Resenha: Contos de Mentira – Luisa Geisler

Tá, então eu vou falar o que achei do livro da Luísa. Depois de ter gravado um LiteratusCast com ela, já estava me sentindo culpado por ainda não ter lido o Contos de Mentira.

Para quem ainda não sabe, o livro ganhou o Prêmio SESC de Literatura em 2010 e este ano foi finalista do Prêmio Jabuti. Certo, logo terá alguém – sempre tem – que estará a falar que prêmio não é reconhecimento e tal… bom, eu poderia escrever toda uma argumentação defendendo a ideia que prêmios servem de afirmação para o escritor, porém é mais fácil pedir para estes alguéns – ou seria ninguéns – ler o livro da Luísa.

O livro é composto de dezessete contos que falam de mentiras, mas não daquelas superficiais; e sim, das implícitas nas relações humanas e na forma como nós mentimos para nós o tempo todo.

A escrita da Luisa Geisler reflete diretamente sua personalidade como neste trecho do conto Todos: “Atravesso as calçadas pra ter avenidas inteiras só pra mim. Às vezes, evitar as pessoas me faz bem. Como se, quando eu estivesse numa multidão, a multidão sugasse minha energia”. Quase posso vê-la nos contos, andando pelas ruas de Porto Alegre, entre os prédios históricos ou as universidades.



Antes de falar de meus contos preferidos, o que faço frequentemente quando resenho livro de contos, considero importante destacar a ausência de “bairrismo” na escrita da Luisa; algo que me incomodou nalguns contos do Borges e que comentei nas resenhas que fiz dos livros de contos dele (O Aleph e Ficções). Contos de Mentira é identificável como um livro escrito por uma gaúcha – pelo uso dos “tus”, por exemplo -, entretanto, não descamba para um regionalismo que impede quem é de fora de entender as referências.

Vou destacar os meus três contos preferidos:

O Vinco – conta a história do tímido Rodrigo Haruo Kawasaki, um estudante da Escola Politécnica da USP, que tem como único hobbie fazer origamis com frases dentro e presentear para as pessoas, já que elas nunca os abrem. Neste enredo, ele presenteia Isabela com um origami e uma certa frase, aí as coisas começam a acontecer, ou não.

Todos – fala de um jovem estudante de alemão, que no dia da eliminação do Brasil para a Holanda na copa de 2010, lida com o fato de ser diferente; desapaixonado pela paixão nacional.

Coríntios I – coloca o leitor na mente de uma mulher daquelas que casa e depois começa a ver o quanto a sua vida é enfadonhamente normal. Seu marido Leandro começa a lhe cobrar um filho e aí vem uma das partes do livro muito bem humorado: “A primeira coisa que fiz foi rezar, em segredo. Só rezei, faia muito tempo que eu nem encostava numa bíblia. Aquela sensação de “eu não devia ter tomado a pílula, Jesus me odeia agora, Jesus vai me punir e me dar trigêmeos”, mas tu reza, não na igreja, claro, mas em casa, tu torce”.

Além dos trechos que já destaquei, tem duas outras citações que me chamaram a atenção:

“As bulímicas não vomitam porque emagrece. Vomitam porque tira a culpa de comer. Aquela punição que no fundo você quer porque sabe que passou dos limites”. (Do conto Casaco de lã, raio de sol, cheiro a jasmim e porre de vodca).

“Ao entrar na USP, os alunos da Escola Politécnica devem escolher apenas duas possibilidades entre três: sono suficiente, boas notas ou vida social”. (Do conto Todos).

Enfim, que ninguém venha me dizer que não há bons escritores jovens brasileiros. Ler Contos de Mentira é deslizar por páginas simples e alentadoras. Gostei muito de lê-lo.



Vilto Reis
Autor do livro "Um gato chamado Borges", professor de escrita criativa e apresentador do Podcast de Literatura 30:MIN.
Vilto Reis
Autor do livro "Um gato chamado Borges", professor de escrita criativa e apresentador do Podcast de Literatura 30:MIN.
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