Resenha: O Livro Branco – Henrique Rodrigues (Org.)

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19 contos inspirados em músicas dos Beatles

Lançado pela Editora Record, O Livro Branco, organizado por Henrique Rodrigues, foi um livro que me chamou a atenção em vários pontos.

As últimas cinco décadas não teriam sido as mesmas sem a aparição da banda dos garotos de Liverpool. A psicodelia, irreverência e revolução de suas músicas vinham embaladas num “…Iê- Iê- Iê- Iê…” alucinante. Como a literatura nada mais é do que um espelho – distorcido ou não – do que acontece no mundo, não poderia deixar de se curvar à beatlemania. A ideia de organizar uma antologia reunindo grandes nomes da literatura brasileira é digna de nota.

Outro detalhe que não passa despercebido é o projeto gráfico do livro. A capa criada por Tita Nigrí é forte por sua simplicidade, encaixando-se perfeitamente no bordão do design “menos é mais”.

Voltando aos contos, vou falar de alguns dos que mais gostei:

Ticket to write, de Lúcia Bettencourt  – é o relato de um aspirante a escritor, falando sobre o seu livro, a um possível editor; obviamente, com a intenção de convencê-lo à publicação. Neste conto, um dos pontos que chama a atenção é a forma que o narrador relata sobre o assunto de seu livro; basicamente, a história de amor entre ele e a sua metamórfica mulher. O clima nostálgico embala o leitor através da fluidez do conto.

Nothing is real, de André Sant’Anna – talvez seja um dos contos mais cômicos do livro; já que, supostamente, apresenta os quatro “beatleman” num viagem alucinógena no banheiro do palácio da rainha da Inglaterra. Sant’Anna sugere que o conto ocorreria ainda no início da trajetória do grupo; entretanto, o mais engraçado é que em alguns momentos os personagens tem lucidez do que vai acontecer no futuro; porém tudo é encarado de forma tragicômica.

Blackbird, de Stella Florence – é uma narrativa forte e envolvente, pois registra a história de uma mulher que arrancou os olhos depois que encontrou a filha estuprada e morta. Penso que seja também para isso que a literatura serve, questionar irracionalidades que ocorrem em nossa sociedade.

1986, de André de Leones – aborda a questão da dificuldade de se entender os pontos de vista dos integrantes de uma família. Tudo isso, através da ótica de um menino que fica sozinho com a mãe, a partir de uma viagem que seu pai e seu irmão fazem a trabalho. Um diálogo, particularmente, chamou a atenção:

“Meu pai um dia me explicou o que é bunker. Ele me mostrou num livro.
Seu pai?
Foi. É um lugar que você constrói debaixo da terra para se esconder.
Você não precisa de um lugar debaixo da terra para se proteger.
Acho que todo mundo precisa”. (pg. 112).

Carta de são Paulo ao apóstolo João, de Felipe Pena – é um conceito um tanto inusitado, pois propõe o que seria uma carta do apóstolo Paulo (Paul McCartney) para o apóstolo João (Jonh Lennon). O momento em questão seria após a separação dos Beatles, porém o mais impressionante é a forma como o autor usa de uma linguagem que se assemelha às epístolas paulinas (da Bíblia) para tratar do acontecimento.

Um detalhe curioso que deve ser levado em conta quando se lê uma antologia é que provavelmente não se gostará de todos os contos. Simples assim. São vários autores com formas diferentes de contar histórias, mas é necessário se concentrar naquelas que se gosta; sem preconceitos, claro.

Enfim, O Livro Branco é um presente para os fãs de Beatles, que já gostam de literatura; e um bom começo para aqueles que curtem o “na-na-na-na” , mas ainda não têm o hábito da leitura.