Querer sair da realidade é render-se à Luxúria

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O romance Luxúria, de Fernando Bonassi, retrata sensações que nós, brasileiros, conhecemos muito bem

Fernando Bonassi/ google
Fernando Bonassi/ google

Podia ser só um dia bom em um país acostumado a viver na merda. Um refúgio, um dia longe disso tudo a nossa volta e que conhecemos tão, tão bem, e no fim se torna quase impossível olhar para qualquer um de nós sem lembrar do ambiente. Mais do que um pano de fundo, o cenário pode ser visto como um personagem, assistindo a tudo de camarote e pensando ‘é, eu sabia que podia dar nisso, querer mais do que se tem é render-se à luxúria’.

O romance Luxúria, de Fernando Bonassi, se apresenta “baseado em pessoas e fatos reais, lamentavelmente”. É fácil notar a preocupação do autor em nos transmitir a impressão do real, pois o texto está recheado com marcas de oralidade, detalhes quase banais do cotidiano, certo gosto por uma falsa crueza estética. Tais opções narrativas servem ao enredo que nos conta de um homem identificado apenas por ‘o homem de que trata este relato’.

Parte de sua vida física é composta por um emprego estável que ele possui há anos, um casamento com uma esposa que gosta dele (ou assim parece), um filho um pouco retraído, talvez pela idade ou pelo temperamento, mas ainda tolerável, e uma casa. Este homem de que trata o relato – em plena mostra de que o livro ‘sabe’ ser um livro – parece contente, ainda que ideias de anos atrás tenham sido largadas pelo ritmo moroso com que a vida se impôs sobre ele, graças a uma soma de aceitação das condições materiais alcançadas com uma dose de inércia, ao ver que não é possível fazer tudo o que gostaria, independente do motivo.

Mas este homem de que trata o relato, cuja identidade o narrador insiste em resumir a esse título, tem o seu momento de ousadia. Tudo parecia no lugar, uma ilusão bonita de que fez algo bom com a vida, mesmo que ela tenha atingido um ritmo que condena qualquer sonho à monotonia. Afinal, o homem de que trata este relato é acima de tudo um realista, para quem algumas condições foram superadas com um aviso não falado a dizer ‘ok, você fez isso e andou até aqui, mas lembre que esse é o seu limite, homem, não queira passar luxuriadisso, e se contente porque o pouco que você tem já é uma bela regalia’.

O nosso protagonista sem nome decide construir uma piscina no fundo do quintal, pois acha que pode, mesmo a casa tendo limitações físicas bem claras. Ele se acha merecedor da piscina, e tenta não brigar (muito) com os funcionários que adentram seu lar com má vontade para começar a construir, sendo patrão por alguns minutos e faltando pouco para ele pisar em gente igual a ele, sem total consciência disso, mesmo que seu trabalho o lembre da realidade o tempo todo.

Ele se acha esperto, correto, seguidor das normas, e demora para se perceber vencido pelas burocracias, desde as legítimas – permissão para ter a piscina, avaliação de custos – ao superfaturamento de notas, ao refinanciamento para negociar a saúde monetária que ele não tem, pagando uma dívida que ele não precisaria assumir apenas para realizar um sonho, que ele supostamente poderia satisfazer se direcionasse as energias em outra direção – ou se apenas se contentasse com a vidinha que atingiu, ainda que miserável.

Falar que o resto da vida desanda ao mesmo tempo em que as obras começam é ser redundante. O filho que (se) esconde no colégio, em relações abusivas por migalhas de atenção; ou a mãe, ela, a mulher, a forte, cujas sensações ora vem à tona e ela se impõe, ora nem ela prefere saber. A construção física da piscina bagunça a pouca ordem da casa, e lentamente seus membros se desconstroem, ou apenas agem sem perceber que se expõem uns aos outros com menos pudor.

Eles não têm tempo para pensar ou sequer imaginar se podem fazer algo com suas vidas. Nós sabemos mais dos personagens do que eles de si, e podemos ver em toda a narrativa de Luxúria um retrato cruel de sensações que nós, enquanto brasileiros, conhecemos de perto: dos problemas que a matéria traz, como se ninguém tivesse o direito de buscar algo além do que se vive, até a fragilidade de relações e ideais, às vezes abandonados por inércia e soterrados pelo que entendemos por ‘realidade’.