Resenha: Quiçá – Luisa Geisler

Capa diferente. Amarela. Quiçá. Luisa Geisler.

Primeira leitura do ano, deito no sofá, fecho os olhos, respiro, abro os olhos, leio. Mais precisamente, vicio. De uma hora para outra, lembro por que ainda passo o meu tempo lendo. A grande verdade é que quanto mais se lê, menos se fica satisfeito, mais se vê defeitos… e quando se encontra um livro que te surpreenda, parece algo inesperado. Tem-se certeza que se permanece picado pelo bichinho da literatura.

“Às vezes ser uma má influência é melhor do que ser influência nenhuma”. (pg. 53)

Quiçá, de Luisa Geisler, relata a história dos primos Arthur e Clarissa. A menina de onze anos reside em São Patrício, a maior cidade do país. Seus pais, Lorena e Augusto, são publicitários e donos de uma grande agência. A vida de Clarissa muda quando o primo Arthur, que havia tentado o suicídio, vem morar com eles durante um ano, a pedido da família, para ter uma nova chance.

Clarissa é habituada, desde pequena, a viver na reclusa solidão de seu lar. Entre as aulas da escola, de piano e de natação, pouco vê os pais, arquétipos de workaholics. O comportamento se reflete na vida menina, que busca preencher a ausência através de uma autocobrança gerada pela imagem dos pais. Arthur é a sua contraparte, com dezoito anos, fuma, bebe, sai à noite, tem tatuagens. Parece ser o extremo oposto, parece. No decorrer do um ano que vivem na mesma casa, a relação dos dois vai passando por conflitos e resoluções que envolvem o leitor na trama.



“Na verdade, Clarissa não queria entender as pessoas. Na verdade, as pessoas agiam de jeitos estranhos, para não dizer errados. Na verdade, as pessoas deviam exigir mais de si mesmas, Clarissa via tanto potencial nelas. Por que não tentavam ser o melhor possível do possível? Como se satisfaziam com o mediano, com o suficiente? O que encontravam no medíocre? Por que não lidavam com seus problemas como ela lidava?” (pg. 114)

Impress‹o

Confesso que se tem algo que me irrita um pouco é as pessoas repetirem debilmente que vivemos uma crise criativa; a arte acabou, ninguém produz mais nada, estas “chorumelas” de gente que não tira os olhos do chão. Se já não bastasse a imersiva história de Luisa Geisler e a bela edição da editora Record, o livro ainda tem um interessante formato de narrativa. A história acontece em dois planos. Cada capítulo, começa com o último dia do um ano que Arthur passou com a família de Clarissa; e, logo após, salta para algum fato que aconteceu durante o período que eles passaram juntos. Os fatos vão se ligando, estabelecendo uma relação literária pós-moderna, com fragmentos que vão se encaixando.

Existe uma sensação de vazio que permeia o livro todo. Não de tristeza, mas simplesmente de vazio. Algo que só a literatura oferece, e a autora conseguiu colocar isso de forma clara no livro.

No LiteratusCast 10, que gravei com a Luisa Geisler, ela faz questão de dizer que “não é uma escritora pronta, mas em formação”. Então posso dizer que além de ler os seus dois livros (além do Quiçá, há o Contos de Mentira), vale a pena acompanhar os livros dela.
Eu farei isso, e convido você a fazer o mesmo.

“(Não que Clarissa nunca fosse beber em vida. Haveria ocasiões. Eventualmente, em tempos futuros, em tempos distantes, como uma versão futura de “era uma vez”: será uma vez. Será uma vez… uma mulher que bebeu cerveja. Todos bebiam, um após o outro após o outro após o outro. Ela bebeu. Será que era o gosto que todos os outros sentiam? O gosto de algo que deveria sair do organismo, do fígado, do rim, das vias nasais. Não o gosto de algo que deveria entrar.
(mas isso era o futuro))” (pg. 130)

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Vilto Reis
Autor do livro "Um gato chamado Borges", professor de escrita criativa e apresentador do Podcast de Literatura 30:MIN.
Vilto Reis
Autor do livro "Um gato chamado Borges", professor de escrita criativa e apresentador do Podcast de Literatura 30:MIN.
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