Resenha: Fumaça e Espelhos – Neil Gaiman

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Fumaça e Espelhos é, quase, tão bom quanto Coisas Frágeis. A dinâmica é a mesma; um livro de 31 textos – composto de contos e poemas – escritos aleatoriamente, como o próprio Gaiman afirma no prefácio, para várias coletâneas diferentes.

Para mim, ler Neil Gaiman é sempre algo estranhamente maravilhoso. Ele é o único escritor que consegue me deixar ansioso para ler o prefácio; e no caso de Fumaça e Espelhos, o escritor se supera ao encaixar um conto dentro desta parte inicial do livro, que na maioria dos outros livros é chata.

Sobre o estilo do escritor, chama-me a atenção o narrador que quase sempre apela para o lado um pouco mais cômico; sem abandonar o quesito sombrio. O livro é cheio de passagens onde algo incrivelmente grande, alinha-se a uma situação absurdamente comum.

Vou falar sobre os meus três contos preferidos:

A Ponte do Troll é uma história circular, em que Jack, o personagem principal, encontra-se algumas vezes com um troll, embaixo de uma ponte. O conto vale a pena pelo final.

Shoggoth’s Old Peculiar fala de Benjamim Lassiter, que resolve fazer uma viagem de mochileiro pela costa da Inglaterra, baseando-se no inexato relato deste tipo de viagem contido no livro Uma viagem a pé pela costa britânica. Ben chega à aldeia de Innsmouth, onde se encontra no pub O livro dos nomes mortos com os personagens Wilf e Seth, dois estranhos seguidores de H.P. Lovecraft. O conto consegue falar do mestre do horror, Lovecraft, de forma cômica.

Apenas o Fim do Mundo Novamente aborda um tema assombroso, como o fim do mundo, na perspectiva de um lobisomem. O mais bizarro do conto, não é o lobisomem ou o fato da história ocorrer na cidade lovecraftiana de Innsmouth, mas sim outros elementos que se conectam com o mito do Cthulhu, por exemplo.
Neste mesmo conto, um trecho me chamou a atenção:

“ – Olhamos para o nosso mundo com perplexidade, com uma sensação de apreensão e desgosto. Pensamos em nós mesmos como eruditos em liturgias misteriosas, homens únicos que estão além do nosso legado. A verdade é muito mais simples: há coisas na escuridão, embaixo de nós, que nos querem mal”. (pg. 163)

Enfim, é mais um livro do Neil Gaiman que eu mais que recomendo. Cada vez que eu paro para ler as histórias que ele escreve, minha mente borbulha de novas ideias para escrever. É quase como se o Gaiman fosse o antídoto para qualquer bloqueio criativo que eu possa ter.

Deixo um pedaço do final da introdução, a título de petisco:

“Cada um destes contos é uma reflexão sobre algo, que não é mais sólido que um sopro de fumaça. São mensagens do país dos espelhos e imagens em nuvens que mudam de forma: fumaça e espelhos, é tudo o que eles são. Mas eu gostei de escrevê-los e eles, por sua vez – gosto de imaginar -, apreciam ser lidos”. (pg. 37).