Resenha: As Intermitências da Morte – José Saramago

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1920

No dia seguinte ninguém morreu”; diz Saramago, expressando toda a sua capacidade de síntese, já na primeira frase de Intermitências da Morte.

Confesso que quando comecei a ler este livro não esperava tanto. Quem acha que José Saramago é ranzinza ou alguma coisa assim, não pode deixar de ler esta obra, pois a ironia deste mestre em narrativas aparece em grande estilo.

“É assim a vida, vai dando com uma mão até que chega o dia em que tira tudo com a outra”. (pg. 40).

O livro em si, trata-se da história de um pequeno país que de um dia para o outro ninguém mais morre. O que, a princípio, deveria ser ótimo; é apresentado com todas as complicações e contradições que só a humanidade poderia apresentar.

A destacar-se, o incrível narrador que está sempre presente na obra de Saramago; o qual, por exemplo, consegue aplicar as reflexões do próprio autor ao narrador; tornando-se, assim, difícil sabermos se um não é o outro. Por exemplo, neste trecho fica evidente o que afirmei acima:

“Logo a caligrafia, disse ele, é estranhamente irregular, parece que se reuniram ali todos os modos conhecidos, possíveis e aberrantes de traçar as letras do alfabeto latino, como se cada uma delas tivesse sido escrita por uma pessoa diferente, mas isso ainda se perdoaria, ainda poderia ser tomado como defeito menor à vista da sintaxe caótica, da ausência de pontos finais, do não uso de parêntesis absolutamente necessários, da eliminação obsessiva dos parágrafos, da virgulação aos saltinhos e, pecado sem perdão, da intencional e quase diabólica abolição da letra maiúscula, que, imagine-se, chega a ser omitida na própria assinatura da carta e substituída pela minúscula correspondente”. (pg. 111).

Para finalizar, posso dizer que indico o livro para qualquer um. É simplesmente fantástico. Deixo uma das citações que mais gostei do livro:

“As religiões, todas elas, por mais voltas que lhes demos, não têm outra justificativa para existir que não seja a morte, precisam dela como do pão para a boca”. (pg. 36)