Proseando: A atualização da Teoria do Medalhão

Ainda no espírito das comemorações dos 105 anos de morte de Machado de Assis, resolvi trazer para a coluna um texto do escritor Xico Sá, baseado no conto Teoria do Medalhão. Resumindo a história, trata-se de um pai aconselhando o filho, Janjão, a como prosseguir para obter sucesso na vida, quando ele atinge a maioridade. O objetivo do pai é que o filho se torne um medalhão: exuberante por fora e oco por dentro. Segundo ele, para ter prestígio social, basta parecer culto e sábio, sem provocar polêmicas e sem se aprofundar em questões metafísicas, porque ter ideias originais é perigoso. Ou seja, é preciso oferecer o que a sociedade quer, passar uma falsa de imagem de intelectualidade e sociabilidade, mesmo sendo, na verdade, uma pessoa supérflua.

Infelizmente, o conto de Machado ainda se mostra bastante atual. O que se vê de medalhão “bombando” na mídia ou mesmo no universo acadêmico não é pouca coisa. Na contemporaneidade vive-se muito de aparências, de exibicionismo, de felicidade forçada. Eu não compro um carro 0 km para o meu conforto, mas sim para fazer inveja ao meu vizinho. Dou uma festa não para reunir os amigos, e sim para ostentar meus bens. Posto fotos românticas com o namorado nas redes sociais não porque gosto dele e quero compartilhar minha alegria, é para esfregar na cara das minhas colegas encalhadas como eu sou sortuda. Mesmo que seja tudo mentira. A minha vida pode estar uma droga. Não importa. Os outros precisam acreditar que eu sou a pessoa mais linda, magra, bem-sucedida e amada da face da Terra. Ou então, qual é a graça?

Aliás, acho que a situação até piorou. Se na época de Machado ainda era preciso saber por alto sobre obras clássicas e realizar discursos empolados e vazios em jantares, hoje basta dar uma reboladinha na TV para ganhar fama.

Questão parecida, épocas diferentes. Portanto, como seriam os conselhos do pai de Janjão atualizados do século XIX para o século XXI? Apresento aqui, na íntegra, as sugestões de Xico Sá:



Nome próprio – Não careces enfiar tantos ll dobrados, kk, ys e quetais, mas é bom que tenhas um batismo artístico curtinho. Em 1942, Mário de Andrade já alertava o então Fernando Tavares Sabino, que derramara no papel os primeiros contos, a cortar um dos sobrenomes. Dito e feito.

Ideias – “O melhor será não as ter absolutamente”, como diz o pai do Janjão, o mancebo citado logo ali, na cumeeira desta crônica.

Ironia – Eis o ímã para chamar inimigos e puxadores-de-tapete aos borbotões. Nem diante do espelho deves ensaiar este movimento de canto de boca, recurso inventado, segundo o pai de Janjão, por algum grego da decadência.

Citações – A depender do auditório. Como todo bom mineiro sabe, em terra de sapo… de cócora com ele. Em um ambiente sério e respeitoso, Shakespeare, sempre Shakespeare; entre mulheres e gays, Wilde, muito Oscar Wilde.

Importante: não te apresses a dizer o nome do feliz proprietário da frase, omita-o. Para quem sabe a autoria, não haverá nenhum pecado nisso; e aos ouvidos dos tolos, soará como uma boutade de sua mente privilegiada. Arrancarás suspiros!

Metáforas – Tão-somente as ululantes ou futebolísticas, como o ex-presidente Lula.

Polêmica – No Brasil, o reacionarismo não é uma maneira de reagir a algo ou alguém, é meio de vida. Polemize. Principalmente sobre o que ignora. Como a medicina cubana, por exemplo.

Bajulação – Não te limites a acariciar os chefes, críticos e demais pessoas que possam te ajudar neste alpinismo apenas com os adjetivos da submissão e da mesquinhez. Mimos retóricos não bastam – nem mesmo quando embutem um certo jabá do erotismo e do assédio. Estas criaturas-degraus devem ser tratadas a pão de ló e caros presentes, não te envergonhes e trate-os além, muito além das tuas próprias posses.

Metafísica de mulherzinha – Excelente, indispensável. Trata-se daquele discurso sub-Clarice Lispector, com um pouco de sub-Fernando Pessoa, com o qual, sendo tu fêmea ou não, escriba ou não, narras as tuas dúvidas e inseguranças mais comezinhas, teus lunduns telefônicos, teus queixumes de banheiro, tuas incomunicabilidades de TPM, teus eus perdidos que enchem o saco de todos os nossos outros eus.

E você, o que achou da lista atualizada? Conhece ou já conheceu alguns medalhões por aí? Comente!



Nicole Ayreshttp://sentimentosemcompotas.blogspot.com.br/
Professora de francês, Mestra em Teoria da Literatura pela UERJ, escritora e editora assistente no Homo Literatus. Apaixonada pelas palavras e pela vida. Não sabe definir os limites entre seu fazer artístico, professoral e humano, e nem pretende.
Nicole Ayreshttp://sentimentosemcompotas.blogspot.com.br/
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