Quando chega o outono da vida

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Se há um momento na vida em que não queremos mais provar nada para ninguém, nem que temos razão, nem que somos mais fortes, mais inteligentes; que não queremos mais fazer nada contra nossa vontade para sermos aprovados: é aquele da lucidez que só o passar dos anos nos proporciona. Não sei se porque não mais precisamos disso ou se é pura falta de vontade mesmo. Já li algumas dessas palavras em uma mensagem que vira e mexe circula por aí e até virou clichê. Mas não é que tem fundamento?

Chega um momento em que passamos a competir apenas com nós mesmos, a viver um dia de cada vez. Quando criança era costume contar as horas, os dias, os anos, que demoravam a passar, tinha pressa de ser gente grande e acreditava que o tempo passava lentamente. Mas como disse o poeta Octavio Paz, “o tempo não está fora de nós, nem é algo que passa diante de nossos olhos como os ponteiros do relógio, não são os anos que passam, somos nós que passamos”. Ou em outras palavras, o tempo só existe porque nós existimos, é apenas uma percepção, mas minha percepção me diz que estou acelerando no tempo.

O que parecia muito importante vai deixando de ser, dá vontade de fazer somente o que gostamos, seja lá o que for, até mesmo não fazer nada. Acabaram-se então os sonhos? Não, mas sonhos podem ser substituídos, os sonhos também se encaixam em uma vida mais contemplativa. Se libertar daqueles velhos preconceitos que só empatavam a vida. Preconceitos tornam jovens velhos e velhos mais amargos. “Rir de si mesmo é um sinal de sabedoria”, eis aí mais um bom clichê. Sim, há os bons clichês e os clichês vazios, mas do alto da nossa sabedoria acadêmica costumamos desprezá-los todos.

Agora viver é a única coisa que se faz urgente. Viver um amor se tiver um, o amor torna-se mais tranquilo com o tempo, e pode ser muito melhor. Se não tiver um também não importa, arrume-se outra paixão. É quando aquela máxima “qualquer paixão me diverte” se torna uma filosofia de vida, ou em outras palavras, como diria Carlos Drummond: “há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons”. Não precisamos mais de eventos mirabolantes, qualquer alegria nos diverte. Agora podemos nos permitir ter licença poética, licença para dançar, dançar todos os ritmos possíveis, como puder e do jeito que der. Descobrimos que às vezes, só a ironia salva. Se quiser ficar em silêncio fique, mas se quiser ser declaradamente solidário, contestar, protestar, vá em frente, o inconformismo mantém a juventude, algo com o qual concordaria o pensador Russell, que com mais de noventa anos ainda era um inquieto. Dizem que a forma como seremos na velhice tem a ver com o que fomos na juventude, com nossas crenças e nosso modo de pensar durante esse período da vida.

É possível cuidar do jardim, cozinhar, pescar, jogar conversa fora, e ao mesmo tempo se indignar com as injustiças, com os conflitos armados, a discriminação, a má condução da política, a destruição do meio ambiente. Se não há mais condições de frequentar uma escola, é possível continuar como autodidata, aliás os bancos escolares nunca são suficientes, alguém disse que o conhecimento torna a alma mais jovem, só perecemos quando acreditamos que já sabemos tudo, que não há mais perguntas a fazer. Hora quem sabe de descer do pedestal da presunção e tornar-se um observador atento.

Não há mais tempo a perder, e se não for agora podemos não ter outra chance, portanto danem-se os fracassos se ainda posso tentar de novo, e caso eu queira desistir, o farei agora sem aqueles dramáticos sentimentos de derrota, desistirei “de boas”. Com o passar dos anos nossa percepção do tempo muda: então um ano de vida vai parecer valer por dez, dez anos de vida por cem. A gente chegou até aqui sabendo que a felicidade não tem fórmula, é volátil, mas temos a exata noção do que para nós é a infelicidade. Hora de ligar o botão “F” e bora ser feliz como puder.