Uma resposta a Ruth Rocha sobre Harry Potter não ser literatura

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Em entrevista ao IG, a escritora Ruth Rocha, que comemora 50 anos de carreira, disse que “Harry Potter não é literatura”. Vamos falar de Shakespeare para ver se ela entende

ruth rocha

Entra e sai dia, alguém há de mencionar a literatura de “verdade,” essa criatura mitológica, que governa silenciosamente o reino dos livros. Recentemente, foi Ruth Rocha a trazê-la à tona: em entrevista, a autora declarou que bestsellers de fantasia não são literatura de verdade. Sendo mais específica: “Esta literatura com bruxas é artificial, para seguir modismo,” disse. Quando questionada sobre o que achava de Harry Potter, afirmou que não gostava, que não era literatura. Cabe trazer à discussão que Ruth Rocha tampouco exemplificou o que é necessário para que aconteça literatura de verdade. Ela parece ter algo contra bruxos ou fantasia, porque faz questão de frisar; mas assim sendo, então Shakespeare também não poderia ser literatura de verdade; não o Shakespeare que se usa de feiticeiros, fadas e magia em algumas de suas peças mais conhecidas.

O crítico Harold Bloom é um dos adoradores de Shakespeare, e também outro a acreditar que os bruxos de J. K. Rowling são uma tragédia para o cânone literário. Ele é um de muitos (agora contando com a presença ilustre de Ruth Rocha) a sentir a necessidade de separar literatura entre as categorias da literatura verdadeira e da literatura qualquer coisa, a falsa, a de “entretenimento” (como se entretenimento representasse uma coisa ruim). Harold Bloom não costuma conter sua língua quando é requisitado para criticar bestsellers: sobre Stephen King, acusou o escritor de “emburrecer” as pessoas que gostavam de suas histórias.

O debate é antigo; conheço-o muito bem, e sempre achei algo com certo ranço elitista. No fim, há apenas dois tipos de literatura: a boa e a ruim. Aquela de que você gosta e a de que não gosta. É perfeitamente possível debater e criticar livros, discutir seus pontos problemáticos, mas afirmar que não é literatura? Quem tem o poder de decidir isso? O que é e o que não é literatura verdadeira? Vamos até um pouco além; vamos usar a palavra Arte. Quem tem o poder de decidir o que é Arte?

A verdade: ninguém.

Arte é uma coisa que simplesmente acontece, por fatores diversos. O tempo é seu maior juiz. Se sobrevive ao tempo, se ultrapassa gerações, tendemos a considerar como Arte. Mas mesmo o tempo pode ser ingrato. Coisas se perdem, desaparecem, queimam. São escondidas em nossa memória. Nenhum cânone é inabalável, porque o tempo pode soprá-lo quando quiser.

Shakespeare foi a Rowling de sua época. Extremamente popular com as massas (essas, para as quais os grande críticos literários torcem seus narizes), fazendo dinheiro de peças, sendo o verdadeiro bestseller renascentista, o teatro se enchendo por sua causa. Decerto que boa parte da nobreza, ainda que Shakespeare tenha sido querido pela Rainha Elizabeth I, não acreditasse que o autor sobreviveria ao teste do tempo; decerto nem o próprio Shakespeare acreditasse. Ele, que pode ou não ter morrido de tanto beber; que pode ou não ter escrito algumas de suas peças; que pode ter sido outra pessoa, e não Shakespeare, como insistem em tentar provar alguns adeptos de teorias da conspiração. O que resta de concreto: suas histórias. Elas atravessaram o tempo, e o fizeram porque são (sim) populares. Porque nos falam das coisas mais humanas possíveis: traição, vingança, amor, ódio, desdém, os sentimentos que consideramos novelescos, “das massas”, além do nosso bom gosto literário.

É hora de deixarmos partir mais um preconceito; de parar com a insistência de existir uma “literatura de verdade.” A literatura é a literatura; ela pode ser boa ou ruim; ela pode nos encantar ou não; ela pode durar ou pode se perder ao longo dos anos. Nada mudará o fato de que você a teve em mãos e a leu, de que ela se tornou parte de você, de alguma forma, para o bem ou para o mal. É o poder da literatura. É assim que ela existe.