Resenha: Breves Entrevistas com Homens Hediondos – David Foster Wallace

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Dias atrás, gravando um podcast aí pela podosfera da vida; durante o papo, cheguei a conclusão que quanto mais eu gosto do livro, mais difícil é falar sobre ele, defini-lo em palavras. Isto justifica, de cara, por que estou retardando o início da resenha. É uma espécie de “procrastinação-desgustativa-literária”.

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Breves Entrevistas com Homens Hediondos é um livro de contos extremamente diferentes um do outro, revelando uma parcela incrível de criatividade de David Foster Wallace, considerado por muitos: um dos maiores prosadores americanos do século XXI.

Você conclui que precisa pensar a respeito disso. Afinal, tudo bem fazer uma coisa apavorante sem pensar, mas não quando o apavorante é o não pensar em si. Não quando o não pensar se revela errado”. (do conto Para sempre em cima).

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breves_entrevistas_com_homens_hediondosVou destacar alguns contos de forma aleatória, até que me atenha por fim a um especificamente.

Uma história radicalmente condensada da vida pós-industrial abre o livro, já com a linguagem que emprega humor e reflexão, simultâneos, na hora de captar o leitor. São apenas oito linhas neste conto, mas já se sabe que se está em frente a algo grande. A pessoa deprimida fala de alguém (i.e. a pessoa deprimida –Wallace usa-se deste artifício/referência o conto todo) que diante de sua condição monta uma rede apoio, de amigos, orientada pela terapeuta. Aos poucos, o autor vai desenvolvendo espiralmente sua história até um desfecho improvável, o que nem sempre acontece nos contos de Wallace, meramente desnecessário. Em Sem querer dizer nada um filho neurótico, ou não (interpretar faz parte), tem uma lembrança no dia que está se mudando da casa dos pais; lembra que quando pequeno, certo dia, seu pai simplesmente veio e ficou balançando o pênis quase na sua cara. A partir disso, algumas situações de embaraço passam a acontecer, num duelo de verdades e mentiras. O conto que dá título ao livro, Breves entrevistas com homens hediondos, é na verdade uma série de depoimentos um tanto inusitados. O autor se utiliza de um recurso que surpreende, construir um diálogo com apenas as falas de um personagem, sendo perfeitamente entendido pelo leitor. As conversas são as mais incríveis que se pode imaginar, indo de um sujeito que convida as pessoas para serem amarradas, pelo simples prazer do jogo, até uma mulher que narra a sua experiência de estupro como forma de iluminação para o estuprador. As histórias são muitas, chama a atenção.

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Agora vamos ao conto que queria destacar; Octeto, intriga desde o título. Nele, Wallace se propôs a escrever oito peças beletristas curtas que fariam partes de um Pop Quiz. A ideia era construir histórias conflituosas, sem recair a um humor fácil, bobo, mas que jogassem para o leitor que tipo de decisão tomar, através de seus finais abertos. Então o leitor passa a ler as histórias, mas ainda sem saber do objetivo, porém quando chega à quinta história se depara com uma espécie de desabafo do autor, escrevendo esta quinta parte sobre ele mesmo; e contando todo o processo de ter escrito mais peças, no entanto elas não se encaixarem com o objetivo do Octeto; e aí Wallace vai levantando uma série de questionamentos sobre publicar ou não publicar; e se o fizesse, manteria o nome mesmo sendo agora somente cinco peças. Dentro desta quinta e última parte, separei o trecho abaixo de um dos questionamentos do autor como escritor:

“Existem meios certos e frutíferos de tentar uma relação de ‘empatia’ com o leitor, mas ter de tentar se imaginar como o leitor não é uma delas; na verdade, isso fica perigosamente perto da pavorosa armadilha de tentar prever se o leitor “gostará” de alguma coisa em que você está trabalhando e tanto você como os poucos outros escritores de ficção de quem você é amigo sabem que não há meio mais rápido de se amarrar com nós e matar qualquer urgência humana na coisa que você está trabalhando do que tentar calcular previamente se esta coisa será ‘calculada’”. (Trecho do conto Octeto).

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Para finalizar, afirmo que este livro me marcou bastante. Bagunçou completamente minha visão sobre a ficção – o quê, diga-se de passagem, estou procurando em cada livro que leio. Além disso, só aumentou minha ansiedade pelo lançamento, pelaCompanhia das Letras, de Infinite Jeste (ainda em tradução), na segunda metade de 2013. Ler o livro de contos deste autor já foi gratificante, mas fez crescer ainda mais a minha expectativa pela leitura de seu grande romance.