Gogol, Stefan Zweig, um app na Play Store e o problema de emprestar livros

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Sobre emprestar livros e aplicativos que prometem solucionar o problema

livro_emprestadoComo o barbeiro Ivan Iákovlévitvh, passei uma vez por um acontecimento de inaudita estranheza quando, sentado à mesa da cozinha e munido de uma faca para cortar o pão com geleia do café da manhã, meti a mão na bolsa a tiracolo pendurada na cadeira da cabeceira e senti a ausência do livro que me acompanharia em toda a primeira refeição do dia, e que há muito deveria estar ali. O cérebro foi rápido: o professor de história não havia me devolvido o livro!

Sim, vamos falar agora sobre esse ato altruísta e tão perigoso que é emprestar um livro. Muita gente fala mal de pessoas que têm uma biblioteca e não emprestam um volume sequer (eu, por exemplo!), daí vamos àquela saída argumentativa foda, do Jesus: quem nunca emprestou um livro e recebeu um bolo de volta, que atire a primeira pedra.

Óbvio que vai ter gente que vai querer atirar alguns paralelepípedos, mas esse pessoal que teve boas experiências em empréstimos, e que é a minoria, não nos interessa agora. Interessa pra essa matéria do HL quem já levou um bolo na vida, quem já perdeu seus amados volumes nas mãos de algum amigo fuleiro ou de algum colega traidor (risos).

O fato é que a maioria das pessoas que adoram livros detesta emprestá-los, por uma razão muito simples: os livros não voltam, demoram para voltar ou, quando voltam, estão total ou parcialmente agredidos – um amigo uma vez veio me devolver um volume de Candido ou o Otimismo totalmente amassado, como se molhado e secado na frente de um ventilador; perguntei se ele queria ser preso por dano ao patrimônio afetivo privado (risos) e exigi um exemplar novo no lugar.

A Revista Bula, um dia desses, baixou o Moisés e criou 13 mandamentos muito interessantes sobre empréstimos de livros – uma espécie de ética dos bibliófilos, que circulou em alguns blogs pela web, e é bastante interessante.

Mas acontece que, com ou sem uma ética do bibliófilo, a galera no geral não devolve os livros que pega emprestado, só devolve quando pega de bibliotecas, e ainda assim pechinchado o valor da multa de atraso. Essa constatação por si só é trágica, porque emprestar um livro, fazê-lo circular, é o mesmo que apostar na continuidade do ciclo do conhecimento, da apreciação artística, etc. No entanto, não dá para ser altruísta quando as pessoas nas quais depositamos a confiança do empréstimo (veja, não se trata de bookcrossing), não devolvem nossos amados volumes, ou os danificam.

E, nesses casos, o que fazer? Entrar com uma ação nas pequenas causas? (risos).

Daí vem a galera de uma satartup catarinense que descobrimos recentemente, a Renata Miguez e o Aurélio Saraiva, que criaram o aplicativo Livrio. O app Livrio já está circulando pela web como uma alternativa para assegurar o bom funcionamento da relação de empréstimo de livros e funciona basicamente como uma rede na qual o usuário pode cadastrar os amigos que se beneficiarão dos empréstimos, regulando o tempo, notificando o estado do volume quando da devolução, etc.

O HL procurou a equipe Livrio e fez algumas perguntas sobre o novo app, e disponibiliza para vocês a conversa aqui embaixo:

HL: Soubemos da criação do app “Livrio” como uma alternativa para o registro e acompanhamento de livros emprestados. Mais do que isso, notamos que vocês têm criado uma comunidade de leitores. Falem um pouco mais sobre o que levou vocês a criar o “Livrio“.

Livrio: O principal motivo que nos levou a criar o aplicativo foi a vontade de dar acesso aos nossos livros parados na estante e estimular a leitura através do empréstimo. Eu tinha uma biblioteca no Vilaj coworking e queria disponibilizá-la para a comunidade. Não havia nenhum jeito funcional e acessível para fazer isso e foi daí que surgiu a ideia de criar o aplicativo.

HL: Quais as funcionalidades que o leitor pode dispor ao baixar o app?

Livrio: O app está disponível para download pelas plataformas IOS e Android,  e nele você pode:

  • Cadastrar seus livros com leitor de código de barra, manualmente ou pesquisando por título/isbn/autor.
  • Pesquisar os livros que você que ler na sua rede de amigos.
  • Explorar a biblioteca dos seus amigos e saber que livros eles têm.
  • Solicitar ou oferecer um livro emprestado.
  • E a parte mais mágica de todas: Gerenciar esse empréstimo. O Livrio permite você saber com quem seus livros estão e quando eles voltam.
  • Também é possível organizar sua biblioteca através de estantes e interações mais simples, como recomendar, curtir, comentar um livro.

HL: Vamos fazer uma pergunta um tanto simplista agora, por que “Livrio”?

Livrio: Pensamos bastante em nomes que fossem sonoros, internacionalizaveís e que passassem a mensagem que queríamos. Livrio foi inspirado em Livro Livre, livre o livro, livrio… Fomos brincando com as palavras até conseguirmos batizar o nosso mascote (e o aplicativo).

HL: Há algum prazo pré-estipulado para devolução dos livros, ou fica a cargo do pessoal que for disponibilizar os volumes, etc.?

Livrio: Não. As pessoas combinam os prazos entre si. Quando eu solicito um empréstimo consigo colocar por quanto tempo desejo o livro, aí o meu amigo aceita ou não.

HL: Caso quem pegou o livro emprestado não o devolva, ou devolva danificado, há alguma punição?

Livrio: A nossa ideia é que a comunidade possa se autorregular classificando o usuário através de um sistema de reputação, ou seja, uma pessoa com classificação ruim, terá mais dificuldade de pegar um livro emprestado. Nossa expectativa é lançar uma versão do aplicativo com essa funcionalidade até final de fevereiro.

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Bem, não há garantias de que o problema de emprestar livros seja solucionado com um app a ser baixado na Play Store, mas com certeza é um passo para um dia podermos emprestar aqueles volumes amados a pessoas que ainda não tiveram a oportunidade de lê-los e que, com certeza, nos devolverão os livros como o receberam. Por enquanto, como no dizer de Stefan Zweig, o Brasil ainda é um país do futuro e os livros ainda poderão vir com aquela mancha oleosa de café.