João Ubaldo Ribeiro: eternizado em suas palavras

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Quando analisamos o estilo literário de Ubaldo percebemos uma carga de ironia e aspectos sociais do Brasil sendo constantemente trabalhados. O escritor não se prende em seguir a linearidade se tratando do enredo, que muitas vezes pode começar pelo meio ou fim.

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Nesta sexta-feira, 18 de Julho, perdemos mais um dos grandes romancistas brasileiros da atualidade. João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro nasceu em 23 de Janeiro de 1941, na cidade de Itaparica, Bahia. Criou-se na casa de seu avô materno até seus dois anos de idade, quando se mudou para Aracajú (SE), com seus pais e seus dois irmãos.

Seu pai, Manuel Ribeiro, advogado de respeito na capital baiana, fundou e dirigiu o curso de Direito da Universidade Católica de Salvador. Sempre mantendo uma preocupação excessiva com o filho quanto aos estudos, contratou um professor particular, cujo seu empenho possibilitou que João Ubaldo entrasse no Instituto Ipiranga no ano de 1948, onde teve acesso a diversos livros infantis, principalmente a obra de Monteiro Lobato.

No ano de 1951 ingressou no Colégio Estadual Atheneu Sergipense, sempre se aplicando aos estudos, prestando contas ao seu pai sobre quantos livros leu, quais foram os autores e muitas vezes sendo obrigado a fazer resumos e traduções de trechos das obras. Ubaldo sempre afirmou que fazia tais tarefas com muito prazer, não via como uma árdua obrigação a ser cumprida. Em suas férias escolares aproveitava para estudar latim, traduzir canções francesas das quais seu pai gostava e copiava os sermões do Padre Vieira, além de suas demais leituras.

Em 1953 por conta das perseguições políticas sofridas por seu pai, mudou-se com a família para Salvador. Ingressou no Colégio Sofia Costa, onde se sentiu pressionado por sua professora de língua inglesa que discordava de seu sotaque com a língua. Para ela Ubaldo pronunciava de modo incorreto, mas ele afirmava que seu aprendizado era focado no inglês britânico, herdado de seu professor particular, justificativa para a diferença de pronúncia. Mesmo com tal impasse ele se esforçou na matéria, chegando a decorar cerca de 50 palavras da nova língua por dia. Ainda na escola, em 1956, tornou-se amigo de Glauber Rocha. No ano seguinte, estreou no jornalismo começando como repórter no Jornal da Bahia, posteriormente exercendo o posto de editor-chefe.

Em 1958, iniciou o curso de Direito na Universidade Federal da Bahia, onde participou do movimento estudantil e, juntamente com Glauber Rocha, editou jornais e revistas. Foi um aluno totalmente aplicado, mesmo sem nunca ter exercido a profissão de advogado. Durante o curso aprofundou-se em grandes nomes da literatura nacional e internacional, como Shakespeare, Cervantes, Homero, Graciliano Ramos e Jorge de Lima. Após concluir o bacharelado em Direito, cursou pós-graduação em Administração pública.

Em 1959 ingressou no curso do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva do Exército (CPOR) da Bahia, mas não chegou a concluí-lo, devido a uma viagem que faz pela universidade aos Estados Unidos, onde posteriormente, no ano de 1964, retornou para fazer seu mestrado em ciência política por intermédio de uma bolsa de estudos.

Foi professor na Escola de Administração e na Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia. Sua carreira literária começou muito cedo, dado o tamanho interesse e paixão que sentia pelo mundo das letras. Quando ainda jovem foi um dos escritores a participar do International Writing Program, da Universidade de Iowa. Com sua presença no meio da imprensa teve maior notoriedade com seus livros de ficção, construindo uma carreira promissora como cronista, romancista, jornalista e tradutor.

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Seu primeiro livro foi escrito aos 21 anos de idade, Setembro não tem sentido, que na verdade deveria ser intitulado de A semana da pátria, mas não foi bem aceito pela editora. Sua segunda obra foi Sargento Getúlio, de 1971, consagrado como romance moderno brasileiro. Três anos depois, publicou seu livro de contos Vencecavalo e o Outro Povo, que também por sua vontade seria intitulado de A Guerra dos Paranaguás.

Quando analisamos o estilo literário de Ubaldo percebemos uma carga de ironia e aspectos sociais do Brasil sendo constantemente trabalhados. O escritor não se prende em seguir a linearidade se tratando do enredo, que muitas vezes pode começar pelo meio ou fim.

Era o sétimo ocupante da cadeira número 34 na Academia Brasileira de Letras, eleito em 7 de Outubro de 1993 na sucessão de Carlos Castello Branco. Como tantos outros nomes importantes de nossa literatura, Ubaldo deixa um rico acervo de crônicas, contos, ensaios e romances como seu legado à nossa inteira disposição. Mesmo com muita tristeza pela perda de mais um nome no meio literário, e  precocemente, visto que se encontrava com seus 73 anos, teremos sempre suas palavras eternizadas por meio da escrita que permanece.