A religião do futebol em “Empate”, de Vinicius Neves Mariano

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Primeiro romance de Vinicius Neves Mariano, Empate nos insere no drama de um personagem que vê a derrota do Brasil na final da Copa de 1950 como uma forma de vingança

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Após lermos o ensaio Federer como experiência religiosa, de David Foster Wallace, em que o americano narra suas observações do comportamento do público em um jogo do tenista suíço, passamos a ver o esporte com outro olhar. Mas antes de aprofundar este ponto, falemos sobre o romance Empate, de Vinícius Neves Mariano.

Publicado pela editora Simonsen através de um financiamento coletivo no Kickante (leia aqui a entrevista que fizemos com o autor), o livro apresenta uma apropriação de fatos históricos para construção de um drama. Em 2014, não foi a primeira vez que o Brasil perdeu uma Copa do Mundo em casa. Já em 1950, experimentamos a derrota em pleno Maracanã. O que o autor Vinicius Neves Mariano faz é se utilizar deste evento como uma espécie de vingança para o protagonista de seu livro. Aureliano lutou na Segunda Guerra Mundial e como muitos dos soldados brasileiros, não teve qualquer pensão ou remuneração quando voltou ao país. Inválido, teve uma das pernas incapacitadas. Nunca tornou a ser o mesmo homem que, desde menino, ia aos domingos assistir aos jogos do Bangu com seu pai. Com este pano de fundo, esta formação, é que acreditamos que alguém poderia ver a derrota de sua seleção em uma copa como uma forma de vingança. É esta construção que dá verossimilhança à trama.

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Empate (Editora Simonsen, 2015)

Em um domingo de Maracanã lotado, Aureliano se move com dificuldade entre a torcida, querendo ficar cada vez mais perto do campo. Sua atitude lhe custa uma queda no fosso do estádio, minutos antes de a partida começar, passando ali todo o jogo. Mas não é só ele que cai, também outro personagem curioso, Monarco. Torcedor do Vasco da Gama, é um viciado em futebol que, em dado momento, chega a narrar a partida lá em cima a partir do que imagina estar acontecendo.

É nesta relação ocasional que se estabelece o romance, dois personagens no meio do nada (lembra até mesmo Esperando Godot, do Beckett), talvez em uma metáfora para o que representa o futebol: uma paixão que nos leva para o fosso, ou uma possibilidade de redenção?

 

Futebol como experiência religiosa

Uma das possibilidades interpretativas do livro é o que vemos no ensaio de David Foster Wallace. Apenas retomando, em Federer como experiência religiosa, ele relaciona a reação do público de tênis – ferverosa, familiar, de devoção –  como muito semelhante à atitude das pessoas com a religião.

Empate traz uma situação semelhante. O romance mostra um Brasil que anseia pelo título mundial nunca conquistado. É muito diferente do que aconteceu ano passado, quando muita gente seguiu indiferente ao fracasso de nossa seleção na copa. Em dado momento do livro o narrador até apresenta alguns pensamentos de Monarco. Caso o Brasil fosse campeão, ele finalmente se sentiria alguém.

Dois trechos que representam este sentimento:

“A cena era sublime. A imaginação levava Monarco para o melhor lugar da arquibancada, de onde podia assistir às glórias que tanto almejava. Seu coração não estava mais no fosso, sua alma estava uniformizada e corria pelo gramado da final. Enquanto narrava lances incríveis e slogans históricos, Monarco libertava seu espírito não só daquelas paredes cinzas de três metros de altura, mas também do sacrificado dia a dia, das responsabilidades familiares e do fardo de ser adulto. Sua garganta era um papel em branco onde sua mente infantil desenhava liberdades com a voz.” (pg. 52).

“Para desespero da Sra. Menezes, não demorou muito até que o pai levasse o menino a seu primeiro jogo. Seu Menezes batizou Aureliano com o suor dos jogadores do Bangu, acompanhou seu crescimento pelos degraus da arquibancada, ensinou-o a andar seguindo as investidas de seu time ao ataque. Aureliano foi criado assim sob a crença de seu pai – e o nome dessa crença era futebol” (pg. 57).

Apenas para finalizar, temos que deixar claro que o livro não prega a ideia de o futebol ser uma religião. É apenas uma interpretação que nós, leitores, podemos fazer. Na realidade, Vinicius Neves Mariano conseguiu atingir em seu primeiro romance um resultado surpreendente, aliando uma história relevante a uma linguagem bem executada. Mesmo quem não goste de futebol se degustará com a leitura de Empate.