Alessandro Garcia resenha seu conto predileto: ‘O perseguidor’, de Julio Cortázar

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1.
Em matéria do O Globo, por ocasião do centenário de Julio Cortázar, o editor catalão Carles Álvarez Garriga relembra o que diz Holden Caulfield em O apanhador no campo de centeio. Há dois tipos de escritores preferidos: os clássicos, que se lê com grande atenção, mas com um pouco de distância; e aqueles com os quais se gostaria de conversar por telefone. Tal qual Garriga, Cortázar é aquele com quem eu gostaria de conversar por telefone.

2.
Em primeira instância, a literatura de Cortázar tende a ser classificada como fantástica. No entanto, como a própria declaração do autor, no livro Conversas com Cortázar, de Ernesto Gonzáles Bermejo, definir o fantástico encobre em si uma gama demasiada de possibilidades. Mas, se for inevitável rotular sua obra, a melhor definição provavelmente esteja como narrativas de estranhamento. Estranhamento, este, presente desde a vertigem que se abate sobre o leitor de Casa Tomada, obra-prima de seu livro em que estreia na prosa, Bestiário: neste, e no melhor de sua obra, é o sentimento de estranhamento que, aos esbarrões, vai se ajeitando onde menos se espera e surgem, então, os encontros fora de hora ou de lugar, as brechas e os interstícios mais insuspeitos no cotidiano mais banal.

3.
Um trecho, de Reunião com um círculo vermelho, do livro Alguém que Anda por Aí, é perfeito para ilustrar este estranhamento, ajeitando-se aos esbarrões: “Você, como acontece tantas vezes, não teria podido precisar o momento em que acreditou entender; também no xadrez e no amor há esses instantes em que a névoa se levanta e então se realizam os lances ou os atos que um segundo antes teriam sido inconcebíveis.”

4.
Como o vampirismo, tema do conto acima, Cortázar nutria algumas obsessões, elementos constantes em seus textos: estruturas e meios de passagem, tais como metrôs, bondes, barcos e pontes; o jogo — como um instrumento revelador de potencialidades que desviam da normalidade repetitiva; e as possibilidades/impossibilidades espaço-temporais.

5.
Em suas tramas, todos estes elementos remetem a outra coisa. São como válvulas para instantes epifânicos. E um destes temas, as possibilidades/impossibilidades espaço-temporais, é centro do meu conto preferido: O perseguidor, do livro As Armas Secretas. Um conto cuja conclusão pode ser: existem dois tipos de tempo — o do relógio e aquele que vivemos de verdade. O segundo é o que está em nossa cabeça, sem obedecer às regras da física.

6.
Dedicado a Charlie Parker, este conto é considerado o divisor de águas da carreira de Cortázar. O próprio autor considera que, a partir daí, o personagem deixa de ser um joguete a serviço da trama e passa a ser o centro da narrativa. Ele se realiza, e se concretiza, pela busca do que Cortázar chamou de “fato humano essencial”. Publicado em 1959, tem como personagem principal Johnny Carter, saxofonista virtuose inspirado na figura daquele a quem o conto é dedicado. A partir do narrador, Bruno, um crítico musical, Cortázar nos faz acompanhar o desespero de Johnny, angustiado não só pelo abuso de drogas, mas por um desejo de romper barreiras, de fazer o tempo — do relógio — trabalhar a seu favor, estendê-lo de tal modo como o tempo de sua cabeça, de forma que pudesse viver “mil vezes mais do que estamos vivendo por culpa dos relógios.”

7.
Mesmo que a angústia em relação ao tempo fosse o único cerne deste conto — nos jogando na fronteira de compreender o que é delírio e o que é genialidade naquele músico —, já teríamos a melhor realização de Cortázar para uma de suas obsessões. Além disso, no entanto, O perseguidor faz do jazz (paixão e outro elemento recorrente do autor) a forma perfeita de questionar a problemática da linguagem artística, questão fundamental em sua obra. Cortázar ambicionava na literatura a liberdade criativa do jazz. E se temos uma história onde este ecossistema é perfeita e fascinantemente apresentado — com o universo noturno cool de bares e de ensaios, o cotidiano repleto de mulheres e colegas de banda igualmente envolvidos com drogas, e mesmo o crítico musical, um branco que pretende compreender a obra de Johnny, traduzindo para outros brancos o universo genial e indescritível do jazz —, também temos um conto que reúne as características fundamentais da prosa cortazariana, em sua visão da arte como busca constante e como rebelião. Com a criação de Johnny e seus delírios cotidianos — com sua mente que percorre dias e meses entre duas estações de metrô separadas por minutos — , Cortázar reflete em seu personagem o artista que era, buscando extravasar os limites e escrever com invenção constante, improvisando através de trajetos labirínticos. Uma busca que podia levar à destruição, mas que tal qual Johnny, fez de Cortázar um constante perseguidor.

 

Trecho do conto ‘O perseguidor’, de Julio Cortázar

Nesse momento tenho certeza de que Johnny diz alguma coisa que não nasce somente do fato de estar meio louco, tenho certeza de que a realidade escapa dele e deixa nele uma espécie de paródia que Johnny transforma em esperança. Tudo que Johnny me diz em momentos assim (e faz mais de cinco anos que Johnny me diz e diz a todo mundo coisas parecidas) não se pode escutar prometendo a si mesmo que depois pensará de novo no assunto. Assim que voltamos para a rua, assim que é a lembrança e não Johnny quem repete as palavras, tudo se torna uma invenção da maconha, um monótono agitar de mãos (porque há outros que dizem coisas parecidas, toda hora encontramos depoimentos parecidos) e depois da maravilha nasce a irritação, e pelo menos comigo acontece de sentir como se Johnny tivesse estado me gozando. Mas isso acontece sempre no dia seguinte, e não enquanto Johnny está falando, porque então sinto que existe alguma coisa que quer ceder em algum lugar, uma luz que procura se acender, ou ainda como se fosse necessário quebrar alguma coisa, quebrá-la de cima para baixo como um tronco enfiando-lhe uma cunha e martelando até o fim.

 

Trecho do conto ‘As nuances mais opacas’, de Alessandro Garcia

Se durante todo esse tempo, daqui para adiante, eu sentir-me não apodrecido, não-envolvido em pesada e já ressequida lama, se eu conseguir olhá-la com olhos que não sejam mentirosos, se eu já não disser frases com a face voltada em outra direção; se eu não me sentir compelido a confissões, a rasgares de alma para crenças nas quais não creio, se eu não sentir uma culpa infinita e um peso desesperado em cima dos meus ombros – é porque a sujeira terá começado a dissipar-se. E Pablo, assim como eu, começará a sentir-se outro, após longo tempo, depois de passadas as quedas e os retornos para os erros, eu poderei começar a sentir-me limpo.

 

Alessandro Garcia (Porto Alegre, 1979) é escritor e editor da revista Flaubert. Autor de A sordidez das pequenas coisas, finalista do Prêmio Jabuti e do Fundação Biblioteca Nacional, prepara o romance A zona da invisibilidade. Site: alessandrogarcia.com