15 Autoficções brasileiras incontornáveis

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15 obras autoficcionais da literatura brasileira: a ambiguidade entre a ficção e a realidade 

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Ilustração: Robson Vilalba / Jornal Rascunho

É muito comum ouvir a máxima de que “a vida imita a arte” ou “a arte imita a vida”. Também não é incomum se deparar com uma variação, substituindo a palavra “arte” pela palavra “ficção”. Fato é que as instâncias de realidade e ficção, ao longo da história da literatura, acabaram por se chocar inúmeras vezes. Nem retomarei conceitos clássicos (Platão, Aristóteles, Santo Agostinho etc.), pois daria um artigo extenso por si só. Falarei de um modelo ficcional já bem comum no século XXI: a autoficção.

O termo foi cunhado pelo francês Serge Doubrovsky em 1977 para falar do seu romance Fils, dizendo que no seu livro “tudo o que ali acontecia era real, mas tudo refeito pelo trabalho da escrita”. O protagonista de sua narrativa tinha mesmo nome, profissão e morava na mesma cidade do autor. Seria, então, uma autobiografia?

Os estudiosos dizem que não. A ideia geral na qual se acredita é que, na autoficção, há uma relação tênue entre o sujeito real e o sujeito ficcional em um jogo que brinca com essas duas noções aparentemente contraditórias e estanques. A autoficção seria um tipo de obra que não pode ser caracterizada nem como biografia nem como ficção, pois reside justamente na ambiguidade entre esses dois pólos. Logo, essa escrita de si consegue transitar entre esses dois lados, sem nenhum compromisso com a realidade e a verdade histórica.

Ao misturar campos indistintos, cria um terceiro caminho, emprestando elementos do mundo real sem compromisso algum com a verdade histórica, transitando entre os dois lados. Caso o leitor seja ávido por encontrar a verdade do mundo real dentro da obra, não conseguirá encontrar senão um jogo labiríntico do qual não se pode sair nem mesmo com as asas de Ícaro.

Foi o que aconteceu com o famoso crítico literário e professor de literatura da UNICAMP Alcir Pécora. Em crítica publicada na Folha de São Paulo, em novembro do ano passado, ele acusa Chico Buarque de “construir o passado com um realismo postiço, composto de marcas de carros, nomes de ruas, bares da moda, artistas, restaurantes etc. de uma São Paulo de 1968” fazendo com que seu romance vire “etiqueta de um burocrático retrô, não imagem convincente da cidade da época”. Deixando os outros problemas do romance de lado, pois não vêm ao caso, o que Pécora não entendeu– e isso me surpreende – é que Chico Buarque não tinha nenhum compromisso com a verdade história, embora deva ser verossímil.

O fato de não compreender a autoficção influenciou recentemente um acontecimento estapafúrdio: o escritor Ricardo Lísias foi chamado pelo ministério público para explicar os documentos que aparecem dentro de sua obra O delegado Tobias. (2015), livro vendido apenas sob formato e-book, em cinco fascículos. No romance em forma de folhetim, um Ricardo Lísias morre, o outro é preso; e muitos críticos literários e escritores ajudam a compor a obra. O autor, agora na vida real, está sob inquérito sob alegação de ter falsificado documentos públicos. Na obra, Lísias é preso e os autos de prisão aparecem no fim da obra.

Muitos “torcem o nariz” para esse boom da autoficção no país, sobretudo em tempos de uma profunda individualidade, em um mundo onde o coletivo foi praticamente esquecido. Daí o termo “egotização”, o “eu” levado às últimas consequências. Particularmente, acho que a autoficção segue outro caminho: o da quebra das expectativas de um leitor que procura avidamente a figura real de um escritor dentro de uma obra de arte. Ao buscar desesperadamente por detalhes de uma vida íntima, ao melhor estilo Big Brother, não se encontrará senão uma sombra de uma realidade vivida. A pessoa do escritor é apenas um mote para a criação de uma persona.

Em 2013, Daniel Galera diz que gosta de pensar que a autoficção é “é uma tendência passageira e que a própria escrita acabará favorecendo a superação dessas dicotomias”. A meu ver, ao contrário de Galera, a autoficção, ao mesmo tempo em que responde à expectativa de um leitor ávido por curiosidades e de um mercado que sabe explorar essa espetacularização do eu, joga com essas duas instâncias.

Apesar de sempre polêmica e com opiniões diversas ao seu respeito, a autoficção está aí. Veja uma lista que preparamos sobre os romances brasileiros autoficcionais do século XXI que são imperdíveis.

 

1. Berkeley em Bellagio (2003), de João Gilberto Noll

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João Gilberto Noll | Foto: Divulgação

Romance desenvolvido quando o escritor gaúcho ganha uma bolsa de uma universidade para produzir um romance em Berkeley na Califórnia. Curiosamente esse é um fato da vida do próprio autor. Nesse romance o fim de perspectivas do protagonista, sendo substituídas pelo mero acaso e estilhaçamento da identidade e da linguagem, é o que guia a narrativa. O espaço é também é quebrado e apenas algumas quadras separar Berkeley de Bellagio (Itália) e Porto Alegre.

2. Nove noites (2006), de Bernardo Carvalho

Ao tentar empreender, inicialmente, uma busca pela verdade do que aconteceu com o antropólogo americano Buell Quain, que se suicidou durante uma visitação às tribos Krahô no Brasil, o narrador principal se cansa dessa verdade e decide preencher os espaços com ficção. É uma confissão do narrador, nesse processo metalinguístico, a respeito de uma construção de um fato histórico com fatos ficcionais. Um fato ajuda a instaurar a dúvida: há uma foto de Bernardo Carvalho, ainda criança, de mãos dadas com um índio Xingu.

3. O filho eterno (2008), de Cristóvão Tezza

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Cristovão Tezza | Foto: Guilherme Pupo, Folhapress

O narrador-protagonista também é um escritor que, em meados dos anos oitenta, ainda é um escritor sem muito sucesso, que tem um filho com síndrome de down. Se olharmos a biografia do escritor catarinense radicado no Paraná, veremos que ele também tem um filho com down, nascido nos anos oitenta, época em que o autor ainda não tinha tido grande sucesso de público. O romance, belo retrato de uma situação nem tão incomum nas famílias, foge de dar uma solução fácil para o caso, desconstruindo um caminho que poderia levar a uma leitura estilo auto-ajuda.

4. Ribamar (2010), de José Castello

Um misto de elegia e epitáfio, com partituras a permear os breves capítulos, Ribamar é uma bela invocação do narrador ao pai morto. Ele retoma alguns pontos da relação com o progenitor, a relação difícil entre eles, e o silêncio que imperava em casa. Escrito em capítulos curtos, como uma espécie de memória fragmentada em relação ao pai e que tenta se reconstruir ficcionalmente.

5. K, relato de uma busca (2011), de B. Kucinski

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B. Kucinski | Foto: Divulgação

O narrador nomeado K sai em busca do paradeiro da filha Ana Rosa Kucinski Silva, sua filha provavelmente presa e morta pela ditadura militar. Romance envolto em contornos autobiográficos, Bernardo Kucinski possuiu uma irmã com esse mesmo nome, que era militante anti-ditadura e que desapareceu nos anos de chumbo no Brasil.

6. Vermelho amargo (2011), de Bartolomeu Campos de Queirós

Em 2011, aventurou-se em uma narrativa adulta com contornos autobiográficos e uma linguagem rebuscadamente poética: Vermelho Amargo., narrativa curta do escritor mineiro recentemente falecido. É mais conhecido pela carreira literária no circuito de obras infanto-juvenis, vencendo prêmios nacionais e internacionais. Queirós constrói uma narrativa em primeira pessoa a partir dos olhos de um menino que perdeu a mãe e mora com o pai e a madrasta. A narrativa se passa na memória do narrador, que faz reflexões existenciais a partir das fatias de tomate cortadas por sua madrasta, que agridem a naturalidade de um prato bem posto para uma refeição. A beleza, a dor e a tristeza caminham de mãos dadas nessa narrativa.

7. Diário da queda (2011), de Michel Laub

Fabio Braga, Folhapress
Michel Laub | Foto: Fabio Braga, Folhapress

Escrito em primeira pessoa, a narrativa se inicia por meio de uma lembrança desse narrador adulto: um acidente com um amigo de escola no dia de seu Bar Mitzvah. O protagonista e seus amigos decidem levantar o aniversariante por trezes vezes e, na última, deixam-no cair de propósito. Ao menino, o acontecimento custa várias sessões de fisioterapia. Ao narrador, a sua própria consciência. A queda não é só de João, mas também é simbólica em vários sentidos: de sua relação com o pai, de seu contato com o mundo judaico, e as memórias de Auschwitz, por meio de um diário mantido por seu avô.

8. Fé na estrada (2012), de Dodô Azevedo

Único livro de ficção do colunista do G1, é outro daqueles livros que brincam de estar no limiar entre ficção e biografia. O romance é narrado por Dodô, fã da geração beat. O protagonista faz uma viagem aos Estados Unidos, pegando carona, acampando e pegando pequenos trabalhos, para tentar encontrar alguma sombra do humanismo beat, em meio ao governo George W. Bush.

9. O divórcio (2013), de Ricardo Lísias

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Ricardo Lísias | Foto: Divulgação

O personagem principal passa por uma fase depressiva após o término de seu curto casamento. O pivô da separação foi um diário mantido por sua mulher que o narrador-protagonista teria encontrado em seu quarto. Diário cujo conteúdo apontava para uma falta de afeto de sua mulher para com seu marido, bem como uma suposta traição. O protagonista, que possui o mesmo nome do autor, fica com o diário, pede a separação, ameaça divulgar todo o conteúdo do caderno. Começa a ser perseguido por jornalistas amigos de sua ex-esposa e desconta toda sua raiva e frustração pela separação, e pela morte recente de um amigo (presente em outro romance: O céu dos suicidas) na corrida.

10. Deserto (2013), de Luís S. Krausz

Palavras da comissão julgadora do Prêmio Benvirá: “A breve autoficção de Luis S. Krausz, batizada acertadamente de Deserto, consegue a proeza de condensar, num reduzido número de páginas, um universo bastante complexo de conflitos emocionais, familiares, políticos e culturais. Deserto sem dúvida não só agradará aos leitores vorazes, que ao final ficarão desejosos de novas aventuras do autor, como também contribuirá para atrair os jovens que ainda não conhecem o prazer da leitura. O romance escolhido unanimemente pela comissão julgadora é uma obra madura, que vai do particular para o geral: esmiúça os dramas da comunidade judaica, mas alcança os caminhos e descaminhos da alma humana.

11. Na escuridão, amanhã (2014), de Rogério Pereira

Rogério Pereira | Foto: Guilherme Pupo

Romance do catarinense fundador do jornal paranaense de literatura Rascunho. O lirismo conduz as páginas, marcadas também por elementos biográficos. A narrativa gira em torno de uma família que sai do campo e vai para cidade. Porém, ao invés de construir a ideia de um paraíso idílico perdido, o narrador vai desvendando os elementos trágicos desde os tempos de roça.

12. O irmão alemão (2014), de Chico Buarque

O mote para a história é o suposto irmão bastardo de Chico Buarque. Seu pai, Sérgio Buarque, trabalhando como correspondente de um jornal em Berlim, teria tido um filho chamado Sérgio Ernst. O narrador sai em busca do passado para encontrar o irmão perdido. Apesar de termos vários elementos identificáveis como realidade na obra, o romance gira em torno da tensão entre o que realmente aconteceu e o que poderia ter acontecido.

13. Flores artificiais (2014), de Luiz Ruffato

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Luiz Ruffato | Foto: Divulgação

Ele próprio, o autor Luiz Ruffato, recebe em casa um manuscrito chamado Viagens à terra alheia – referência clara ao Viagens a minha terra de Almeida Garrett – de um brasileiro chamado Dório Finetto, ex-funcionário do Banco Mundial que viajou a vida toda a trabalho. Ele acredita não ser capaz de escrever um grande livro e pede a Luiz Ruffato que o faça. E o escritor aceita o desafio. Isso é realidade. E é a partir das anotações desse homem real que Ruffato constrói seu livro.

14. História da chuva (2015), de Carlos Henrique Schroeder

O romance do escritor catarinense parte das catástrofes acontecidas em Santa Catarina no ano de 2008. Tragédia que tira a vida de Arthur, especialista em teatro de animação e fundador, juntamente com o personagem Lauro do Grupo Extemporâneo de Formas Animadas. Ambos são amigos de Carlos, escritor de Jaraguá do Sul e narrador do romance.

15. A morte de JP Cuenca – Descobri que estava morto (Previsão para 2016), de João Paulo Cuenca

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João Paulo Cuenca | Foto: Divulgação

A narrativa parte de uma descoberta insólita, acontecida em 2008: um corpo fora encontrado em um edifício na Lapa. Nada de incomum se esse corpo não tivesse sido identificado com a certidão de João Paulo Cuenca. A partir desse fato, a narrativa discorre sobre o roubo de identidade. Um roubo deveras incomum, uma vez que, normalmente, pessoas roubam identidades de mortos para se esconderem, e não o contrário. Livro e filme foram desenvolvidos concomitantemente. O autor afirma que não são cópias um do outro, pois cada narrativa de se desenvolverá independentemente uma da outra.