Realidade em transe: Lojas de canela, de Bruno Schulz

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1. Uma literatura faminta

Descobrimos Bruno Schulz graças a uma curtíssima resenha promocional de uma revista que folheávamos sem grande interesse. Anuncia o lançamento de Ficção completa, da Cosac Naify. O livro se propõe a reunir a parte sobrevivente do legado ficcional de Schulz. A tradução é de Henryk Siewiersky (embora o nome ainda não nos diga nada). Uma comparação com Kafka e uma descrição curiosa da fantasia que há em sua literatura é o que captura nossa atenção.

Compramos o livro. Não é difícil encontrá-lo. Na capa, uma ilustração que logo descobriremos ser do próprio Schulz. No índice, tiramos que Ficção completa é feito de dois livros de Schulz, as coletâneas de contos Lojas de canela e Sanatório sob o signo da clepsidra, e mais quatro outros contos. Ao fim, há um brilhante posfácio do próprio Siewiersky. Descobriremos que há nesse posfácio muito o que se procurar no intuito de melhor compreender a obra de Bruno Schulz.

É o posfácio de Siewiersky que nos diz que em cartas a amigos foram esboçados pela primeira vez os contos de Lojas de canela. Bruno Schulz tinha já 42 anos. Era até então um desconhecido professor de desenho da cidadezinha de Drohobycz, Polônia (hoje Ucrânia.) Lojas de canela foi recebido com grande alegria pela crítica de seu país e trouxe com velocidade Schulz ao 1º pelotão da literatura polonesa do século XX.

Lojas de canela (assim como Sanatório sob o signo da clepsidra) é um livro de contos. São sobre personagens de uma família de comerciantes, sobre a casa, o bairro, a cidade onde vivem. O protagonista de todas as histórias chama-se Józef; é uma criança, e o tom de memória impresso na narrativa o puxa em nossa leitura como algo da infância do próprio Schulz. Vai ficar claro, no entanto, que Schulz nos leva com facilidade da pura lembrança para o mito. É a percepção do pequeno Józef que quebra a casca da provinciana Drohobycz e faz vazar uma mágica escondida. Na ficção de Schulz existe uma fecundidade de fantasia dentro de todas as coisas.

Logo no primeiro conto, Agosto, somos atacados por essa exuberância quando Józef passa por um terreno baldio:

“E junto à cerca o pelico de capim levanta-se numa bojuda corcunda-colina, como se dormindo, o jardim virasse de um lado para o outro, e seus grossos ombros camponeses respirassem o silêncio da terra. Nesses ombros do jardim, a desmazelada, abundância feminina de agosto agigantava-se em abismos surdos de enormes bardanas, expandia-se em fatias de chapas cabeludas de folhas, em línguas exuberantes de verde carnudo. Ali, esses esbugalhados bonecos de bardanas arregalavam-se como as mulheres amplamente refesteladas, quase devoradas por suas próprias saias enlouquecidas. Ali, o jardim vendia de graça os cachos mais baratos de sabugueiro, o painço grosso de tanchagem com cheiro de sabão, a cachaça brava de menta e todos os piores trastes de agosto. Mas do outro lado da cerca, atrás desse imo do verão em que se espalhou a estupidez das ervas daninhas, havia um monturo coberto desordenadamente pelo cardo. Ninguém sabia que justamente ali agosto celebrava neste verão sua grande orgia pagã.”

Similar vai acontecer com os panos e rendas da loja de tecidos em A noite da Grande Estação

“Os fundos da grande loja escureciam e se enriqueciam todo dia com novos estoques de panos, cheviotes, veludos e belbutinas. Nas prateleiras escuras, esses celeiros e limbos de uma cor fresca e de feltro, o colorido assentado das coisas rendia lucros mirabolantes, e o grande capital do outono se saciava e multiplicava. Ali crescia e escurecia esse capital, refestelando-se cada vez mais nas prateleiras, como na galeria de um enorme teatro, completando-se ainda e multiplicando-se a cada manhã com novas mercadorias que, em caixas e pacotes, misturadas ao frio da madrugada, carregadores barbudos traziam em seus ombros ursinos, soltando gemidos, entre exalações de frescor de nutritivas cores têxteis, lutando preenchendo cuidadosamente com elas todas as frestas e lacunas dos altos armários. Era um enorme registro de todas as cores do outono, disposto em camadas, ordenado de acordo com as tonalidades que subiam e desciam, como se fossem escadas sonoras, gamas de todas as oitavas cromáticas. Começava embaixo e experimentava, gemendo timidamente, os declives e semiverdes e azuis dos gobelinos e, crescendo até o alto em acordes cada vez mais largos, chegava aos azuis-escuros, ao anil das florestas longínquas e à pelúcia dos parques rumorejantes, para entrar em seguida, através de todos os sanguíneos e ocres, ruividões e sépias, na sombra sussurrante dos jardins murchos, e chegar até o cheiro escuro dos cogumelos o suspiro do carcoma nas profundezas da noite de outono e o acompanhamento surdo do mais escuro contrabaixo.”

…e com os lençóis brancos que se tornam massa de pão às sovas em O Sr. Károl:

“Às apalpadelas, no escuro, afundava-se no meio das montanhas brancas, serras e montes de penugem fresca, e assim dormia, numa direção desconhecida, ao revés, com a cabeça para baixo e a testa encravada na polpa fofa da cama, como se quisesse perfurar, percorrer de lés a lés durante o sono os enormes maciços de edredons que cresciam à noite. Lutava com eles como o nadador luta com a água, sovava, amassava-os com o próprio corpo como se fossem um enorme tabuleiro cheio de massa, no qual mergulhava para acordar ao amanhecer banhado de suor, ofegante, jogado na beira desse monte de edredons, que não fora capaz de vencer na dura peleja noturna. Assim, meio lançado às margens do sono, pendia ainda um pouco na beira da noite, desacordado, atraindo o ar aos pulmões, e o edredom crescia em volta dele, enchia e fermentava, e cobria-o de novo com uma porção pesada de massa esbranquiçada.”

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Autoretrato

Citações semelhantes poderiam ainda ser feitas com a floresta de panelas no sótão e o vento impregnado na pele dos viajantes em A tempestade e das revoadas e gaiolas de Os pássaros. Experimentamos que nos abrem uma realidade maior, onde tudo é dono de uma frequência própria, vibra, ressoa. Gilles Lapouge vai usar o termo “realidade em transe” para descrever o universo Schulziano.

Graças às mutações que Schulz enxerga, na realidade, um carinho pelo masoquismo e também pela dolorida representação da figura paterna, Bruno Schulz, nascido em 1892, costuma ser posto ao lado de Kafka. Até onde vai nos levar esse paralelo? Diferente do escritor de A metamorfose, Schulz nos deixa uma prosa exuberante, encharcada de poesia. Da palavra Schulz resgata a Verdade, o sentido do mundo. Bruno buscou, através desses tijolos, as palavras, reconstruir uma realidade anterior, perdida, esquecida e mítica, de onde nossa realidade estaria à sombra. Schulz busca em seu projeto o épico. Na sua ficção essa concepção transparece na substância que compõe sua realidade ficcional: a matéria de todas as coisas é efervescente, fermenta à transborda, deposita-se, avoluma-se até que deixe de ser o que era e torne-se algo novo. Infecta o espaço. Onde a literatura de Kafka é incapaz de apetite, a de Schulz é faminta. Todas as coisas são feitas de uma matéria única, expectante e fluida, que no tempo nunca resiste assumir diferentes formas, como um deus que em todas as coisas assume uma mesma e diferente face.

Em algum ponto de nossa leitura de Lojas de canela chegamos à trinca de contos O tratado dos manequins. Nesses contos-manifesto (tão femurais para Lojas de canela que roubaram para si o nome do livro em sua edição francesa na época de seu lançamento: Traité des Mannequins) a narrativa de Schulz parece, atingida por um raio, acordar de seu falar dormindo e vestir por suas páginas o hábito sacerdotal, profético. Ergue-se em um sermão que, por fim, explica a filosofia regendo sua arte:

“— O Demiurgos — dizia meu pai — não tem o monopólio da criação, pois a criação é um privilégio de todos os espíritos. A matéria goza de uma fecundidade infinita, de uma potência vital inesgotável e, ao mesmo tempo, de uma força sedutora de tentação, que nos incita a moldá-la. Nas profundezas da matéria desenham-se sorrisos imprecisos, germinam conflitos, condensam-se formas apenas esboçadas. Toda a matéria ondula de possibilidades infinitas que a perpassam com arrepios insípidos. Esperando pelo sopro vivificante do espírito, ela transborda de si sem parar, tenta-nos com mil redondezas e maciezas doces, fantasmagorias nascidas de seu delírio tenebroso.”

E no mesmo conto, o primeiro dos três do Tratado, de subtítulo O segundo gênese:

“Meu pai, porém, desenvolvia o programa daquela outra criação demiúrgica, a visão daquela segunda geração de criaturas, que deveria opôr-se abertamente ao domínio da época atual. — Não fazemos questão — dizia ele — das obras de grande fôlego, dos seres de longa duração. As nossas criaturas não serão heróis de romances volumosos. Seus papéis serão curtos, lapidares, seu caráter sem profundidade. Às vezes, por um só gesto, uma só palavra, nos daremos ao trabalho de trazê-las por um instante à vida. Reconhecemos com toda a franqueza: não faremos questão da durabilidade ou da solidez do produto, as nossas criaturas serão como que provisórias, feitas para servir uma só vez. Se forem seres humanos, lhe daremos, por exemplo, apenas metade do rosto, um braço, uma perna, justamente aquela que o seu papel exige. Seria pedantismo preocupar-se com a outra perna, uma vez que ela não entra no jogo. E nas costas, elas podem ser simplesmente costuradas ou pintadas de branco. Resumiremos a nossa ambição nessa orgulhosa divisa: um ator para cada gesto. Para cada palavra, cada ato, faremos nascer um homem especial. É isso que nos agrada, esse será o mundo segundo nosso gosto. O Demiurgos apaixonava-se por materiais requintados, perfeitos e sofisticados — nós damos preferência ao barato. Simplesmente nos empolga e arrebata a precariedade, o mal-acabamento e a vulgaridade do material. Será que vocês compreendem — perguntava meu pai — o sentido profundo dessa fraqueza, dessa paixão por papel de seda sarapintado, papier mâché, tinta de lacre, estopa, serragem? Esse — dizia com um sorriso doloroso — é o nosso amor pela matéria como tal, pelo que ela tem de macio e de poroso, por essa sua consistência mística única. O Demiurgos, esse grande mestre e artista, torna a invisível, faz com que ela desapareça no jogo da vida. Nós, pelo contrário, gostamos do seu rangido, da sua resistência, da sua inabilidade rústica. Agrada-nos ver em cada gesto seu, em cada movimento, um esforço lento, uma inércia, uma doçura ursina.”

 

2. Sem os quais não podíamos terminar

Além dos já mencionados, outros dois contos capturam nossa atenção: o epônimo Lojas de canela e A rua dos crocodilos.

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O conto que dá nome ao livro começa com um passeio que a família faz ao teatro, para distrair o pai de Józef de seus problemas de saúde. Quando percebem que esqueceram dinheiro e documentos em casa, o pequeno Józef é mandado em sua busca. A noite, no entanto, é demais para ele:

“Adentrei a noite de inverno, colorida pela iluminação do céu. Era uma dessas noites claras em que o firmamento sideral é tão extenso e ramificado que parece ter sido dissociado, partido e dividido num labirinto de outros céus, suficientes para ser repartidos entre as noites de inverno do mês inteiro e para cobrir com seus abajures prateados e pintados todos os fenômenos noturnos, todas as aventuras, escândalos e carnavais.

Numa noite dessas, é uma leviandade imperdoável mandar um garoto com uma missão tão importante e urgente, por que em sua meia-luz se multiplicam, confundem-se e trocam-se umas ruas com as outras.”

Não demora para que estejamos acompanhando Józef por ruas clandestinas à atenção e à objetividade, ruas que existem e existirão em toda cidade, ruas só encontradas por aqueles que se deixam desviar:

“Numa noite como essa é impossível andar pela Podwale ou por qualquer outra das ruas escuras, que são o reverso, o forro das quatro linhas da praça, e não se lembrar de que às vezes ainda estão abertas nessa hora tardia algumas daquelas lojas tão atraentes e singulares, esquecidas nos dias comuns. Costumo chamá-las lojas de canela, pela cor dos seus lambris escuros com que são revestidas.

Esses comércios, verdadeiramente nobres, abertos até as horas avançadas da noite, sempre foram objeto dos meus sonhos ardentes.”

Quando então o menino deságua no Ginásio de Drohobycz e revisita as aulas de desenho da infância de Schulz. E se a narrativa até então era de sonho, nessa altura torna-se soporífica com volume: com alunos escorrendo de sono pelas carteiras, velas esgotando-se em suas garrafas e expirando no escuro. Não vai demorar para que estejamos seguindo essas crianças na sua volta para casa em uma noite de inverno fluorescente e para que Józef embarque em um fiacre, no qual passará através de uma floresta onde leremos “grupos de viajantes colhendo entre o musgo e os arbustos as estrelas caídas, todas úmidas de neve.”

Em A rua dos crocodilos, Józef revira o escritório do pai e dos papéis e documentos retira um antigo mapa de sua cidade.  Nesse mapa, encontra o bairro conhecido como Rua dos Crocodilos, que vai demarcado “em branco, assim como nos mapas geográficos costumam ser marcadas as regiões polares, os países desconhecidos ou incertos.” Schulz conhece o motivo. E aplica sua metafísica particular para desmascarar esse bairro.

“Enquanto na cidade velha reinava ainda o comércio noturno, clandestino, com seu cerimonial solene, naquele bairro novo desenvolveram-se logo as formas modernas e lúcidas de comercialização. O pseudoamericanismo, enxertado no velho solo carunchoso da urbe, desabrochou ali numa exuberante mas vazia e descorada vegetação ordinária e grosseira vaidade. Viam-se ali prédios baratos, mal construídos, com fachadas que eram caricaturas de si mesmas, prédios cobertos de um estuque monstruoso de gesso gretado. Casas de subúrbio velhas e tortas receberam pórticos feitos às pressas, que só vistos de perto podiam ser desmascarados como imitações pobres das instalações metropolitanas. As vidraças defeituosas, embaçadas e sujas, que retratavam em reflexos ondeados a imagem escura da rua, a madeira não aplainada dos pórticos, a atmosfera sombria desses interiores estéreis em que teias de aranha e poeira grossa assentavam-se nas altas prateleiras e ao longo das paredes escorchadas e esfareladas, deixavam aqui nas lojas a marca do Klondike selvagem.”

A rua dos crocodilos como é: o lugar-fachada. Interface para o vazio; habitada por “criaturas sem caráter e sem densidade”; o “bairro parasita.”

Bruno interpretava como decadência toda a modernização da Europa provinciana, que em seu tempo enriquecia com a exploração de campos de petróleo. As linguagens e os dialetos do comércio ritualístico, como engrenagem social, ameaçadas por novas práticas de mercado que chegam a Schulz como desfigurantes, falsas, artificiais. Próximo às últimas linhas do conto, Schulz esgarça esse bairro, denúncia de sua real mazela:

“Nossa língua não possui termos que dosem o grau de realidade, que definam sua densidade. Falando sem rodeios, a fatalidade desse bairro é que nele nada se realiza, nada chega a seu definitivum, todos os movimentos iniciados ficam suspensos no ar, todos os gestos se esgotam antes do tempo e não podem ultrapassar certo ponto morto. Já tivemos a oportunidade de notar a grande opulência e dissipação — nas intenções, nos projetos e nas antecipações — que caracterizam esse bairro. Todo ele não é senão a fermentação de desejos despertados precocemente, e por isso exânimes e vazios. Aqui, numa atmosfera de demasiada facilidade, brota qualquer capricho, qualquer tensão passageira incha e se alarga numa excrescência bojuda e oca, irrompe uma vegetação parda e leve de lanuginosas ervas daninhas, de papoulas peludas sem cor, uma vegetação feita de um tecido imponderável de quimeras e haxixe. Sobre todo o bairro paira um fluido preguiçoso e devasso de pecado, e as casas, as lojas, os homens parecem às vezes um calafrio em seu corpo febril, uma pele arrepiada em seus sonhos delirantes. Em nenhum outro lugar nos sentimos tão ameaçados pelas possibilidades como aqui, tão estremecidos pela proximidade da consumação, tão empalidecidos e paralisados pelo deleitoso assombro da destruição. Mas também tudo termina por aí.”

Não sem motivos, Lojas de canela é conhecido pelos americanos como The street of crocodiles. Optaram por batizar a coletânea pelo conto que a eles remete. O livro parece ter assegurado alguma influência nos Estados Unidos: recentemente, em 2010, Jonathan Safran Foer lançou Árvore de códigos, romance que escarifica The street of crocodiles, recortando suas páginas e construindo uma nova história. Talvez não exista forma mais sincera de amor: essa que estraçalha.

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Seria, porém, um pecado concluir essa leitura sem que notássemos a personagem de Adela. Adela, a força feminina das histórias de Schulz, a menina por trás da ordem na casa: a limpeza, a arrumação, a purificação. Adela é jovem, é bonita. É ativa, espontânea, vital. Adela corre pelas páginas talvez como avatar do que na mitologia Schulziana seria a mulher gigante: da perfeição de suas formas e movimentos, miniaturiza os homens, que têm pouca força para resistir. Resta curvar-se. Parte de compreender Schulz é entender esse seu masoquismo: Schulz, como nas palavras de seu contemporâneo e conterrâneo Gombrowicz, foi um “escravo da forma.” Sublinhemos escravo. Como se posiciona Schulz com relação à arte? De joelhos. Desse homem que, vale lembrar, teve como profissão primeira o desenho, a coleção de 21 figuras nomeada O livro da idolatria representa homens como seres pequenos, ligeiramente grotescos, suplicantes e martirizantes, enquanto as mulheres são altas, de pernas longas, sorridentes para a veneração que chega por todas as direções. Adela em Lojas de canela é muitas vezes essa mulher. Lembremos como Bruno prostra-se perante os pés de Polda e Paulina, costureiras vagando pela casa de Józef em Os manequins:

“Num de seus passeios pela casa, empreendidos na ausência de Adela, meu pai topou com essa sessão silenciosa do anoitecer. Ficou um tempo na porta do quarto contíguo, com o candeeiro na mão, encantado com essa cena febril e cheia de rubores, esse idílio de pó de arroz, de papel de seda colorido e de atropina, de cujo pano de fundo tão rico em significado servia a noite de inverno, respirando entre as cortinas enfunadas da janela. Colocando os óculos, aproximou-se e contornou as moças, iluminando-as com a lâmpada que erguia na mão. Uma corrente de ar provocada pela porta aberta levantou as cortinas da janela, as senhoritas deixavam que ele as olhasse, mexendo os quadris, brilhando com o esmalte dos olhos, com o verniz dos sapatinhos rangentes, com as fivelas das ligas debaixo do vestido enfunado pelo vento; os retalhos fugiam feito ratos pelo chão até a porta entreaberta do quarto escuro, e meu pai, olhando com atenção as mulherzinhas resfolegantes, cochichava: —Genus avium… se não me engano, scansores ou pistacci… absolutamente digno de atenção.”

Schulz morre em 1942. Judeu, foi capturado pelos alemães quando invadiram a Polônia. Inicialmente, foi protegido pelo oficial nazista Felix Landau e empregado pelo Judenrat no trabalho de catalogar livros raros. Às vésperas de uma fuga, foi desmascarado e morto pelo oficial nazista Karl Gunther (rival de Landau) com um tiro na cabeça. Não se sabe o paradeiro de seus outros textos e correspondência, incluindo-se aí O messias, livro de que só o título sobreviveu.

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O mural que Felix Landau encomendou a Bruno Schulz sobreviveu ao holocausto.

É um interessante e impossível exercício em fantasia imaginar por que caminhos continuaria sua literatura se tivesse escapado ao holocausto. Mas Bruno Schulz está morto. Seus contos, no entanto, vivem. Pulsam, ainda, agora que os anos tão rápido vão aumentando a distância que nos separam no tempo de sua escrita e vão fazendo um século novo, que pouco nasceu e já começa a mostrar dentes. Talvez os contos de Schulz ainda encontrem serventia em nós; em sua proposta de, pela poesia, ver unidade nas substâncias variadas de tudo aquilo que é humano. Deixemos que nos usem para que ainda existam.

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Este post pertence à série Livros que você precisa conhecer, que busca apresentar ao público obras de grandes escritores, não tão conhecidas assim, embora estes livros tenham despertado uma profunda conexão emocional nas pessoas que as leram. E o Homo Literatus traz a você estes testemunhos.