Quando ensinar Literatura se torna um fardo

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Sabemos que todo ano as escolas são invadidas por uma “vontade enorme” de adquirir livros. Mas o que comprar? Essa incumbência, muitas vezes, é repassada para o profissional que trabalha na biblioteca que repassa aos professores e assim, essa tarefa é passada de mãos em mãos dentro do ambiente escolar. Mas por que isso é considerado tão árduo? Seria um total despreparo por parte dos docentes? Uma falta de vontade em ler e ter que trabalhar Literatura com os alunos? Ou teria alguma outra resposta a essa questão?

As escolas públicas recebem algumas obras do governo através do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), mas as escolas também recebem verbas para comprar livros. No entanto, por que essa tarefa, que deveria ser alegre e bem aproveitada, muitas vezes, é vista como um momento de agonia entre os professores?

Vamos, primeiramente, fazer uma análise do que foi relatado aqui sobre as obras que chegam às escolas (FNDE). Quais são os títulos? Por que essas obras foram escolhidas? Os professores aprovam esses livros? Muitas dessas obras surgem após um concurso literário ao qual foram vencedores, ou de outra forma ao qual muitos de nós não sabemos. O que sabemos é que elas chegam às escolas e os professores têm que dar conta desse “fardo”. Digo fardo porque em nenhum momento os professores são consultados sobre essa escolha. Muitas vezes são obras que não agradam aos seus alunos e nem mesmos aos professores. Aí fica difícil ensinar Literatura e ter gosto pela leitura se quem escolheu os títulos nem tem contato com a escola ou com os alunos. Outras vezes, chega às escolas um exemplar de cada título apenas. Porém, como trabalhar uma obra com apenas um exemplar para três turmas com 35 alunos cada? Encontramos aí uma das respostas do porquê de alguns professores torcerem o nariz para as obras que chegam pelo correio até as suas mãos: são títulos que não agradam, títulos desatualizados com a conjuntura do momento, títulos já trabalhados em séries anteriores, e aí fica difícil mesmo.

Entretanto, há a verba que chega às escolas para que o professor tenha mais liberdade na hora da compra. Engana-se quem pensa que aqui a coisa corre mais leve. As editoras invadem as escolas com livros e promoções, os catálogos surgem com os mesmos títulos dos livros comprados pelo governo e ainda há que se fazer três orçamentos, porque a compra deve ser feita com o menor preço orçado e o menor preço orçado é aquele com títulos nada legais e, novamente, o professor torce o nariz, pois o que ele quer não está no menor orçamento e acaba comprando o que não quer.

Por fim, professores acabam por solicitar aos pais que comprem os livros. Os pais vão às mídias reclamar do pedido feito pelos professores, que saem na foto como o Lobo Mau da história – pessoas  que “recebem livros e verbas do governo para a aquisição de obras” e depois decidem pedir que os pais comprem livros. O que eles fazem com o dinheiro do governo?

Enfim, tudo que envolve leitura é difícil. De um lado, estão os professores, que têm duas saídas: ou trabalham com aqueles livros que vieram do governo ou foram comprados através da verba destinada à tal aquisição ou, simplesmente, não trabalham Literatura. Porque pedir para comprar livros em escolas públicas é complicado, salvo em algumas exceções. E, dessa forma, é feito o contato dos nossos alunos com os livros. Por isso, muitas vezes, os alunos reclamam dos títulos, mas mal sabem eles que os professores também não estão satisfeitos. Mas o que fazer? Uma das saídas é comprar livros com a grana de rifas, festas juninas ou do próprio bolso do professor. Isso quando a grana das tais festas realizadas nas escolas não é disputada com uma construção de uma cancha de futebol, compras de bolas, consertos de um banheiro e aí por diante e, quando isso acontece, FOI PRO BELELÉU a tão almejada compra do livro. Eis uma das realidades da leitura em sala de aula. Como formar um leitor se o próprio professor não gosta do que está lendo? Se a escola também é obrigada a ler o que não quer ler? E agora, ler ou não ler? O que fazer?