – mas a tentativa de um pedido de desculpas à família de Melanie posteriormente mostra ao leitor que algo mudou nele. Se não um verdadeiro arrependimento, ao menos uma crise de consciência, antes inexistente. O Lúcifer, o monstro, parece ter conseguido um espelho.

Byron volta no final da obra, não como referência literária, mas de vida. David, que já havia manifestado o desejo de escrever uma ópera com a história do poeta e da amante Teresa, resolve se dedicar ao projeto com ardor, pois pouco, além disso, lhe resta. No entanto, o professor encara agora essa narrativa não como uma ode ao amor verdadeiro, mas ao amor desencantado, que leva a sofrimento de ambos os lados. Inicialmente, há uma identificação com Byron que, como ele, cansado das grandes paixões, desejaria uma morte calma e gloriosa:

Teresa se sente uma prisioneira; ferve de ressentimentos e insiste com Byron para que a leve para uma outra vida. Quanto a Byron, está cheio de dúvidas, embora seja prudente demais para manifestá-las. Os primeiros êxtases, ele suspeita que nunca se repetirão. Sua vida foi acalmada; secretamente, ele começa a desejar uma retirada tranquila; não sendo possível, a apoteose, a morte. As altas árias de Teresa não acendem nele nenhuma fagulha; sua linha vocal, sombria, intrincada, vai além dela, passa por ela, atravessa-a.

Mas, depois, vem a identificação com Teresa, uma Teresa mais madura, que sofre ao se ver como uma mulher que deseja o amor de um homem que, antes de morrer, talvez já não a quisesse mais.

Nos anos que se passaram desde a morte de Byron, os amigos escreveram memórias sobre memórias baseadas em suas cartas. Depois de conquistar a jovem Teresa do marido, diz a história narrada por eles, Byron cansou-se dela; achou que era cabeça oca; ficou com ela só por dever; foi para escapar dela que pegou o barco para a Grécia e para a morte.

"Desonra" (Companhia das Letras, 2000)
“Desonra” (Companhia das Letras, 2000)

Ele então se questiona se seria capaz de se interessar por essa mulher, de fazer dela a heroína da sua ópera. Uma mulher velha, abandonada, fora de lugar. Assim como ele, David, um homem cheio de autopiedade e deslocado. Um ser patético, inábil para lidar com seus desejos e conduzir sua existência.

Assim será daí por diante: Teresa dando voz ao seu amante, e ele, o homem dentro da casa saqueada, dando voz a Teresa. O roto ajudando o rasgado, por falta de coisa melhor.

A relação com a história de amor de Byron e com sua poesia é apenas uma das interessantes facetas da obra de Coetzee. A história opõe campo e cidade na busca pela felicidade, coloca o cenário de preconceito implícito na África do Sul pós-apartheid e questiona qual a importância de cada um dentro de uma sociedade em constante mudança. Sem dúvida, um livro que merece ser lido e pensado. Mas, para os amantes da literatura, ele traz esse “algo a mais”, essa ligação entre o protagonista e Byron, um poeta de vida e obra tão intensas, relevante a muitas gerações. É uma proposta de desmistificação dos ideais românticos, que, conforme sugere o autor a partir de seu protagonista, sempre estiveram a serviço de um certo grupo de pessoas. Um exercício metalinguístico de fôlego, que com certeza só acrescenta interesse a esse notável trabalho do autor.