Razões para lermos histórias de fantasia

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A fantasia é o caminho para explorar e entender o comum.

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“Eu sei, ninguém irá acreditar nisso. Tudo bem. Se achasse que você acreditaria, não deveria te dizer isso. Prometa que não vai acreditar em uma palavra”.

Essa é uma parte de coletânea da Kelly Link: A mochila das fadas  [1]. Você quer continuar lendo essa história, certo? Bom, você está prometendo, na verdade, quando o faz, acreditar em cada palavra.

Amamos histórias com magia. Eu pelo menos amo. É incrível quando a sombra do Peter Pan brinca com ele, quando a casa em Mágico de Oz é tomada por um tornado e gira em espiral, ou quando a porta do guarda roupa se abre e você pode ver os flocos de neve (e um mundo lá dentro).

A fantasia é o caminho para explorar e entender o comum. Na história de Link, o narrador vai atrás de sua mochila, que é preta, feita de pele de cachorro e com um fecho de osso que pode ser aberto de três diferentes maneiras:

“Se você abrir de uma maneira, então será apenas uma mochila grande […] um lugar com um par de óculos de leitura e um livro de biblioteca. Se você abrir o fecho de outra maneira, então encontrará você mesmo em um pequeno barco navegando pela foz de um rio […] mas se você abrir a mochila da maneira errada, bom, você se encontrará em uma terra escura que cheira a sangue. É aí que o guardião da mochila (o cachorro em que a pele foi usada para construir a mochila) vive.”

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A fantasia é muito parecida com essa mochila. Ela pertence a esse mundo, mas não segue todas as regras. Ela acena pra você. De longe. E quanto mais você explora ela, mais descobre o quanto de mistério e poder existe.

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Fantasia vs Realidade: apenas uma mochila

Agora, os realistas -mágicos- fazem um grande trabalho de gestos e símbolos. Tim O’Brien, por exemplo, coloca uma pedra na boca de um soldado, ele então não pode mais beijar a mulher em As coisas que eles levaram [1]. Junot Diaz mostra a deterioração em Nilda [1] quando ela “Coloca seu peso e (corta) o cabelo pra baixo do nada…”. Existe um fio de cabelo cinza no travesseiro em Uma rosa para Emily de Faulkner, um recuo a partir de uma cabeça e “dois sapatos mudos” no chão. Nós sabemos o que esses momentos significam. Realistas são treinados na arte da sutileza, e se baseiam no reconhecimento do leitor, no subtendido e no humor.

Mas a fantasia é muito maior que tudo isso.

Pense em quão diferente Amada [1] de Toni Morrison poderia ser caso fosse apenas a memória de uma criança morta e não um corpo – a mulher real que sai na água, a mulher que envelheceu na morte e assombra a casa. Amado não é uma ilusão, mas o mundo real. É um corpo que se intromete. Um corpo com rancores. É mais do que ser assombrado por seu bebê morto, é ficar incomodado, perplexo. Quando Amado tem as mãos, as bochechas e os ossos acariciados, há uma série de problemas que nasce em cada um de nós. E não seria isso realmente uma perda?

Fantasias são feitas a partir de uma emoção real. E é mais real quando você enfrenta seus demônios, quando eles estão com você no quarto. Bom, você não consegue fugir deles. Amber Sparks escreveu que “É um momento perfeito de transformar a nós mesmo”. Isso é o privilégio da fantasia, você sente (e sabe) que é real.

Também é divertido – O mundo dentro da mochila

Eu acredito que todos gostamos disso – a magia. Ela nos remete às histórias que ouvimos quando criança. Como Nárnia e O mágico de Oz, aquela sensação de “sim, isso é de verdade” e “esse mundo existe”. Talvez exista um mal-entendido porque não existe mágica em uma história inerentemente infantil. Mas, na realidade, a fantasia nos dá uma nova linguagem para usar. Nos torna flexíveis para brincar, mas também para expressar verdades.

A coisa sobre o realismo mágico é que não há maneira de saber as implicações metafóricas da história até que esteja terminado. No fim nas histórias de Zach Doss, há muitos e complicados significados. Poderia ser sobre ter um segundo plano, sobre quebrar alguém em pedaços, um amor, ou hipótese, sobre ter um plano falho, sobre amar alguém muito ocupado para retribuir…

Você pode sentir tudo isso quando escreve uma história realista e mágica. Isso é parte da fantasia.

E então, existe um lado escuro: o guardião da bolsa.

A melhor parte da mochila mágica de Link é que existe um problema quando a abrimos errado – o que significa um caminho perigoso, onde você pode ser comido vivo. Isso é o terceiro compartimento, ou “uma forma de abrir a bolsa” que separa o realismo mágico das histórias de criança das histórias de adulto.

É como em Truck Everlasting. Onde o caminhão – um homem que não podia morrer – observava o corpo de um homem morto, em que a cabeça estava rachada com a espessura de uma espingarda. O caminhão observava o corpo: como um homem de olhar fixo através da janela. Isso foi horrível. Principalmente o fato de saber que aquilo é eterno. Você pensa que morrer é horrível, mas não morrer era pior.

O que é interesse é que hoje as crianças são encantadas com o fato de ser eterno – isso soa como algo incrível para elas – uma poção da invencibilidade. Pra mim, soa mais como preso, algo como: você nunca conseguira sair, ser livre.

Talvez seja por isso que Kelly Link tenha dado três compartimentos para a mochila mágica. Acho que é isso que torna a fantasia complexa – São três em um – esse é o mundo, e não contém nenhum outro mundo dentro dela. Nós precisamos adentrar nessa mochila mágica – entrar nela por algo mágico e perigoso. Porque sentimentos humanos são reais.

 

* Traduzido e adaptado, alguns dos livros citados no texto ainda não possuem tradução no Brasil. Texto original disponível aqui.

[1] Em tradução livre.

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