Quissama, ação e mistério num livro sobre capoeira com José de Alencar como personagem

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 Livro de Maicon Tenfen traz trama de aventura no período imperial brasileiro.

capoeira

Quantos livros da literatura brasileira (ou de qualquer outra) você conhece que tratem de capoeira, nem que seja de forma bem indireta? Poucos, correto? No entanto, esta expressão cultural que mistura dança com artes marciais é um elemento presente na formação da identidade nacional brasileira.

Ambientado no século XIX, enquanto o Império do Brasil enfrentava, junto a seus aliados, a Guerra do Paraguai, o romance Quissama, de Maicon Tenfen, supre exatamente a carência citada acima. Já no prefácio, o escritor alega sempre ter tido um desejo de escrever uma obra sobre a capoeiragem, mas ao iniciar sua pesquisa para o projeto, deparou-se com o diário de um ex-agente da Scotland Yard e marinheiro inglês que viveu no Brasil justamente na época. Sua tarefa se mostrava parcialmente completa, pois o livro que pretendia escrever, estava escrito. Restava a ele a tarefa de traduzir e adaptar o texto de Daniel Woodruf. Através de um recorte deste diário, surgiu o primeiro volume: O Império dos Capoeiras.

Num estilo folhetinesco (quase holmeniano), a obra se inicia com o encontro de Woodruf com o moleque Vitorino Quissama, pedindo ao inglês que o ajude a encontrar a mãe desaparecida. Como depois se revelará, Daniel Woodruf havia solucionado o caso do desaparecimento de uma artista francesa, de forma que sua fama de investigador se espalhou pelo Rio de Janeiro da época, tornando-se destaque nos jornais. De passagem comprada para voltar à Inglaterra, o ex-agente da Scotland Yard, evidentemente, negará ajudá-lo. O moleque lhe oferece uma joia, mas a experiência do inglês lhe fará recusar, pois o valor do objeto é muito alto para que um escravo, provavelmente foragido, carregasse-a. No entanto, não pode saber que quando se der conta do problema, estará metido com um dos maiores bandidos da época, Herr Muller, entre uma guerra secreta das maltas de capoeira, os Nagoas e os Guaiamuns.

 

José de Alencar como personagem

Numa obra de ficção que resgata um período histórico é importante que o autor não se encante pela pesquisa, erro muito comum. Os fatos precisam estar a favor da ficção, e não ao contrário. Neste sentido, o livro de Maicon Tenfen possui um cuidado especial, pois os costumes, ambientações e eventos aparecem na medida em que são necessários à história.

É um fato quase desconhecido que o autor de Senhora e O Guarani foi também ministro da justiça. José de Alencar exerceu o cargo político durante o governo de Dom Pedro II. Na trama de Quissama – O Império dos Capoeiras, ele aparece como um dos personagens mais importantes para a história. Para o leitor mais atento, as rápidas discussões literárias que surgem, entre Woodruff e Alencar, podem ser uma espécie de bônus. Por exemplo, o brasileiro diz ao inglês que acompanhou nos jornais a investigação que o inglês realizou, e depois faz uma observação a respeito do caso: “Suspeito até que poderia gerar uma nova forma de romance, com tramas sensacionais em que a razão estaria a serviço da lei e da justiça, em que o raciocínio de dedutivo e a capacidade de observação do herói sempre se mostrariam capazes de vencer o avanço da barbárie e do crime doentio” (pg.89). Esta inserção da trama parece só acrescentar à imagem do personagem, pois é como se ele estivesse prevendo a invenção (ou popularização) do romance policial.

José de Alencar aparece no livro como um sujeito nobre, embora meticuloso, de princípios firmes, que tem uma visão global dos problemas. Por exemplo, no que tange ao diferente posicionamento político que tem em relação ao poeta Castro Alves e também ao imperador:

“ – Sei reconhecer o talento de um escritor. Se possui boa pena, pouco me importa o credo que professa. Passei horas palestrando com Castro Alves sobre os dilemas da escravidão. Ele é jovem e audacioso, luta pelo que acredita, e luta com sinceridade, de peito aberto, algo que admiro nas pessoas. Por meu turno, acredito que a escravidão há de se distinguir por si mesma, espontaneamente, tão logo se torne desnecessária à nação. É inviável que termine da noite para o dia, por decreto, como querem os chamados abolicionistas. Essa gente é ingênua ou mal-intencionada. Uma abolição instantânea seria traumática e perigosa, poderia atirar o país numa guerra civil, mais ou menos como aconteceu nos Estados Unidos. Tristemente, esses agitadores que começaram a dar as caras nos comícios são incapazes de raciocinar com prudência. Mas agem dessa maneira porque têm um poderoso padrinho espiritual. Por incrível que pareça, mister Woodruff, o principal abolicionista, ou melhor, o principal agitador do Brasil é um indivíduo chamado Pedro Alcântara de Orleans e Bragança.
– Está se referindo ao imperador?” (pg. 172).

 

Caixa chinesa ou easter egg

Caixa Chinesa, na literatura, é o conceito de se ter uma história dentro de outra história. E easter egg seria como esconder algo dentro da história. Particularmente, me parece ser o caso do que aparece na página 90 do livro. Daniel Woodruff tem seu primeiro contato com José de Alencar. Após o ministro fazer o comentário já citado, sobre a trama da investigação do inglês, Woodruff afirma que a admiração mútua. Depois faz um comentário a respeito da técnica utilizada por Alencar em O Guarani: “[…] é arrebatador desde o prólogo. Sugerir que o texto não era da sua autoria, mas que se tratava de um antigo manuscrito que o senhor havia copiado e remoçado… Nossa! O truque pode ser antigo, mas sempre funciona para avivar a trama”. O trecho certamente poderá provocar no leitor algumas perguntas.

QuissamaO livro como um todo remonta o período histórico, mas certamente preza por contar uma história dinâmica, em linguagem acessível, mas com um enredo aventuresco e policial, como realmente um inglês teria escrito.

 

Quissama – O Império dos Capoeiras
Maicon Tenfen
Editora Biruta
2014
308 páginas