O poder do ‘e se’ na ficção: Mare Crisium

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Por que o homem deixou de ir à lua nos últimos anos? Os governos estão escondendo algo de nós? Esta é a poderosa premissa em que se sustenta o livro Mare Crisium

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Publicado em 2015 por Daniel Davidsohn, Mare Crisium é um colosso de seiscentas páginas especialmente indicado para quem gosta de boa ficção, com um viés questionador e conspiratório, mas redigido com técnicas apuradas para prender quem o lê da primeira à última página.

Este thriller conduz o leitor de modo mais próximo pela história de três personagens: Lucas Walker, Luiza Palmer e Roy Charles O’Connell. “De modo mais próximo” pois na realidade a obra alterna entre pontos de vista de diversos personagens intrigantes.

O mistério central da trama é o desaparecimento de Milton Walker, pai de Lucas, que na década de setenta atuava junto ao governo americano em um cargo secreto, no qual analisava imagens lunares. O cientista desapareceu sem deixar qualquer sinal à esposa e ao filho. Este evento reverbera por toda a vida adulta de Lucas, ocasionando certa obsessão pela lua. No decorrer dos acontecimentos principais do livro, ele é um professor universitário um tanto excêntrico com seus sessenta anos de idade. Segue sua vida comum, mas a descoberta de uma imagem produzida pelo pai da lua, em que certo detalhe aparenta ser uma estrutura artificial, desperta seu desejo (de Lucas) de visitar o satélite terrestre. A partir daí, acontece seu primeiro encontro com Roy Charles O’Connell, um antigo companheiro de faculdade. Roy é ex-militar, dono de uma um canal de TV local e um verdadeiro sedento por dinheiro. Sua empresa possui o apoio de uma organização nomeada Fundação e seu projeto é ir à lua, ou pelo menos aproveitar esta jogada publicitária para promover um outro projeto, um golpe que o tornará bilionário, cuja ideia veio de uma caminhada pela Irlanda, quando se perguntou: por que ninguém ainda deu um jeito de vender o ar?

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Mare Crisium (Editora Pineal, 2015)

Longe de formar um triângulo amoroso, mas envolvida com estes dois polos masculinos, surge a presença da sedutora Luiza Palmer, uma mulher madura que foi vítima de um passado monstruoso – relacionado, claro, aos fatores: controle, poder e sexualidade.

A recusa de Lucas a se submeter à ética duvidosa de Roy o lançará em uma jornada de descobertas e relacionamentos com personagens como: o aventureiro texano Michael Crammer, que também deseja ir à lua com sua aeronave Cassilda; o senador Ramsey; e o cão de guarda de Roy, Frank Ballard.

Como toda boa ficção, a trama se apropria das lacunas históricas da realidade. Por exemplo, a premissa do livro de Daniel Davidsohn se baseia na pergunta: por que as viagens à lua deixaram de acontecer? E a partir daí, passa ao “e se” a iniciativa privada pudesse ou quisesse investir nestas viagens? Até sugere em vários pontos que esta omissão de informações por parte dos governos, o porquê de não ir a à lua, é a reação a determinadas descobertas.

Muitas pessoas podem torcer o nariz ao ouvirem falar das “teorias da conspiração”, mas o autor conseguiu em Mare Crisium alicerçar a trama em eventos que comprovam certos palpites ousados, para dizer o mínimo. Por exemplo, a manipulação da informação. Basta estudar um pouco sobre propaganda para entender que o nazismo estendeu seus tentáculos tão longe graças às práticas revolucionárias de um homem chamado Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda do Reich na Alemanha Nazi. Em vários trechos do livro de Daniel Davidsohn, vemos o mesmo tipo de manipulação de imagem, só que realizado até mais pelas grandes corporações do que pelos governos, uma revelação sobre quem detém o poder no século XXI.

Como diz o personagem Mabus, uma espécie de oráculo dentro da obra: “Transforme algo real em fantasia. Misture realidade com irrealidade. Confunda. Ridicularize. Assuste. Teorize além do razoável. Desgaste o tema. Transforme leigos em especialistas renomados e os coloque na televisão dando opiniões.” (pg. 236).

Ainda assim, o livro não é tão pessimista como pode parecer. Talvez até ofereça uma mensagem de esperança às mentes mais abertas.

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Daniel Davidsohn, o autor

Há uma personagem chamada Josefina que possuiu talentos sensitivos e que em certo ponto discursa sobre uma espécie de “despertar” que vem acontecendo. Sua opinião advém do fato de a informação ter se espalhado, revelando um “novo mapa-múndi disponível, e ele mostra o mundo como ele é, e como funciona o mito das instituições”(pg. 585). Será mesmo?

A pergunta deve ser respondida pelo leitor.

O fato é que Mare Crisium, de Daniel Davidsohn, transita com êxito este caminho do “e se”, tornando-se uma obra que entretém e faz pensar.

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Para saber mais sobre Mare Crisium, acompanhe o site do autor ou a página do livro.