Quincas Berro Dágua não morreu: seu grito ainda ecoa

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A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água, de Jorge Amado, lida com as sutilezas e a sátira do mundo burguês

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A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água é, talvez, a melhor obra literária escrita pelo ilustre baiano Jorge Amado (1912-2001). Trata-se duma novela que veio a público em maio de 1959 na revista carioca Senhor, acompanhada de ilustrações de Glauco Rodrigues. Depois disso teve dezenas de edições em livro no Brasil e em Portugal. Foi traduzida para o francês, espanhol, italiano, alemão, esperanto, árabe, inglês, búlgaro, húngaro, polonês, russo, tcheco, azerbaidjano, chinês, dinamarquês, finlandês, hebraico, japonês, lituano, macedônio e moldávio. Serviu de base para uma telenovela da emissora Tupi em 1968 e, 10 anos depois, inspirou Walter Avancini e James Amado a realizar o especial As mortes de Quincas Berro D’água para a série Caso Especial, da Rede Globo, com participação de Paulo Gracindo, Dina Sfat, Stênio Garcia, Flávio Migliaccio e Antônio Pitanga. Foi ainda amplamente adaptado para teatro e cinema.

Porém, por mais que – com tanta badalação – muitos tenham vindo a saber da história antes da leitura, nada diminui o encanto desse excepcional texto de Jorge Amado, precioso da primeira à última página.

É fato que, em alguns de seus livros, o escritor baiano pecou ao direcionar artificialmente acontecimentos da narrativa para que esta viesse a ter uma mensagem explícita (a comumente chamada “moral da história”). O problema não é a obra conter críticas sociais: Graciliano Ramos as fez muito bem e Lima Barreto de maneira ainda mais contundente, sem sacrificar a naturalidade do texto. Jorge Amado, porém, no afã de propagar determinadas ideias, acabou comprometendo a qualidade de alguns livros (como Capitães da Areia, por exemplo).

Aqui, em A Morte e A Morte de Quincas Berro D’água, o autor mostra toda a sua genialidade, se permitindo extravasar as fronteiras do Realismo ao explorar o terreno do sonho, da fantasia e do lirismo. Não abre mão da crítica social, mas a realiza de maneira mais rica e multifacetada, escapando de qualquer didatismo rasteiro.

O texto se inicia tratando da controvérsia em torno da morte do boêmio inveterado Quincas Berro D’água. Para a família, ele morrera numa cama na casa em que morava sozinho, tendo seu corpo sido encontrado pela manhã. Mas a lenda que corria pelas ruas de Salvador era que a morte só se dera horas depois, quando Quincas se atirara ao mar voluntariamente durante uma tempestade, diante dos olhos atônitos dos amigos que o acompanhavam naquele que era um momento de festa para todos.

Em verdade temos, como centro dessa novela, um mesmo homem que se divide em dois: o respeitável funcionário público aposentado Joaquim Soares da Cunha e o notório vagabundo Quincas Berro D’água. A narrativa se constrói sempre em torno dessa dualidade.

No segundo capítulo lemos: “Quando um homem morre, ele se reintegra em sua respeitabilidade a mais autêntica, mesmo tendo cometido loucuras em sua vida”. E o que vemos na história é essa tentativa da família em transformar Quincas novamente no pacato funcionário público aposentado que ele era antes de seu “desvario”.

Joaquim Soares da Cunha tivera cargo público na Mesa de Rendas Estadual e exercera seu ofício de maneira exemplar, sempre barbeado, de passo medido, paletó impecável, pasta sobre o braço, considerado com respeito pelos vizinhos, adstrito às convenções sociais e aos valores da família tradicional. Aposentou-se com homenagens por sua conduta sempre exemplar na repartição. Em casa também ninguém tinha nada a lhe reprovar: figura discreta, de poucas palavras e nenhuma reclamação. Mas algo se revolvia dentro dele sem que ninguém soubesse.

Quando a filha Vanda falou do namorado (sério e bem posicionado na sociedade) que pretendia vir pedir-lhe a mão em casamento, Quincas murmurou: “Pobre coitado…”. Repreendido por Vanda, o pai se desculpou dizendo que estava pensando em outra coisa. E essas outras coisas foram se agigantando dentro dele – ele que, em criança, desejara fugir com um circo. Amarguras da vida familiar, tradicionalismos, obrigações sociais, etiquetas, hipocrisias: tudo isso o oprimia tremendamente e explodiu um dia num acesso de fúria.

Quincas chamou o genro Leonardo de bestalhão e, voltando-se para Otacília e Vanda gritou: “Jararacas!”. Saiu para nunca mais voltar, nem mesmo após a morte da esposa Otacília. Permaneceu pelas ruas, convivendo com maconheiros, prostitutas, bêbados, trabalhadores braçais, mães de santo e com quem mais lhe transmitisse verdadeira humanidade, alheia às comedidas e enfadonhas “boas maneiras” da classe média.

Um dia, Quincas entrara na venda do simpático espanhol Lopez, ali ocorreria o episódio que lhe conferiria a alcunha de Berro Dágua. Como freguês habitual, conquistara o direito de servir-se sem auxílio do empregado. Assim, ao ver uma garrafa de aguardente sobre o balcão, completamente translúcida e convidativa, Quincas encheu um copo e bebeu-o numa talagada só. Deu um grito lancinante que ecoou pelas ruas, estilhaçando a paz matutina: não era cachaça, era água.

E é esse o grito que ainda ouvimos hoje. Um berro contra a insípida, incolor e inodora vida da classe média – contra as convenções sociais, os valores burgueses, as falsidades, a rotina esmagadora e asfixiante da sociedade capitalista.