Resenha: Metanfetaedro – Alliah

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“Quando se nasce com fome, a fome nunca morre”.

Fico olhando para uma capa – verde, contorcionismo para ler o título, desenho de uma, possivelmente, mulher – e lembro da sensação deliciosa que tive ao pegar o Metanfetaedro (nota 1: adicionar palavra ao dicionário do Word) na mão. Sério, não é possível que alguém que tenha ouvido o PodFiction#Extra – “Quem atirou na minha cabeça?”, ou acompanhe o blog alliahverso, como eu, não tenha curiosidade de ler um livro inteiro da Alliah (nota 2: evitar conversa de ela ser jovem, brasileira et cétera, como se esta fosse uma justificativa para fracassar e ela uma raridade por não ter fracassado).

Aí eu pego o tal livro na mão e penso: tá legal, vamos ver o que é esta p… de New Weird – sim, esta foi a minha primeira experiência com o gênero, que, diga-se de antepassagem, é alguma coisa entre uma mistura de Kafka e Salvador Dalí, mas com uma pitada de David Foster Wallace, se ele escrevesse fantasia, ou terror, ou ficção científica (nota 3: fugir de comparações aleatórias desnecessárias) –; e, adivinhem, surpreendi-me.

metanfetaedroMetanfetaedro, publicado pela Tarja Editorial, conta com oito contos, verdadeiramente, alucinógenos. As histórias se passam em realidades alternativas, ou, talvez, melhor, outros mundos (nota 4: escrever resumidamente sobre cada conto, supondo que isto seja possível). Moleque conta a história de Mogul e Iara, um menino de rua e uma sereia, num futuro Rio de Janeiro, tenebroso e cruel, como boa parte da literatura New Weird; Uma cidade sonhando seus metais traz um relato com um tom onírico, onde Nataraja, um meio-humano, precisa lutar contra uma cidade com consciência de si mesma; Morgana Memphis contra a Irmandade Gravibramânica é o primeiro conto do livro em que aparece a personagem mais marcante da obra, a qual o título do conto se refere. Nesta história, Morgana precisa enfrentar uma ameaça contra os transalienígenas, o que além de muita ação, ainda propicia uma reflexão sobre o preconceito; Contemplafantasiação pode ser considerada uma tragédia shakespeariana, mas na linguagem alucinógena do New Weird, é um amor impossível entre uma criatura espeleológica e outra gramínea; Túpac Amaru III tem uma estrutura de lenda tribal, contando como os estrangeiros invadiram a cidade de Mama Cocha, civilização berço dos andimanos, fundindo na narração com o processo de apodrecimento de uma baleia no fundo do mar, ao associar partes da história com o processo de decomposição do animal; O jardim de nenúfares suspensos é uma narrativa sobre vingança, em que a narradora busca o assassino de seu amigo Eff, um anarcopunk; Morgana Menphis dividindo por zero volta a falar de Morgana, mas desta vez, em meio a uma menstruação problemática, já que seu corpo é biologicamente modificado, ela precisa investigar uma estranha mensagem das Crianças Selvagens; Metanfetaedro é o conto mais psicodélico do livro, em que o protagonista toma a droga que dá título ao livro, um licor de frutas azuis, e depois enfrenta suas próprias ideias dentro de um rombicuboctaedro. Vale ressaltar que este também é o conto em que está a frase da contracapa do livro:

“Que lugar é esse?”
“É o brancaverso. Uma tela vazia esperando alguma ideia”.

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Se eu pudesse ressaltar só um trecho do livro (nota 5: não seja idiota, a resenha é sua, você pode), eu destacaria o que está abaixo, de O jardim de nenúfares suspensos:

“Você precisa fazer o que você precisa fazer. O que dizem pra você fazer. O que você diz a você mesmo que precisa fazer. E você passa tanto tempo dizendo a altos brados o que precisa ser feito que mal consegue ouvir o murmúrio de inquietação nos bastidores. Mas se eu não fizer, quem vai fazer? Certo. Melhor continuar acreditando nisso”.

Simples, poético e real. Transmite bem a experiência de leitura das histórias da Alliah.

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(nota 6: evitar palavras como: enfim, finalmente, concluindo, pois não é esta a sensação) Posso dizer que o livro me surpreendeu, deixando um sentimento de querer mais, de realmente estar viciado nestas histórias (nota 7: óbvio, não era esta a metáfora do título do livro?). Entendi o que as pessoas querem dizer com declarações como a de que o New Weird é ficção fantástica para adultos, afinal há estilo, há técnica narrativa, mas considero relevante destacar que há uma mistura ótima de reflexão e entretenimento. Vale a pena ler.

(nota 8: não deixar que sua autocrítica adicione notas aleatórias em meio ao texto, as pessoas podem pensar que você tomou Metanfetaedro demais, mas é que frutas azuis são tão boas…).

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