Resenha: Lolita – Vladimir Nabokov

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1910

“Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu da boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta”.

Muitos distinguem Nabokov como pertencente ao Olimpo da literatura russa, composto por, além dele, Dostoiévski, Tolstói e Tchekhóv. A obra mais conhecida do autor é Lolita, livro já adaptado três vezes para o cinema.

Lolita conta a história do literato Humbert Humbert desde seus primeiros anos de vida, quando tem seus primeiros contatos com uma “ninfeta”, cujo narrador define que são aquelas: “Entre os limites etários dos nove e dos catorze anos ocorrem donzelas que, a certos viajantes enfeitiçados, duas ou muitas vezes mais velhos do que elas, revelam a sua vera natureza, que não é humana, e sim nínfica (isto é, demoníaca)”. Além disso, o narrador responde a questão sobre todas as meninas nesta idade serem ou não ninfetas com um “… Claro que não”. Como se lutando contra a sua própria natureza, Humbert Humbert passa o livro entre censuras próprias e dilemas morais, tentando convencer o leitor que sua preferência por ninfetas difere totalmente do que faria um estuprador, pois, segundo ele, o homem fisgado por uma dessas meninas, sabe se conter, alimentando o seu prazer com meras olhadas e toque involuntários de braços. Mesmo buscando se inocentar perante o leitor, o personagem-narrador demonstra sua luta contra o que é ao procurar uma mulher adulta para casar; porém acabando por não dar certo. É então que ele vai embora para os EUA. Procura uma casa; e, ao achar uma, enquanto lhe é mostrada pela dona do lugar, Humbert Humbert se depara com Lolita, com doze anos de idade, fazendo com que acabe a sua relutância em morar ali e se inicie a sua paixão, que ocupará boa parte do livro.

“Oh, Lolita, és a minha pequena, como Vee o foi de Poe e Bea de Dante, e que rapariguinha não gostaria de fazer rodopiar uma saia farta, mostrando as calcinhas?”.

Capa Vladimir Nabokov Lolita.inddO flerte literário da história demonstra a erudição do narrador-personagem ao fazer referências a Edgar Allan Poe e Dante Alighieri, os quais a história nos conta terem se casado com mulheres muito novas; embora no caso deles fosse um contexto histórico totalmente diferente.

A prosa poética e a experimentação de linguagem de Nabokov são sentidas a cada parágrafo do texto, através de metáforas que produzem no leitor um impacto de sensibilidade. No trecho abaixo, o autor russo troca os verbos das frases, provocando graça e dizendo, por fim, ao leitor que sabe o que está fazendo.

“O meu vizinho do lado ocidental, que podia ser comerciante ou professor, ou ambas as coisas, falava-me uma vez por outra, quando barbeava algumas flores tardias, no jardim, ou regava o carro, ou então, posteriormente, quando descongelava o caminho da garagem (não me importo se estes verbos estiverem todos errados)”.

Minha relutância em relação a este livro está em seu ritmo, Nabokov parece se recusar a chegar ao fim da história, como se escrever muito representasse algo mais para ele. Nalguns trechos, como nas longas viagens, o livro se torna cansativo; impondo-se uma difícil decisão a afirmativa de a prosa poética do autor ser ou não compensatória em relação ritmo da obra.

A partir do meu ponto de vista, não nego ser este um grande livro, nem mesmo me arrependo de tê-lo lido, mas confesso que esperava um pouco mais da obra. Vale a cada um ter a sua própria perspectiva.

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