Que as tendências modernas não te forcem a ser um leitor chato

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Por que não criar seu próprio método de escolha de livros a serem lidos? Se torne leitor, não se force a ser um

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O imediatismo cultural como meio de vida, a teoria da espiral do silêncio proposto pela alemã Elisabeth Noelle-Neumann, a esquizofrenia social e uma série de outros fenômenos tentam explicar o comportamento humano frente à multidão. Isso inclui nossos relacionamentos pessoais e a forma de lidar com cada aspecto presente em nossas vidas: a política, a família, os amigos, as decisões, os planos, as ideologias, os hobbies… E então os hobbies, que possui um viés responsável demais para meros hobbies, passam a ter características midiáticas que os deixam não tão gentis e amáveis como tradicionalmente são. É o que acontece com a leitura e a escrita.

Das diversas maneiras pelas quais alguém pode dar o seu pontapé inicial nessas atividades estão a formalidade escolar ou a atração genuína pelo universo literário. Ambas nos levam às expressões desse ofício, seja ela por nós reconhecida como boa e bela ou não. A questão é que, quando a fazemos ou a deixamos de fazer (a leitura e a escrita), por questões imediatistas, por influência midiática, pela fragmentação de conceitos dispersos onde vivemos ou também pelo medo de não sermos adequadamente inseridos na ‘Ordem dos Leitores Reconhecidos e Diplomados’ (ironicamente), passamos a perder informações realmente úteis e mais gravemente perdemos uma porção da nossa essência. Essência essa que é o que gostamos de ser e ter, das coisas que aceitamos como prazerosas e daquilo que reconhecemos como bom.

É comumente percebido nos grupos de leituras, clubes do livro, sites de debates, fóruns literários, comentários em posts e tudo o que envolve esse mundo, uma enorme carga de informações de quantos livros tal grupo leu em tal tempo ou o quanto isso é importante para a formação do leitor e, junto a isso, uma grande fonte de mentiras. Por quê? Porque preferimos nos ajustar aos quesitos literários comuns a assumirmos nossos verdadeiros desejos. Eu, particularmente, odeio a matematização de qualquer quesito literário.

Um forte exemplo? A cena do filme Sociedade dos Poetas Mortos em que o professor Keating pede aos alunos que façam a leitura da introdução do livro didático chamado Compreender a poesia, de Dr. J. Evans Pritchard. Percebemos, no decorrer da apresentação, que o que o Dr. J. Evans quer fazer é matematizar a poesia. Ele explica que a grandeza de um poema pode ser explicado por um gráfico onde o eixo horizontal aponta a perfeição do poema enquanto o eixo vertical dá sua importância. Ele usa Lord Byron e Shakespeare para mostrar a aplicabilidade da teoria. Ato contínuo, o professor Keating pede a eles que rasguem essa parte do livro. Ele emite essa ordem por diversos motivos, como a de revelar o espírito revolucionário e libertador da poesia, mas também porque ele sabia que números são incapazes de dimensioná-la. Do mesmo modo, como a enumeração de livros lidos ou gêneros estudados definiriam um leitor ou um escritor? E isso não é nem de longe uma questão humanas versus exatas. É simplesmente um fato.

É inadmissível que alguém seja aquilo que outros querem que esse alguém seja. Na prática, o que digo é que o seu ritmo de leitura, a escolha dos seus livros, a mensagem captada em uma obra, seu modo de escrever, a interpretação e a manifestação de opinião sobre algo lido não deve acontecer forçadamente. Leitores são pessoas que refletem, portanto, agir de outro jeito é totalmente ilógico. Ler vinte livros no mês não é nenhum indicador sobre aquele que lê quatro. E isso é mesmo absolutamente nada.

No meio acadêmico, esse procedimento automático de absorção de informações é quase que essencial para a modalidade, o que não ocorre na leitura livre. Daí o porquê de agirmos com sabedoria até nas decisões literárias. E isso é o contrário de dizer que não se deve ler a obra X ou a obra Y, mas sim que se leia X se achar que ela o ajudará a se formar no sentido de boas referências ou más referências; ou ainda que se leia somente clássicos, best-sellers, regionais ou qualquer outro tipo, mas aquilo que bem entender como sendo útil. Isso sim está a ligado à formação do leitor.

Então, por que não criar seu próprio método de escolha de livros a serem lidos, a não serem lidos de modo algum, de como analisar as intenções dos autores e de como aplicar a experiência literária em sua vida? Isso é um pequeno espasmo de liberdade que o Professor Keating prega na Sociedade dos Poetas Mortos. Se torne leitor, não se force a ser um. E a mesma premissa também é válida para a arte de escrever: trabalhe no processo de ser escritor, não somente queira ser um.

Em resumo, que as tendências modernas não te force a ser um leitor chato.