Uma viagem ao centro da memória: resenha do livro de Inés Bortagaray

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Inés Bortagaray, escritora uruguaia, estreia no Brasil em grande estilo, prometendo se destacar entre os escritores contemporâneos do Uruguai.

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A escritora Inés Bortagaray retrata as relações familiares numa travessia que pode ser uma fuga

Há um desafio antecipado para o resenhista, em Um, dois e já, de ser menos prolixo que a narrativa que está a seguir. Com um formato de bolso e pouco mais de 90 páginas, o título que marca a estreia da uruguaia Inés Bortagaray no Brasil mais parece um conto longo ou, tomando emprestada a caracterização preferida dos críticos hispano-americanos, uma novela. Haverá um tremendo engano, no entanto, caso se associe falta de substância literária à magreza do livro. Sob um argumento, sim, dos mais banais, corre um fluxo caudaloso de informações que, dirigido por incidências de realismo e devaneio, compõe um retrato particular e singelo de um dos períodos mais dramáticos da política nacional da terra paterna da autora.

Estamos num carro em velocidade frequente, rumo ao litoral. Uma família – pai e mãe, nos bancos da frente; quatro filhos, atrás – viaja por um motivo que aparenta ser de férias. Quem narra essa travessia é uma das filhas, a do meio; sobra um menino. Entre disputas geradas pelo revezamento na janela, cochilos (e passagens oníricas), náuseas (e um vômito inevitável) e reflexões de toda a sorte, ela faz, entre a paciência e a espera, uma síntese da sua vida, da de todos a bordo e da do país na virada dos anos 70 para os 80, alocando o tempo transcorrido sob uma perspectiva infantil. Desse modo, não se vê apenas o poste que passa e vai embora, mas o rastro do poste que é “o poste em movimento, o poste corrido, varrido, que continua numa fileira de postes-fantasmas de pé entre poste e poste verdadeiro”. Essa visão fabulosa da paisagem ao redor (e, por conseguinte, do mundo) vai ser fundamental para se validar a abordagem implícita a que realmente se interessa o relato.

Bortagaray encontra a dosagem perfeita entre o lirismo e a inverosimilhança que compromete o narrar pueril, sem soar falso ou piegas, mantendo a história estimulante, mesmo que preencha parágrafos com fatos sobre jogos de queimado e limpeza de aquário, ou mude de assunto de uma frase a outra, numa avalanche de notícias comezinhas. A narradora é de fato uma menina, e não uma escritora adulta simulando uma voz de menina. De modo que a capacidade de desdobrar sem comedimento a imaginação mostra-se um dos tantos méritos do livro. Com facilidade e encanto, o leitor embarca nessas inúmeras viagens que há dentro da viagem que deslinda a autoestrada fugidia, levado principalmente pela prosa econômica e sensível, característica da literatura uruguaia tal qual em Onetti, Quiroga, Benedetti e Hernández. Bortagaray, entretanto, dialoga mais intensamente com autores contemporâneos.

É evidente o empenho em polir a linguagem, fazendo do texto algo clarificado e elegante. Um tipo de tessitura fina adotada por nomes em relevo na nova geração de escritores latino-americanos, como Alejandro Zambra (A vida privada das árvores), Valéria Luiselli (Rostos na multidão), Amilcar Bettega (Barreira) e Andrés Neuman (Falar sozinhos). No romance (ou novela ou conto longo), há dois episódios especiais que ilustram o verniz em questão, ambos evidenciando o invejável manejo da autora ao descrever a ordenação dos movimentos em suas etapas mais sutis. O primeiro está numa simples troca de lugares (A mudança de lugar é trabalhosa. Piso no meu irmão, que protesta, deslizando rapidamente para o canto. Minha irmã mais velha abre as pernas comprimidas e sua coxa esquerda rouba um pouco do meu espaço. Não cedo e abro as pernas também. Engulo uma reclamação enquanto meu joelho pressiona o dela), ao passo que o segundo deriva da mais bela cena do livro.

“Estamos todos abraçados e olhando para o chão, para a câmera. Uma luz vermelha pisca na frente. Nos vemos refletidos nos vidros da lente. Atrás da nossa cabeça, o céu com nuvens. É difícil ficar parado. Eu fiquei entre minha irmã mais velha e meu pai. Do lado do papai está minha irmã mais nova e do lado dela a mamãe e do lado está meu irmão e em seguida vem minha irmã mais velha e então eu de novo. Dizemos uísque outra vez porque a câmera demora. O sorriso está a ponto de congelar. Tira logo, tira logo. Tira logo, tira logo, digo. Tira logo, tira logo, a mais velha repete. Mamãe suspira alto e definitivamente estamos congelados. A câmera faz um clique. E todos respiramos e nos soltamos rapidamente e vamos andando para o carro com algo de pudor e algo de carinho.”

O trecho passado fora do carro é carregado de uma urgência que, de modo velado, paira sobre a normalidade que reina no interior da cabine, entre a preparação do mate, a degustação de empanadas e a piada sobre freiras. O pai parece conter uma apreensão só para si, “dirige depressa”. O noticiário menciona en passant um toque de recolher, o locutor fala “como que anunciando um estado de permanente alerta”. Em razão do que? Mais a frente, a narradora conta sobre Eva, uma amiga ocasional de dupla nacionalidade inglesa e argentina. Lembra-se da vez em que a indagou se seus pais não brigavam por conta de “uma guerra nas Malvinas”. Outra recordação traz a lume um quadro em que ambas as famílias participam de uma manifestação pela democracia. São indícios que, mesmo sutis, coloca o tempo transitivo da menina num estágio inferior ao tempo real, o período intransponível da ditadura militar.

Bortagaray não deixa explícito, porém uma intenção latente de assombro acompanha a viagem, presa ao rastro da fileira de postes-fantasmas. Será que a família está de verdade saindo de férias para o litoral? Por que de maneira frequente a menina teme por um “acidente” que possa vitimar seu pai? São questões que naturalmente não têm respostas, pois não ocorrem no universo da narradora.

bortagaray livroEstão à parte das suas lembranças povoadas pelos livros de Dickens, o desejo de encontrar Atlântida, a Cidade Perdida dos Mares e os bastiões de ingenuidade que protegem os fantasiadores, tal qual o menino usando o traje do Super-Homem nas primeiras páginas do romance História do pranto, do argentino Alan Pauls. Ao lidar com situações em que um significado estranho infiltra-se em sua série de devaneios, a carga de deslumbramento conecta-se à linguagem, tornando-o lúdico, tal quando ouve a palavra tarifas e imagina uma tribo de aborígenes tarifas descendo morros e atirando flechas. Que mal pode acessar extraordinário nível de inocência?

Ao se aproximarem da praia, o pai aconselha aos filhos que abram as janelas para inspirar o iodo que faz bem ao corpo. Um, dois e já, de certa forma, é esse iodo. Uma suspensão de mínimas histórias no recorte de uma travessia que se estende na memória do leitor. Uma pequena joia.

Um, dois e já
Inés Botagaray
Cosac Naify
93 páginas