Raphael Montes indica Patricia Highsmith

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Como leitor, acho cada vez mais divertido perguntar aos escritores: qual autor você indica a leitura, aquele que acha imprescindível?

É aquela hora em que os escritores vestem a pele de leitores. Faz bem vê-los assim.

Após a primeira entrevista da série – em que o Eric Novello indicou Joe Hill –, convidei o escritor Raphael Montes a indicar seu preferido, e, no caso, saiu uma preferida, a escritora estadunidense Patricia Highsmith.

Raphael Montes é um carioca que anda se destacando no romance policial. Apesar da idade (nasceu em 1990, façam as contas), não escreve uma literatura de moleque. Ele estreou no mundo literário em 2009, através do conto A Professora, da coletânea Assassinos S/A (Editora Multifoco). Em 2012, publicou seu primeiro romance, Suicidas (Editora Saraiva), que foi finalista dos prêmios Benvirá, Machado de Assis e São Paulo de Literatura. Como cita na entrevista, sua próxima obra, Dias Perfeitos, será publicada no início de 2014, pela editora Companhia das Letras.

Sua indicada é Patricia Highsmith. A texana (1921 – 1995) é famosa por seus thrillers criminais psicológicos.  Ainda na infância, seus pais se separaram e Patricia teve um relacionamento complicado com a mãe e o padrasto. Por causa disso, cultivou o hábito de escrever diários, fantasiando sobre pessoas próximas a ela terem perturbações psicológicas e tendências homicidas escondidas pela aparência normal. Quando adulta, tornou-se famosa por Pacto Sinistro, seu romance que foi adaptado para o cinema por Alfred Hitchcock, em 1951. Foi uma figura notável. E um fato que acabou não sendo citado na entrevista, mas que Raphael Montes repassou depois, é que ela “era lésbica, com desejo especial por mulheres casadas. Era solitária, depressiva e morreu sozinha em sua casa na Suíça, cercada por seus gatos. […] Lésbica assumida numa época em que homossexualidade ainda era um grande problema, Patricia Highsmith é conhecida por ter escrito o primeiro romance lésbico de projeção internacional. Chama-se Carol e, pra variar, é ótimo”.

E agora, a entrevista:

***

Pelo jeito, você nem vai fazer suspense sobre sua indicada?
RM:
Ainda que eu adore um suspense, acho importante que todos conheçam essa autora de que vamos falar hoje: Patricia Highsmith, criadora de sucessos como Pacto Sinistro e O talentoso Ripley.
É, sem dúvida, uma grande inspiração para mim. Para ter uma ideia, meu próximo romance é dedicado a ela.

Interessante que, segundo me parece, ela é ainda um pouco desconhecida no Brasil. Sim, tem leitores, mas somente no nicho dos fãs de romance policial. Fora dele, fica um pouco mais difícil. Seu próximo romance teria alguma ligação com este propósito, “popularizá-la”?
RM:
A Patricia Highsmith é conhecida por colocar o gênero policial em um novo “patamar”, no nível da “alta literatura”. Eu acho besteira essas escalonações de literatura (e ela também achava, sem dúvida). De todo modo, nas obras dela, há um cuidado maior com a linguagem; a profundidade psicológica dos personagens tem mais importância do que a trama.
Daí que, no Brasil, ela nem alcança uma popularidade de Agatha Christie ou Conan Doyle, nem chama atenção dos “literatos” que torcem o nariz pro gênero policial. No fim das contas, todos saem perdendo.
Meu próximo romance, Dias Perfeitos, não tem a pretensão de popularizá-la, mas sim de homenageá-la. O livro tem alguns elementos bastante comuns nas obras dela (o discurso indireto livre, um psicopata com quem o leitor se identifica, etc) e, ao mesmo tempo, tem um estilo meu, um jeito de contar meu, que – acho – combinou muito bem. Acredito que isso vá levar alguns de meus leitores a conhecer melhor a obra dela – e isso me deixa feliz.

Patricia Highsmith e seu gatoPatricia Highsmith e seu gato

Pois é, dizem que a Highsmith “elevou” o romance policial ao “estatuto de arte”. Mesmo assim, a crítica ainda torce o nariz para este gênero. O próprio William Faulkner, quando lançou Knight’s Gambit (Lance Mortal, no Brasil), foi acusado de querer ganhar dinheiro e por isso estar escrevendo num “gênero menor”. Contudo, no caso da Patricia Highsmith, seu reconhecimento foi rápido, senão pela crítica literária, mas por um dos maiores nomes do cinema, Alfred Hitchcock, logo em seu primeiro romance (Pacto Sinistro, de 1950), que foi adaptado para a tela grande. O que você acha que Hitchcock viu nesta história que chamou a atenção dele?
RM:
Hitchcock, além de ser um diretor genial, era um sujeito esperto. Ele viu em Pacto Sinistro o que qualquer um vê ao ler o livro: uma das premissas mais fantásticas e bem armadas da literatura policial. Aos que não conhecem, o mote é simples: dois sujeitos (Bruno e Guy) se encontram numa viagem de trem e conversam. Bruno está doido para se livrar do pai e receber a herança, Guy precisa que a esposa aceite o divórcio para se casar outra vez. Bruno propõe que eles “troquem de assassinatos”: Guy mata o pai de Bruno e Bruno mata a esposa de Guy. Assim, ambos terão álibis e ficarão livres de seus respectivos problemas: é o crime perfeito! Mas Guy não concorda com a ideia e Bruno decide forçá-lo a aceitar.
O livro é realmente perturbador. Elementar, mas profundo. E já adianta o grande mote da obra de Patricia Highsmith: todo ser humano é capaz de matar, dependendo das circunstâncias. É isso o que ela fazia tão bem. Personagens comuns, ordinários, levados a situações extremas.
Hitchcock leu o livro e comprou os direitos em segredo, sem deixar que Patricia soubesse que era ele quem estava comprando. Pagou uma mixaria. Quando o filme saiu, ela não gostou nada de saber que tinha sido enganada. De todo modo, foi o filme que a levou ao sucesso…

Este livro trouxe a loucura entre dois personagens ligados pelo acaso, pela culpa e por crimes. Esta perspectiva aparece em quase todas as histórias dela. Estes personagens anti-heróis, ambíguos, ou até mesmo imorais, foi isso que conquistou o público, e até mesmo conquistou você? Ou seriam outros os elementos que atraem os fãs?
RM:
O grande barato de ler Patricia Highsmith é esse: você torce pelo vilão. Ela trabalha tão bem esses anti-heróis, ela os deixa tão “humanos”, que você, leitor, acaba se identificando e querendo que ele se dê bem. É uma deturpação da moral, da ética, feita com muita discrição e propriedade.
O talentoso Ripley, a obra mais famosa dela, tem Tom Ripley como personagem principal. É um sujeito perturbado, amoral, que acaba se tornando um assassino. Você devora os livros da série Ripley para saber se (e como) ele conseguirá escapar da polícia.
Esse elemento é muito forte: a identificação do leitor com o personagem antiético, cruel. Acaba por revelar um pouco de nós mesmos, não?
De todo modo, o que mais atrai no texto dela não é a identificação com o vilão, mas sim a linha tênue que ela desenha entre a vilania e a bondade. Não há estereótipos. Existem humanos. Humanos que sempre são capazes de matar se for necessário.

Como uma facada diretamente num ponto que existe, ainda que lá no fundo, dentro de nós? Cuidado, tudo que você responder pode ser usado contra você (risos).
RM:
Uma facada daquelas. É inegável que eu me identifico com várias atitudes dos personagens dela, mesmo os mais repulsivos e angustiantes. E isso me leva a questionar meus próprios limites. Fazer essa autorreflexão através da literatura é fabuloso.

Mais fabuloso ainda seria você dizer para nós, em sua opinião, por qual livro de Patricia Highsmith os leitores deveriam começar a lê-la?
RM:
Vou cair no clichê de indicar o óbvio: O talentoso Ripley. O livro mostra bem o estilo já amadurecido da autora, além de apresentar o personagem mais cativante da carreira dela. É o primeiro livro de uma série, de modo que quem gostar do primeiro pode (e deve) seguir por aí.
Caso queira dar umas férias pro Ripley, Este doce mal, Pacto Sinistro e Águas profundas são ótimos romances de suspense. Ela era uma contista de primeira também (na verdade, ela começou assim na carreira).  A compilação Nada é o que parece ser tem alguns contos que valem a leitura. Ler Patricia Highsmith é uma diversão e uma aula de como fazer boa literatura.

Acredito que os leitores têm um bom roteiro de leitura por aí. Há ainda alguma coisa que queira acrescentar sobre Patricia Highsmith?
RM:
Ela escreveu um livro sobre “como escrever”. Chama-se Plotting and writing suspense fiction. Em vez de dar dicas herméticas ou regras obrigatórias, ela reflete sobre o processo de escrita e a criação de uma história. É interessantíssimo para escritores que pretendem se aventurar no gênero.