Qual é o foco da Bienal de São Paulo?

Os colaboradores do Homo Literatus discutem a decisão da Bienal

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Mais uma Bienal do Livro a caminho!
Finalmente uma chance para encontrar alguns escritores admirados, ter a experiência da Bienal, grande evento literário…
Um momento, quem são esses no anúncio?
Youtubers, os best-sellers da vez.
Deixemos os escritores, ou pelo menos o que entendemos que são escritores, de lado. Nem é questão de obra importante, mas eles não são o destaque da vez.

Escolha da organização da Bienal de São Paulo.

Alguns dos nossos colaboradores nos passam suas impressões sobre a decisão da Bienal, que além de polêmica nos leva a muitos questionamentos sobre os eventos deste porte no Brasil.

Confira:

 

Clara Madrigano

Bienal chegando e o bafafá do momento é livro de YouTuber; YouTubers vão destruir a literatura, segundo dizem. Vale lembrar que há sempre alguém destruindo a literatura: até algum tempo atrás, eram os livros de Minecraft, os livros de colorir; antes disso, leitores digitais; ainda antes, foi Crepúsculo. Para quem recebe tantos golpes aparentemente mortais, até que a literatura resiste. Mas dos YouTubers, garantem, ela não passa, porque YouTubers são o que de pior poderia ter nos acontecido. Na Bienal deste ano, eles que vão receber o destaque, e não os escritores. Vou frisar: os escritores de verdade. Apesar de que mesmo entre eles não existe muito consenso. Escritora de romance é escritora de verdade? Provavelmente não. Escritora de fantasia é escritora de verdade? Acho que reprovaria no teste, também. Escritora, simplesmente uma mulher que escreve, faz literatura de verdade ou só um nicho, literatura feminina? Juristas divergem. E quem publica de forma independente? O que o auto-publicado escreve é literatura de verdade? Só passa a ser quando é aceito por uma editora? Mas e a literatura que não aparece na lista de mais vendidos, a que está na Bienal em seus nichos, com leitores que vão comparecer por amor genuíno a esses autores, que abriram seu espaço com paciência, com esforço? Classifico como literatura de verdade? Alguém se lembra dela? Não, esquece: os YouTubers é que estão matando a literatura.


Carolina Prospero

De minha parte, fico bem chateada com esse rumo das coisas… Não pela Bienal ter esse lado do entretenimento, que de fato atrai público jovem e impulsiona a leitura, mas por parecer que é só isso que interessa. Será que autores mais comprometidos com a literatura de fato não poderiam também vender com o marketing certo? É só ver um Daniel Galera, ou mesmo um Raphael Montes, que é bem jovem e parece estar indo muito bem. Me parece uma grande preguiça de investir na divulgação – só vale quem já chega com público cativo, mesmo que nem autor seja. Não é papel do mercado, até para o seu próprio ganho, impulsionar os bons escritores nacionais?

 

Vilto Reis

Há três pontos importantes nessa discussão: 1) Sempre que ouço algo do público frequentador da Bienal, são pessoas falando que vão até lá para comprar livros. Se esse é o foco do evento, nada mais natural que ganhem destaques os “livros vendedores”, por assim dizer. Mas a questão é muito mais complexa. O que incomoda a elite literária é não aparecer. Há um pouco de inveja nisso. Ninguém questiona por que a FLIP não leva um autor que faz sucesso com o público adolescente. Não é o foco deles, simples assim. 2) Após colocar isso na balança, entendo como uma certa miopia um evento literário não aproveitar o público para apresentar escritores menos conhecidos, embora criadores de uma literatura com outras prioridades. Penso que todas as modalidades devem ser contempladas. Se possível, aproximar a discussão artística com as pautas do momento. 3) Nosso maior problema no mercado literário é que temos poucos leitores. Menos ainda leitores preparados para textos mais densos. Um caminho para solucionar isso é os autores usarem a internet para se aproximar mais do público, debater, trocar ideais e aproveitar os eventos que deem voz a eles. Em suma, reclamar menos e fazer mais. Chega de vitimização.

 

Frank Neres

É complicado chegar a um consenso sobre essa decisão da organização da Bienal. Mesmo que o evento tenha como diretriz dar mais destaque às personalidades do momento, como os youtubers, em vez de privilegiar autores que têm como foco a profundidade e a qualidade literárias de suas obras, talvez ainda seja o espaço mais eficaz para aproximar a população brasileira dos livros, já que a escola não cumpre esse papel.

Só podemos torcer para que a amplitude almejada pelos organizadores para essa Bienal tenha reflexos positivos também sobre os escritores realmente comprometidos com a literatura, e para que o evento não se torne apenas mais um encontro voltado ao entretenimento vazio e ao consumismo.

 

Gustavo Czekster

O problema é um pouco mais profundo do que o espaço dado aos youtubers em um evento literário: qual autor atual podemos dizer que escreve uma literatura arrebatadora? Que nos revele novos limites, que nos faça questionar certezas? Que nos faça crescer como indivíduos? Estão escrevendo livros perfeitamente escritos, com lindas capas e apresentações gráficas, mas zero de conteúdo humano – e a literatura é uma arte, não um entretenimento. O que mais vejo é escritor colocando questões importantes do mundo moderno (questões de gênero, racismo) a fórceps para dentro da sua obra, e esquecem que a história não serve a uma ideologia, mas a reflexão deve brotar dela. Ando lendo livros insossos, com histórias superficiais. O mercado editorial força ao estabelecimento de modismos: no ano passado eram os livros de colorir, este ano são os youtubers. Contudo, a verdadeira literatura é feita à margem das editoras consagradas, sem depender do Deus Mercado.

 

Walter Bach Autor

Colaborador do Homo Literatus desde 2014, demente profissional (vulgo editor) desde 2016.