Quissama é o começo de uma trilogia histórica em ritmo de capoeira

Quissama é o nome do primeiro livro de uma trilogia homônima, ambientada na cultura brasileira em ritmo de capoeira, e apresentamos o começo dessa dança.

Quissama
Detalhe de uma das ilustrações do jogo baseado no livro Quissama – O Império dos Capoeiras

Não é de hoje que o passado histórico brasileiro tem despertado interesse e encanto pelos contadores de histórias. Seja o período que for, a gama de histórias e personagens fascinantes na trajetória do Brasil serve para preencher longas páginas de livros e, principalmente, atrair os mais diversos leitores. Não é por acaso que, em um fenômeno recente, a sequência de livros 1808, 1822 e 1889, de Laurentino Gomes, conquistou seu espaço nas estantes das livrarias. Afinal, ao abordar a vinda da família real portuguesa ao país, a independência brasileira, a ascensão da monarquia nos trópicos, além de uma série de pormenores, até a queda de Dom Pedro II, tornou-se um best-seller.

Mas, é claro, esta sequência de livros é apenas uma entre as muitas que têm tratado de contar a história nacional e fascinar seus leitores. Muito mais do que isso, a História tem servido também à arte. E quando se fala isso, é preciso pontuar a rica gama literária de obras que, tendo um pano de fundo histórico, mesclam ficção e realidade. Tais como, por exemplo, O Xangô de Baker Street, de Jô Soares, que trata da ficcional vinda de Sherlock Holmes para terras tropicais, a pedido do imperador Dom Pedro II, a fim de desvendar o sumiço de um violino Stradivarius, além de uma série de crimes que chocam o Rio de Janeiro.

O que é preciso então pontuar é que há de fato uma grande capacidade de sedução do leitor por parte da História, quando bem narrada, e, ainda mais, do romance histórico, quando bem escrito. Pois o fato é que enquanto o historiador está preso a princípios que o norteiam em sua pesquisa e tratamento dos acontecimentos, o escritor de ficção, muito mais do que fatos, tem a sua inteira disposição sua própria criatividade e imaginação. Em outros termos, ele pode simplesmente extrapolar os limites dos acontecimentos históricos e inserir ali objetos próprios, de criação pessoal, e que vão além dos limites cerceados da realidade palpável. Diante disso, cabe ao leitor, em última instância, bom senso em buscar distinguir o ficcional da realidade.

Todavia, o que importa aqui é comentar que, nesse veio de autores de romances históricos, surge recentemente o nome do escritor Maicon Tenfen — que, experiente, ao longo das últimas duas décadas, tem publicado diversos livros, entre crônicas, ficção e teoria literária, mas que recentemente iniciou o projeto de uma trilogia ambientada no período imperial brasileiro, intitulada Quissama.

O pesquisador de Quissama

Maicon Tenfen

Maicon Tenfen é um escritor catarinense. Além de professor universitário na Universidade Regional de Blumenau (FURB), dedica-se à literatura. Contribuiu durante alguns anos como colunista diário para o jornal local, o Santa, e semanalmente para o principal jornal impresso do estado, o Diário Catarinense. Atualmente, depois de publicar alguns textos na versão impressa, mantém um blog no site da Revista Veja.

Cabe destacar que a literatura do autor sempre foi voltada ao suspense e ao romance policial. E nesse sentido algumas obras valem ser citadas aqui, tais como: Um Cadáver na Banheira (1997) ou mesmo Galeria Wilson (2010). Ambas desenvolvidas com tramas mirabolantes, frenesi constante e doses de inquietação — características da maior parte de suas obras ficcionais.

Sendo assim, Quissama — O Império dos Capoeiras, primeiro volume da trilogia Quissama, representa, de certo modo, uma cisão do autor em relação a obras anteriores, mas apenas na medida em que o leva a se lançar em direção a um modo de fazer literatura ainda não explorado por ele. Vale a pena, assim, falar dessa obra, na medida em que, por ser um romance histórico, não se limita somente à literatura, mas acaba por extrapolá-la.

Quissama, segundo o próprio autor em uma de suas entrevistas, nasceu de um velho desejo dele: produzir um romance que tivesse como base os costumes brasileiros. Assim, desde sempre fascinado por filmes de ação e artes marciais como os de Bruce Lee, buscou na própria cultura nacional algo que representasse um paralelo a isso, ou seja, as artes da luta. Desse modo enxergou na capoeira, um dos elementos mais marcantes de seu livro, uma peça fundamental para a construção da história ali contada. Não é por acaso que o protagonista de sua obra, Vitorino Quissama, e que dá nome a ela, é um capoeirista. E que parte da obra, pelo menos no primeiro livro, retrata rixas entre maltas, grupos de escravos e ex-escravos capoeiristas.

QuissamaO livro fala, de início, sobre a estada de Daniel Woodruff, um inglês e ex-agente da Scotland Yard, que está de passagem pelo no Brasil, em específico no Rio de Janeiro. E que justamente por ser quem é, a ele recorre o jovem Vitorino Quissama — que, sendo um escravo fugido da senzala, busca a ajuda do inglês para encontrar a mãe desaparecida. Assim, os dois percorrem juntos a cidade carioca, de meados do século XIX, em busca da mãe do rapaz — além de se verem às voltas com uma série de mistérios.

Um detalhe curioso sobre a obra é aquilo escrito pelo próprio autor em seu prefácio. Afinal, conta ele uma longa história sobre a confecção da obra, chegando ao curioso detalhe do livro Quissama ser baseado em manuscritos de um inglês justamente chamado Daniel Woodruff. Manuscritos estes encontrados por uma amiga da Biblioteca Nacional que teria lhe avisado sobre isso e, tendo ele, o escritor, o interesse despertado, usado o material para a confecção de Quissama. Uma história interessante, claro, mas a bem dizer pouco verosímil na medida em que na última página do livro consta uma pequena nota em que é deixado claro que tal livro é baseado na livre criação de elementos ficcionais. Ou seja, a história do autor em seu prefácio é um truque para encantar o leitor, ou história para inglês ler.

De todo modo, isso não retira da obra suas qualidades, mesmo porque tal história contada no prefácio não passa de um artificio para reforçar a conexão da obra com o período histórico na qual é narrada. Assim sendo, se antes havia se dito que a capoeira era um dos aspectos mais importantes da narrativa, há outros que cabem um interessante destaque. Como, por exemplo, a participação efetiva de marcantes personagens da história brasileira no desenrolar do livro. Pois é muito interessante o modo como figuras como José de Alencar, o escritor e, por um período, Ministro da Justiça durante o governo de Dom Pedro II, acaba por participar da trama — assim como a forma como Maicon Tenfen dá vida a um personagem como Alencar e o traz à tona ao leitor.

Vale destacar o ponto exato no qual Maicon Tenfen situa sua história: a Guerra do Paraguai. Ou seja, um dos mais marcantes e importantes momentos da história nacional, no qual o Império Brasileiro detinha todos os seus esforços em prol da campanha militar que ocorria. O que leva, até mesmo, em alguns momentos, durante a narrativa ou diálogos, a pontuais e breves reflexões sobre aquele momento vivido nacionalmente, seja sobre a guerra ou mesmo sobre a condição da escravatura que se mantinha no Brasil. Claro, breves reflexões na medida em que o foco da própria narrativa não se revela no sentido de gerar, apesar de não ignorar, discussões sobre a história nacional.

Um último ponto, ainda sobre o livro em si, que cabe ser comentado, é que há ilustrações. Ao longo de toda obra, em momentos particulares, é possível se observar alguns desenhos que ajudam justamente a dar vida aos personagens e aventuras por eles vividos. E dois detalhes curiosos sobre isso merecem comentário: (1) que as ilustrações ali presentes foram feitas por Rubens Belli, dono do Belli Studio, que além de ilustrações desenvolve diversas animações para televisão; e (2) que a partir disso, muito mais do que somente uma obra literária, Quissama passou a representar a reunião de diversas pessoas em volta de um mesmo projeto.

Danças em volta de Quissama: os projetos em volta da trilogia

A partir do livro outros projetos surgiram, ainda relacionados com a obra. Afinal já na data de lançamento de Quissama, em 2014, foi apresentada ao público também uma música, da banda The Zorden, baseada na história.

Outro detalhe interessante quanto a isso é que, a partir dele, do livro, foi desenvolvido um jogo de tabuleiro. O projeto nasceu a partir de conversas do escritor com Ricardo Spinelli. Ricardo, que é professor de inglês e acompanhou o desenvolvimento do primeiro volume da trilogia, tendo até mesmo lido os manuscritos, foi quem propôs a ideia. Ele já tinha alguma experiência no assunto, pois desde muito tempo era um interessado por diversos jogos de tabuleiros e há anos desenvolvia, mas apenas para os filhos, alguns boardgames. Aliou isso ao conhecimento prévio que tinha do trabalho de Maicon Tenfen em relação ao Quissama e, no ano seguinte ao lançamento do livro, em 2015, foi lançado o jogo. Um detalhe curioso é que o projeto foi posto à prova por meio de financiamento coletivo através do site Catarse. Tendo conseguido, ao final, o apoio de mais de 250 pessoas e o valor mais do que suficiente para a confecção do material do jogo.

De todo modo, o fio condutor para tudo isso ainda é a trilogia Quissama. Se a primeira obra teve como subtítulo Império dos Capoeiras, a segunda será chamada de Territótio Inimigo. Mesmo ainda sem data de lançamento, o escritor já deixou claro que a segunda parte de sua obra tratará das desventuras e incursões de Quissama e Daniel Woodruff em solo paraguaio durante a guerra que o Brasil teve com este país. Tal tema já havia sido abordado no primeiro livro, na medida em que a nação brasileira já se encontrava no conflito. Todavia, nessa segunda obra, isso será elevado ao fio condutor da narrativa. E, naturalmente, marcantes figuras daquele momento, tais como o General Osório ou mesmo o Visconde de Taunay, surgirão.

Já quanto à terceira obra, o que há é uma incógnita. Nada definido ainda, pelo menos não enquanto não for lançada a segunda parte. Mas o que se pode esperar é que, quando lançada, talvez também venha à luz outro jogo. E, quem sabe, a partir dos três livros finalizados, obras complementares surjam, tais como spin-offs (ou seja, histórias derivadas da narrativa base da obra) ou mesmo prequels (pré-sequências que tratam de abordar a vida de personagens antes daquilo contado nas obras principais). Porém, são apenas possibilidades, ainda incertas. Dependerá da apreciação do público em relação à sequência, já disse o autor.

Há ainda um último detalhe curioso em meio a tudo isso: a possibilidade de a obra vir a se tornar, pegando o esteio do momento, uma animação. Em parceria com Rubens Belli, já citado aqui, está sendo desenvolvido um projeto de animação. O roteiro já está definido e logo haverá um piloto.

Assim, voltando-se ao livro em si, é proveitosa a leitura de Quissama — O Império dos Capoeiras devido a sua rica gama de personagens, do mesmo modo que devido ao seu singular pano de fundo histórico: o momento em que o Brasil ainda era um império e encontrava-se em um dos mais intensos conflitos armados das Américas.

Na verdade, a obra é voltada para o público juvenil, mas não deixa de possibilitar que o leitor adulto também venha a se interessar pela história contada nas páginas de Quissama. Pois, como dito e ressaltado, trata-se de um romance histórico e que, devido a uma gama de referências ao período no qual a narrativa se desenvolve, acabam colorindo e tornando interessante a leitura — afinal, gera-se uma série de revelações quanto a aspectos daquele período, seus valores e costumes. Não é por acaso que, devido a essas qualidades, entre outras, que em 2015 a obra foi finalista categoria juvenil do Prêmio Jabuti.

O mérito de Maicon Tenfen, quanto ao seu livro Quissama, reside então no fato de ter desenvolvido uma obra cativante e que, independentemente dos elementos ficcionais, desperta o interesse do leitor para a história brasileira e suas variadas nuances. Além de representar, como muitos outros romances históricos, um incentivo à leitura e a busca pela compreensão da cultura nacional.

Fabricio Bittencourt Author

Trabalho em uma editora, estudo filosofia e dedico parte do meu tempo para a escrita. Tenho contos publicados nas seguintes antologias: Conte uma Canção (2014) e Projeto Beta: Antologia de Contos Universitários (2015).