Resenha: Markheim – Robert Louis Stevenson

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O conto de Stevenson é o drama de Markheim, homem que mata o dono de uma loja de antiguidades, com quem costumava negociar, para roubar-lhe o dinheiro: Ter executado o plano e ficar sem o lucro seria uma falha lamentável. O dinheiro – era isso que preocupava Markheim agora.” (p.96). Após cometer o crime e enquanto está à procura do dinheiro, recebe a visita de um outro, que o confronta e que lhe aponta todos os erros que tem cometido, demonstrando que sua vida só tem uma direção: “Para baixo, para baixo é seu caminho. E nada, a não ser a morte será capaz de detê-lo.” (p.116).  Markheim defende-se argumentando que o ambiente em que vivia o influenciou para o Mal e que, mesmo tendo se rendido e sido indulgente, ainda há nele os resquícios da fé e o “ódio ao Mal” (p.120). Desse ódio, Markheim extrai a energia e a coragem para entregar-se à polícia.

O diálogo entre Markheim e este “outro”  assemelha-se a um monólogo interior, a um fluxo de consciência, como se as duas vozes, personificadas, – a do Bem e a do Mal – fizessem suas acusações e contrapontos num tribunal,  que é a mente do criminoso. “Bem e Mal correm com força dentro de mim…” (p.115)

Para cada acusação de erro e queda que o outro aponta, o argumento de Markheim  fundamenta-se numa circunstância exterior a si mesmo, a de que o ser humano pode ser levado a praticar crimes, mas a sua alma não se compromete com o Mal, pois ainda possui a fé em seu interior.

O homem vive para me servir, para espalhar olhares sombrios sobre as cores da religião, como você faz, sempre se rendendo ao clamor dos desejos” (p.111)

E você quer me julgar por meus atos! Mas será que pode me enxergar por dentro? Consegue entender que a maldade para mim é algo detestável? Pode vislumbrar em meu âmago a escrita clara da consciência, jamais deturpada por sofismas, embora tantas vezes desprezada?” (p. 109)

Diz ainda que o crime não anula as “fontes do Bem” e que a pobreza o arrastou e açoitou, mas que não se renderá ao Mal, seu Eu está determinado a ter paz: “Começo a ver-me totalmente mudado. Estas mãos, agentes do bem; este coração, da paz.” (p.114)

Este conto remete-me à condição humana em suas lutas entre querer fazer o que é certo – o Bem – e a fragilidade que lhe é inerente e que induz ao erro – o Mal. O diálogo entre Markheim e este outro, que se apresenta como o um agente do Mal (“O Mal, para o qual vivo…”) é uma figura do ser humano lutando com a sua consciência – essa voz interior que todos ouvem, quer queiram, quer não – e lutando, também, com os desejos que fatalmente conduzem à ruína moral. Bem se poderia chamar de “tormento” a esta onda que percorre o corpo e a mente de Markheim, arrastando-o até a consumação do crime.

Não posso ignorar a lembrança que logo me assalta ao falar em tormento: é um “tormento” semelhante que arrasta também Raskólhnikov (em Crime e Castigo, de Dostoiévski), ainda que por motivos diferentes. Pensando melhor, não tão diferentes, pois os dois personagens estão em busca de dinheiro e oprimidos diante da situação de pobreza e opressão em que se encontram. Markheim vai à loja de antiguidades e mata o negociante e  Raskólhnikov, à casa da velha Alíona Ivãnovna para se apoderar dos objetos e do dinheiro.

Outro elemento comum aos dois “atormentados” é o desprezo total pelas vítimas, que chega ao ponto de concluírem que as mesmas não são dignas de viver. Raskólhnikov considera que a velha é má e estúpida e não merece viver (p.80) e Markheim considerava o negociante mesquinho e ao vê-lo morto pensou que era “estranhamente mais mesquinho do que fora em vida” (p.90).

Há, porém, um momento em que ambos sentem-se inseguros diante do horror do crime: Markheim incomoda-se com a ideia de que o morto pudesse voltar (p.94) e poderia “denunciar-se, não por medo, mas unicamente por horror e aversão ao que fizera.” (p.96).   Raskólhnikov apavora-se com a ideia do crime que está planejando: “  Oh, meu Deus , como isso é repugnante! Ah, sim, sim, eu…não; isto é um absurdo, uma estupidez! – acrescentou resolutamente. – …De que porcaria é capaz a minha alma!…é sujo, é brutal, mau!…” (p.16)

Outro elemento não menos importante é a vivência religiosa, que os remete a um tempo em que acreditavam em Deus e no Bem. É importante porque o bem está (nestes casos) relacionado à religião e à fé em Deus:

Raskólhnikov  ”Ainda continuas a pedir a Deus…como dantes?…”(p.49)

Markheim:  “…eu não would i know if i had herpes o vi durante os cultos, e não era a sua voz, cantando hinos religiosos, a mais alta de todas?” (p.118)

O passeio pelo texto de Dostoiévski foi um atrevimento, mas não me foi possível evitar a lembrança. Posso até afirmar que isso acontece com a maioria dos leitores, isto é, um texto que “conversa com outro” e redireciona as nossas primeiras impressões. Voltando, então, a Markheim:  é possível dizer que é um dos grandes textos sobre a condição humana e pode até ser uma fonte de alento nos momentos em que consideramos que o mundo está irremediavelmente perdido –  o ser humano é capaz de restaurar-se e não sucumbir, “não vender a sua alma ao diabo”. É uma questão de escolha.

Referências

O OUTRO; três contos de sombra. Jack London, Hans Christian Andersen, Robert Louis Stevenson. Tradução de Heloisa Seixas e Ana Lúcia Salazar Jensen. – Rio de Janeiro: Dantes Editora, 2002. 130 p.

DOSTOIÉVSKI, Fiodor Mikhailovitch, 1821 – 1881. Crime e castigo. Tradução de Natália Nunes. – São Paulo: Abril Cultural, 1982.

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