Quando um livro pede um método de leitura

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Método de leitura pode parecer coisa de louco

estante

Mais um livro pro acervo, nada como aquela promoção pra convencer a gente a levar de vez aquela obra tentadora. Ah, é que antes não dava, tinha outros dez na frente, ou a livraria do coração (finge que você tem uma ou mais, vai) não recebeu justo esse, chega só no mês que vem, tá, que seja. Mas por sorte a gente achou o livreto em uma caminhada sem compromisso e dessa vez não tem desculpa, adeus ao dinheiro e tempo que não tínhamos pra nos perder nessa coisa.

Sacrificar o pseudo bem estar da conta bancária é a parte mais fácil, a questão é o tempo. O “livreto” é um daqueles calhamaços simpáticos com mais de 500 páginas. Tá, mais de mil no meu caso – comprei o Graça Infinita do David Foster Wallace em uma promoção, dessas que brotam do além e somem no buraco negro dos livros que eu adoraria comprar – porém, custam os rins e o fígado (ou o que a finada Cosac Naify cobrava em algumas de suas edições). Depois de meses lendo sobre a graciosa cria, assistindo falas do autor, avaliando se realmente vale mais do que mera curiosidade (o que acompanhei me convenceu), e dúzias de razões, esse monstro está no meu calabouço – em quase infinita espera para ser combatido.

Quem nunca passou por essa? Não falta vontade pra ler, mas a realidade dá uma voadora no peito: tem aquele material que você precisa ler por causa de uma disciplina; aquele outro do trabalho cujo prazo venceu (de novo) anteontem; talvez um pedindo um gás na leitura só pra terminar essa tralha de uma vez e adeus, um livro a menos na fila; ou então precisa finalizar o calhamaço/monstro técnico da semana, que foi o livro comprado em promoção há dois meses atrás e finalmente está sendo lido.

Vamos supor que um desses livros ‘da vez’ seja tão exigente que precisa de um pouco de método. Pode ser um com muitas técnicas narrativas que peçam uma leitura mais detalhada; um com personagens o bastante pra se perder; uma obra lisérgica de tão complexa; ou apenas um que você queira ler mais devagar só pra curtir, sem querer acabar a primeira ou enésima leitura tão rápido. Também pode ser apenas pra conciliar esse livro com as demais atividades: uma hora ou trinta páginas por dia, o que acontecer primeiro, assim faz de conta que é possível equilibrar mil coisas em um dia.

Escrito, esse método parece coisa de louco. Pode ser disciplina, há quem chame assim. No início parece demais, mas os dias passam, e quando se faz a conta as páginas antes ilegíveis acabam daqui uma semana. Depois delas, sobra espaço pra outras experiências de leitura, mas não precisamos ter pressa pra escolher a próxima. Quem sabe depois de uma caminhada, dá um descanso pra biblioteca de casa, e … olha só, uma promoção na livraria, não é aquele que você tanto procurava?