Rabudinhas e despudoradas: as mulheres de Giovana Madalosso

Rabudinhas, despudoradas e sobreviventes de tudo, as mulheres das ficções de Giovana Madalosso despertam várias interpretações

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Giovana Madalosso / divulgação

As mulheres ficcionais da Giovana Madalosso são umas rabudinhas. Seus dois livros evidenciam isso: da seleta de contos A Teta Racional, publicada pela Grua em 2015, ao romance Tudo pode ser Roubado, publicado esse ano pela Todavia. Elas sobrevivem a porres (nada) memoráveis, noites em claro acompanhadas de baseados, planos grandiosos que nem saem da gaveta, buscas que esmagam o resto de suas identidades. As rabudinhas resistem a tudo, especialmente a si mesmas.

rabudinhasA coletânea A Teta Racional dá pistas claras disso. Os contos são unidos pelo bem-vindo tom despudorado e nada solene com que as mulheres falam de si. XX + XY, abertura do livro, joga quem lê na cabeça da protagonista, uma mulher se reconstruindo em meio à maternidade – ou justo graças a ela, inundada em sentimentos ambíguos. Já Suíte das Sobras e Fim lidam com perdas em relacionamentos, como se sempre faltasse alguma coisa nas relações mais longas – se a longevidade ainda tiver algum valor.

Os contos variam de tamanho, o que pode dar uma impressão de escrita ainda em desenvolvimento para leitores mais exigentes. Isso não atrapalha o fôlego da obra, cujas características podem ser consideradas embrionárias nessa publicação e consolidadas – e até realçadas – no romance posterior da autora. Além da já mencionada falta de solenidade, expressa principalmente pela linguagem das personagens, as histórias das rabudinhas têm um ritmo veloz e sintetizam parágrafos em poucas frases, deixando bastante espaço à interpretação de quem lê.

As rabudinhas dão espaço a uma só – o romance Tudo pode ser Roubado

Tudo pode ser Roubado é o primeiro romance de Giovana Madalosso, e aumenta o tom despudorado presente na publicação anterior. A protagonista Rabudinha, assim chamada por um parceiro pilantra, é garçonete em um restaurante de São Paulo nas horas oficiais, e faz hora extra vendendo peças roubadas pra sua amiga Tiana, que revende em seu brechó e não está nem aí pra origem de tantos artigos luxuosos.

Do mesmo jeito que a Rabudinha não está nem aí pra quem seduz. Homens, mulheres, tanto faz, ela é guiada por sua vontade; e aproveita deslizes alheios pra furtar umas peças. O catálogo de furtos aumenta quando ela aceita uma proposta, que é apresentada por Biel, o pilantra citado no parágrafo acima. Ela tem que roubar um exemplar raríssimo d’O Guarani de um professor acadêmico excêntrico, ideia de um ricaço ainda mais excêntrico enfurnado na ostentação de suas manias.

rabudinhasA protagonista e o seu parceiro vão ganhar uma bolada com isso, e se jogam numa busca peculiar. Saber mais do alvo não é problema, mas a Rabudinha chega perto do professor numa velocidade menor do que gostaria. O sujeito não se faz de difícil, até porque ela pode seduzir quem quiser. Mas ela precisa furar a barreira do seu alvo: uma carapaça de traumas mal camuflada por um intelectualismo vigilante.

E demora até isso acontecer. Enquanto a Rabudinha e o seu pilantra (de estimação?) bolam um plano pra botar a mão no livro, percorremos com eles uma São Paulo quase cacofônica de tão multifacetada. A dupla se mistura enquanto vai da sarjeta à luxúria, de mentiras calculadas pra chegar perto do alvo a um disfarce perigoso durante uma festa em um nicho da capital.

Tudo pode ser Roubado traz o mesmo tom despudorado e veloz dos contos de Giovana Madalosso. As descrições da protagonista sobre o que e quem ela encontra variam entre o sincericídio corrosivo e um sentimento de não querer se entregar de vez à melancolia, como se essa fosse só uma coisa passageira. À necessária e bem humorada rasteira na solenidade com que se encaram as coisas – físicas ou não – que nos cercam, adiciona-se a sobrevivência aos próprios planos e as migalhas restantes.

 

Walter Bach Autor

Colaborador do Homo Literatus desde 2014, demente profissional (vulgo editor) desde 2016.