Quando a vida pessoal tem forte influência na criação literária

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Muitos críticos preferem não levar em conta a influência da vida pessoal do escritor quando o assunto é compreender ou analisar uma obra. Podemos concordar que realmente é complicado considerar tais aspectos pessoais de um escritor em seu texto, trata-se quase de um trabalho psicanalítico. No entanto, em determinadas obras, a vida pessoal do escritor é fundamental para o entendimento da diegese.

Atualmente, dois grandes escritores brasileiros têm vestígios de suas vidas pessoais em obras. São eles dois habitantes de Curitiba: Cristovão Tezza, com o romance O filho eterno,  e José Castello, com Ribamar. Ambos romances se baseiam muito em fatos importantíssimos de suas vidas pessoais.

Tezza_OFilhoEternoCristovão Tezza é bastante conhecido por sua obra O filho eterno,  lançada em 2007, que já está na 14ª edição e conquistou inúmeros prêmios, dentre eles o Portugal Telecom e o Jabuti. Embora Tezza não concorde que o romance tenha cunho autobiográfico, podemos, ao menos, considerar que nele há uma tocante exposição emocional.  A narrativa em 3ª pessoa serve como ferramenta de distanciamento dos fatos.

A obra-prima do escritor narra a história de um rapaz de 28 anos, com um curso de Letras inacabado, escritor de textos que não saem das gavetas, que dá aulas de redação e revisa teses e dissertações. Ao saber que sua mulher está grávida crê na possibilidade do filho significar uma definitiva mudança que ocasionasse a sua inclusão no sistema. Na maternidade, dois médicos começam a causar uma tensão que perpassa pela alma de todos, um deles começa a descrever o filho e, então, o pai lembra-se, imediatamente, de uma tese que havia corrigido sobre genética. Vieram, em sua memória, as características da síndrome de Down, chamada de mongolismo na década de 80. Inicialmente, o pai crê num erro de diagnóstico, depois procura inúmeros tratamentos a fim de reverter a síndrome do filho, e, claro, todas as tentativas foram em vão. Nos primeiros anos de vida do filho, que não tem um nome e é geralmente chamado de “ele”, o treinamento neurológico é contrastado com o “treinamento” do pai no que diz respeito às tentativas de publicar seus livros e aceitar socialmente que tem um filho especial.

Assim como o personagem do livro, o escritor Cristovão Tezza tem um filho com síndrome de Down. O romance não disfarça o caráter de “acerto de contas sociais” do escritor com seu filho. A narração em 3ª pessoa faz com que Tezza distancie-se  do rótulo de memorialismo no romance, no entanto, é inegável o fato de sua vida ter grande influência sobre essa belíssima obra, tanto no quesito aprender a adaptar-se a um filho com Down, quanto no quesito evoluir como escritor.

jose-castelloJosé Castello é bastante conhecido por sua obra Ribamar, lançada em 2010, também premiada pelo Jabuti. A narração em 1ª pessoa trata dos embates do relacionamento do filho José com o pai Ribamar, nome verdadeiro do pai do autor. A narrativa é mediada pela tentava frustrante do personagem José escrever sobre o pai. Tudo, claro, com uma versão ligeiramente “ficcionalizada” do percurso do próprio Castello.

Após a perda do pai, com a desculpa de que iria escrever sobre ele, o narrador-personagem viaja por lugares em que viveu a infância, a fim de saber mais sobre sua vida e entender o relacionamento dos dois. O afetuoso e bruto relacionamento entre pai e filho é condensado na delicada canção de ninar intitulada Cala a boca, que era cantada a ele, o filho. Cada capítulo corresponde a uma nota musical e, para refletir sobre a questão, José usa um tema dominante no livro:  Kafka e sua inigualável Carta ao pai. É certo que pouca coisa se lê a respeito do pai, pois em toda a narrativa são rememoradas situações e episódios de sua vida com o pai. O narrador-personagem se embrenha na vida Kafka com o pai, traçando o que ele enxerga como sendo fatos equivalentes.

Não é segredo e José Castello não faz questão de esconder que seu relacionamento com o pai era bastante delicado. Afirma, inclusive, que ele é o próprio livro. O romance começou a nascer logo depois que um amigo do escritor encontrou, em um sebo, a Carta ao pai, de Kafka, com uma dedicatória de Castello para o pai, Ribamar.  Nesse momento, o amigo tratou de comunicá-lo, sabendo disso, pediu para que ele comprasse o livro e enviasse-o. Muitos anos antes, o livro foi dado como presente ao seu pai. Com o livro novamente em mãos, o autor buscou vestígios de que seu pai possa ter lido, feito alguma anotação ou se simplesmente tenha-o deixado de lado, assim como o pai de Kafka nunca leu a Carta ao pai.

É importante destacar que esse recurso, se assim podemos chamar, de unir um pouco da vida pessoal à literatura, não é algo recente. O importante poeta português, do século XIX, Bocage, na fase pré-romântica, escrevia sonetos com base em sua angústia e sofrimento amoroso, deixando de lado a contenção dos sentimentos, algo que foi estipulado pelo período clássico. E o português Almeida Garrett, importante poeta e dramaturgo romântico, em sua obra Frei Luís de Souza, no final do século XVIII, trata de uma questão social bastante emblemática de sua vida, a filha ilegítima, segundo os conceitos da época. Mas é claro que, na época, ambos tratavam disso de uma forma amena, sem deixar transparecer, pois a sociedade do tempo de ambos prezava pelo decoro e pelos valores conservadores.

Por fim, vale ressaltar que, sim, é complicado fazer crítica a uma obra ou estudá-la com base na vida pessoal do autor. Porém, embora se trate de ficção, é um tanto complicado compreender claramente as obras aqui citadas sem ter conhecimento do que influenciou o trabalho de escrita, ou seja, um pouco da história dos escritores Tezza e Castello.