Resenha: Como contar um conto – Gabriel García Márquez

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No fim, só uma pessoa escreve a história: ou a mesma pessoa que a pensou, ou outra pessoa da oficina. Porque é claro que as linhas gerais da história podem ser elaboradas coletivamente, mas na hora de escrever o roteiro, a tarefa tem de ser de um só. (pg. 13).

Logo na primeira página de Como contar um conto, de Gabriel García Márquez, o trecho acima salta aos olhos e aquece o coração de quem deseja escrever. Aliás, diga-se de passagem, não somente de quem deseja escrever, mas de todos aqueles que não se contentam com o ato de ler, porém querem algo mais, realmente entenderem como se desenvolveu determinada narrativa, ou conhecerem o autor que existe por trás do texto, mesmo sem ler a sua biografia.

Apesar do título do livro, o que ocorre ao se virar as páginas é a transcrição de uma oficina de roteiro ministrado por García Márquez na Escola Internacional de Cinema e Televisão de Santo Antonio de Los Baños, em Cuba. Durante a leitura, vê-se são discussões arrojadas pela imponência de Gabo em contraste com a personalidade de cada aluno participante da oficina. Os alunos trazem suas histórias e as apresentam ao professor, que as entrega aos outros alunos e as discutem. Apesar do título falar de “conto”, na verdade o objetivo da oficina é o desenvolvimento de roteiros de trinta minutos para a televisão. Entretanto, o pensamento do escritor vencedor do Prêmio Nobel de Literatura serve de base para qualquer um que deseja entender estruturas narrativas.

Entremeios às discussões, García Márquez apresenta suas opiniões, as quais, sem dúvidas, contribuem para crescimento pessoal de quem lê o livro; como os trechos abaixo:

A gente conhece um bom escritor não tanto pelo o que ele publica, mas pelo o que ele joga no lixo. Os outros não ficam sabendo, mas o escritor sim: ele sabe o que joga fora, o que vai deixando de lado e o que vai aproveitando. (pg. 23)

GARCÍA MÁRQUEZ – Isso ficou claro. Mas o problema é como concretizar isso visualmente. Você quer tentar?
CECÍLIA – Até o infinito?
GARCÍA MÁRQUEZ – Eu acho que uma história não existe enquanto não puder ser contada em uma página. (pg. 42).

Embora eu ainda não tenha lido nenhum livro do autor, diante do meu preconceito literário com autores latinos, este livro passou a figurar na minha lista indicados; para diversos públicos, como citei no início da resenha.