A identificação autor/personagem/leitor

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O ser humano é um composto de razão e emoção. O artista também, e acaba transparecendo isso em sua obra. Há correntes literárias que defendem a pura expressão da subjetividade, como o Romantismo, e outras que, por oposição, defendem um trabalho árduo com a palavra, como o Parnasianismo. Inspiração ou transpiração? Eu diria que os dois elementos caminham juntos, inevitavelmente. Impossível um escritor de qualidade ser totalmente subjetivo ou objetivo, por mais que tente ou proclame ser. Toda criação artística envolve uma dose de talento e outra dose de esforço, em equilíbrio. Sabemos que não se deve confundir a vida do autor com sua trama ficcional nem com seus personagens, no entanto… Como não misturar um pouquinho?

Acontece que escrever é muito pessoal. Não há como não se envolver com a história e os personagens criados, no ato da escrita. Se o leitor já se envolve, imagine o autor, que é, na verdade, o primeiro leitor de sua própria obra. Para exemplificar essa identificação entre autor e personagem, cito dois grandes escritores, de estilos quase opostos: Gustave Flaubert, com Madame Bovary, e Clarice Lispector, com A Hora da Estrela.

Flaubert, considerado o fundador do Realismo na França, apesar de negar o pertencimento à escola, trabalha exaustivamente a forma e prega uma pretensa impessoalidade. Ele demorou cinco anos para completar Madame Bovary, considerado um clássico da literatura. O narrador acaba “entregando” algumas opiniões do autor, com suas árduas críticas à burguesia, ao cientificismo e à religião; em relação à Emma Bovary, a protagonista, ora ele a ataca por seus caprichos e erros, ora se apieda dela, por sua ingenuidade. Em cartas a amigos, o escritor faz algumas confissões interessantes, em que podemos enxergar um pouco de suas próprias reações no processo de escrita:

capa-madame-bovary“A Bovary me entedia.”

(Compreensível, já que Emma vive entediada.)

“Esse assunto burguês me enoja. Que maldita ideia a minha escolher um assunto assim!”

(As dificuldades do escritor em escrever sobre um assunto que o incomoda tanto.)

“Minha pobre Bovary sofre e chora em vinte cidades da França, a esta hora mesmo.”

(Aqui percebemos que Emma Bovary representa um grupo de mulheres sofredoras, que, na tentativa de serem felizes, acabam causando sua própria desgraça.)

“Madame Bovary sou eu.”

(Por fim, o autor confessa a identificação, nessa célebre frase. Madame Bovary é Flaubert, suas desilusões são transfiguradas na heroína romântica.)

Por sua vez, Clarice Lispector, figura importante da literatura brasileira, é conhecida por sua subjetividade poética aflorada. Sua obra é quase uma confissão. Em A Hora da Estrela, o narrador, que se personifica num pseudoautor, usa de metalinguagem para explicar o processo criativo da obra, dialogando com o leitor; além disso, ele também desenvolve uma relação de amor e repulsa pela protagonista Macabéa. Clarice disse, em entrevista, que a ideia de Macabéa e do livro surgiu quando ela cruzou com o olhar perdido de uma retirante nordestina na feira de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Também o narrador conta essa versão, no primeiro capítulo. Algumas passagens do romance para ilustrar:

capa-a-hora-da-estrela“Como a nordestina, há milhares de moças espalhadas por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás de balcões trabalhando até a estafa. […] Poucas se queixam e ao que eu saiba nenhuma reclama por não saber a quem. Esse quem será que existe?”

(Como Emma Bovary, Macabéa representa uma classe social, excluída e sem voz.)

“Vai ser difícil escrever esta história. Apesar de eu não ter nada a ver com a moça, terei que me escrever todo através dela por entre espasmos meus.”

(Aqui percebemos a angústia do narrador/autor ao elaborar a personagem e sua história.)

“Ainda bem que o que eu vou escrever já deve estar na certa de algum modo escrito em mim.”

(Só faltou Clarice dizer, como Flaubert, que Macabéa é ela. Mas essa frase representa bem a ideia, não?)

O mesmo processo pode, em certa medida, acontecer com o leitor. Quem nunca se identificou com um personagem ou se apaixonou pelo(a) mocinho(a) do livro? Amamos, odiamos, torcemos, julgamos, impossível sermos indiferente aos personagens com quem “convivemos” durante dias ou semanas de nossas vidas. Semelhantes ou diferentes a nossas realidades, são histórias que nos tocam, nos ensinam e nos transportam a variados universos.

Portanto, como dissociar completamente autor-personagem-leitor, se são todos feitos da mesma matéria ficcional, se são todos representações humanas, compostos imperfeitos de razão e emoção?