Proseando: A Literatura como Felicidade Clandestina

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Clarice Lispector (1920-1977) é um dos maiores nomes da literatura brasileira do século XX. Ela é conhecida por sua literatura intimista e por suas epifanias. O mais interessante em Clarice é como sua escrita flui com naturalidade e lirismo. Ela sabe ser, ao mesmo tempo, feminina e universal, simples e complexa, suave e impactante, reunindo uma coletânea de belas dubiedades, que tornam a sua obra inesquecível.

As protagonistas de seus romances e contos geralmente são mulheres comuns, tomadas por uma súbita crise existencial. No conto Felicidade Clandestina, pertencente a uma coletânea do mesmo nome, publicada em 1971, a protagonista é uma menina, o que abranda o questionamento existencial, dando um tom mais leve ao texto. De caráter confessional e autobiográfico, a narrativa se passa no Recife, onde Clarice viveu sua infância. Trata-se, na verdade, do nascimento de uma paixão, de uma linda história de amor à literatura.

Capa da 1ª edição de Felicidade Clandestina (1971)
Capa da 1ª edição de Felicidade Clandestina (1971)

Uma garota gorda e grosseira, filha de um dono de livraria, possui um certo sadismo em torturar a amiga que adora ler, protelando indefinidamente a promessa do empréstimo de um livro. Até que um dia a mãe da garota percebe a situação e finalmente entrega o exemplar à menina. Ah, sim. O livro em questão é Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. A jovem fica tão feliz com o objeto literário nas mãos que esquece rapidamente toda a agonia passada para consegui-lo. Em sua euforia, ela esconde o livro pela casa, fingindo não possuí-lo, lê um pouquinho de cada vez para não terminar logo, e todas essas manias loucas de leitor que só quem é apaixonado pelas letras entende. O livro torna-se, enfim, sua felicidade clandestina.

O conto tem um dos finais mais bonitos e emocionantes que eu conheço e é o meu preferido (não só da escritora, mas de todos que já li na vida). O curioso é que, quando fui reler A Hora da Estrela, romance da mesma autora, recentemente, para um trabalho, eu tive uma sensação parecida com a da pequena Clarice do conto. Quase não consegui ler tudo. Parava a cada página, a cada parágrafo, a cada palavra. Tinha vontade de jogar o livro longe, num misto de empolgação e revolta. Contava as páginas, pulava as linhas, nervosa, maravilhada, fora de mim. Descobri que A Hora da Estrela é a minha felicidade clandestina. Ou talvez o próprio Felicidade Clandestina seja a minha felicidade clandestina! Não sei. Só sei que não tem como não se identificar com a menina que sofre e cresce através da literatura. Afinal, o quanto não aprendemos com os livros? O quanto não choramos, rimos e passamos pelas mais diversas emoções antes, durante e depois do processo de leitura? Clarice nos mostra que a literatura é a mais autêntica felicidade clandestina.

E você? Que livro é a sua felicidade clandestina? Deixe seus comentários!

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Você pode ler o conto completo aqui e também pode ouvi-lo na bela narração de Aracy Balabanian, no Youtube.