Que leitor cultural você é?

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Ilustração: Robin Davey

 

Que leitor você é?

Leitor interessado: deseja informações gerais sobre os eventos culturais. Dicas sobre teatro, cinema e compras. Precisa de informações breves de modo globalizado. São leitores heterogêneos, com formação mediana ou até mais sofisticada.

Leitor participante: um sujeito que participa do mundo através da leitura e debates políticos. Independentemente de sua ideologia, interessa-se por artigos que estimulem sua reflexão a respeito de temas gerais. Possui interesses específicos, mas quer se conectar a acontecimentos abrangentes e problemas da atualidade. Não teme ser surpreendido e nem contrariado.

Leitor especializado: procura uma publicação que seja do seu interesse mais forte, seja isso a poesia, a filosofia, artes plásticas, a moda, a política, etc. A linguagem depende da ambição editorial das revistas, que pode ser mais fechada ou aberta.

 

A indústria do livro começou no século XVIII com resenhas literárias. O século XIX é marcado por folhetins que antecedem a telenovela. O século XX visa as artes erudita e popular. O século XXI pertence ao terreno  world wide web e ao press release do Google.  A internet mudou as formas de comunicação, abreviou o tempo e unificou o espaço.

Para o físico e escritor americano, também editor da revista Wired, Chris Anderson (1), os produtos culturais são criados na mesma lógica das demais categorias de produtos para venda. E, obviamente, com o mesmo fim em obtenção de lucro. Para lançar um cd, gravadoras investiam em publicidade e jabá para rádios. Agora, as músicas estão disponíveis para um maior número  de  pessoas,  em  valores  acessíveis,  quando  não  gratuitos,  em  decorrência  da acessibilidade da internet, que vem redesenhando a forma de estar no mundo. A mudança nesse sentido beneficia pessoas e possibilita um maior acesso aos produtos culturais, como o livro, a revista, o jornal, entre outros.

Por volta de 1650, logo após o Renascimento, os chamados Pub´s hoje eram conhecidos por  Coffee Houses – ambientes que agregavam pessoas e notícias com um determinado tema, tendo a cultura como um elemento de sedução no intuito de trazer uma linguagem de valor para revelar,desvendar e abordar algum assunto do mundo real e errático.

Na Europa, os jornais nasceram em decorrência dos acontecimentos políticos. O inglês The Times é conservador. O impresso espanhol El País é socialista e o francês Libération saiu da extrema esquerda e tornou-se um social-democrata. O The New York Times é o maior jornal dos EUA e concorre com o Washington Post, conhecido como “garganta profunda”. Aqui no Brasil, temos como os maiores jornais a Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo: ambos são empresas familiares que também passam por modificações. A internet está descentralizando hierarquias e abrindo espaço para outros tipos de iniciativas e formas de produzir conteúdo, valores e modelos de negócios.

 

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Papiro (pelo latim papyrus do grego antigo πάπυρος) é caro, publicidade vai além do papel e o fiel público do impresso, com seus belos fios de algodão, morre

Depois  de  comprada  pelo  Le  Monde,  a  maior  revista  do  mundo  em  crítica cinematográfica Cahiers du Cinema (com enorme prestígio) entrou em crise e fechou. Os custos também se elevaram para o bordô do jornalismo francês. Papel é caro, a maquinaria é cara e o retorno financeiro é minúsculo comparado ao processo de produção. [NETO, ALCINO LEITE,“Debate de arte, cultura e mercado editorial”. Itaú Cultural].

Em 2013, a revista semanal Newsweek, que cobriu momentos marcantes da história do mundo como os assassinatos do ex-presidente dos EUA John Kennedy, Martin Luther King, John Lennon, o escândalo Watergate, o atentado de 11 de Setembro nas Torres Gêmeas, as demais guerras do Oriente Médio, entre outros acontecimentos, interrompeu sua versão impressa, se redesenhou para uma realidade digital  e continua a notificar o mundo com estilo.

 

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O que é produzir conteúdo cultural?

As informações factuais que notificam acontecimentos mundiais e nacionais em volume e instantaneidade são as chamadas Hard News – essa modalidade de notícias curtas, pontuais e instantâneas conta para as pessoas o que ocorre no mundo de forma geral em seus aspectos políticos, econômicos, sociais, culturais, ambientais, de entretenimento, tecnologia, etc. São tópicos facilmente encontrados em portais de comunicação de massa, que reproduzem muitas notas de agências mundiais de notícias.

O jornalista João Gabriel de Lima, redator-chefe da revista semanal ÉPOCA, ex-diretor de redação da revista de cultura BRAVO! (que também entrou em crise), argumenta: “quando acontece algo que abala o mundo, como foi o caso do atentando de 11 de Setembro nas Torres Gêmeas, por exemplo, ocorre uma produção de artigos em larga escala, posicionamentos com várias linhas ideológicas no intuito de tentar explicar aquilo, pois somente essa percepção do fato real não basta. Tendo-se em vista que o leitor já sabe o que está acontecendo, a escrita mais analítica e aprofundada, preocupa-se mais em explicar da forma mais completa possível. Funciona mais ou menos como uma ferramenta de percepções para a necessidade de ir além dos fatos”.

As revistas de maior destaque no mercado editorial mundial na questão profundidade x instantaneidade são The Economist, The New Yorker e Vanity Fair, com reportagens mais longas, investigativas, ensaios, críticas e também ficção.

 

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(1) Em seu livro Cauda longa (Campus/Elsevier), 2006, Chris Anderson analisa a questão da abundância de produtos e da criação de nichos de consumo, tendo um peso significativo comparado com o antigo modelo de uma grande atenção focada apenas na venda de produtos muito populares.

* A abordagem com o perfil de leitores foi apresentada pelo jornalista Alcino Leite Neto em debate sobre arte, cultura e mercado editorial no Itaú Cultural de São Paulo.

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