60 anos de Senhor dos Anéis: entrevista com Michael Drout

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No dia 29 de julho de 1954, foi lançado A Sociedade do Anel, primeiro volume da trilogia de O Senhor dos Anéis, o maior sucesso literário e comercial de J.R.R. Tolkien. Está entre alguns dos livros mais vendidos da história, com 150 milhões de exemplares, seguido por O Hobbit, do mesmo autor. A obra ficou ainda mais popular após sua adaptação cinematográfica feita pelo diretor Peter Jackson, que conseguiu fazer história com a Trilogia do Anel sendo, uma das maiores bilheterias de todos os tempos.

J.R.R. Tolkien.
J.R.R. Tolkien.

Em comemoração aos 60 anos do lançamento da trilogia, a Revista Galileu fez uma entrevista exclusiva com Michael Drout, professor de literatura inglesa da Wheaton College, e especialista em Tolkien, literatura medieval e anglo-saxã. A entrevista foi originalmente publicada no site oficial da revista.

O papel de O Senhor dos Anéis na história literária ainda está sendo escrito.

Foi a primeira frase dita pelo professor à pergunta “Há sessenta anos hoje, a trilogia O Senhor dos Anéis começava a ser publicada. Qual é o papel dela na história da literatura?”. De fato, é nítido que a força da obra de Tolkien não para de crescer. Mas não é só a partir da reinvenção da marca, com filmes, quadrinhos ou jogos de RPG e tabuleiro que notamos a magnitude da obra. Se contarmos a história do Hobbit para uma criança, são grandes as chances de ela se encantar com aquele mundo. E a partir daí ela dá os primeiros passos para uma leitura mais complexa como a Trilogia do Anel.

Tolkien inclusive forma futuros cérebros. Quantos professores, escritores, historiadores ou linguístas não se formaram graças ao fascínio exercido pela Terra-Média? Quanto a isto o professor Michael Drout também traz um destaque.

Estudar Tolkien se tornou mais e mais respeitável (em parte porque os estudantes se inscrevem para aulas de Tolkien!). Está se tornando claro que ele representa uma importante vereda da arte literária, que influenciou significativamente a cultura.

Michael Drout,
Michael Drout.

Quem estuda sua obra lida com um leque muito amplo de temas como a jornada do herói, estrutura narrativa que prioriza a descrição de seu cenário e técnicas de romance realista aplicadas a materiais da literatura medieval. Mas sem dúvida a sua característica mais marcante é a construção de mundo. Seu primor e cuidado com os detalhes da Terra-Média fazem com que ela se torne não um mero cenário, mas quase um personagem tão ou mais importante que todos os outros. Na realidade, a sensação comum de ler O Silmarillion é de que o mundo é o protagonista. Sua habilidade na construção da Terra-Média e sua mitologia virou tema de livros e teses de doutorado mundo afora. Um dos exemplos mais citados é o The Road to Middle-earth.

As comparações entre Tolkien e novos autores modernos torna-se inevitável uma vez que ele vira o modelo para a fantasia moderna. Atualmente, o grande expoente da literatura fantástica é George R.R. Martin, e como não podia ser diferente, muito de sua formação como escritor deve-se ao pai dos hobbits. No entanto, os dois não poderiam ser mais diferentes, como explorado aqui.

Perguntado sobre a diferença dos trabalhos dos dois autores, Michael responde:

Basicamente toda a fantasia moderna deriva de Tolkien, seja imitando-o ou reagindo contra ele. Eu acho que Martin entende o valor de um detalhamento imenso e complexo ao criar uma história, mas também sinto como se houvesse em sua obra um núcleo central de crueldade – de revelar um pouco do mal que as pessoas fazem umas às outras – que não está presente em Tolkien.

Diante disso, é inegável que J.R.R. Tolkien seja uma das referências mundiais na literatura fantástica, servindo de pedra fundamental para qualquer escritor que queira se especializar no gênero e também formando novos leitores. Seu legado sobrevive intocável durante 60 anos e é bem possível que fique eternizado por mais algumas eras.