Robin Williams: Oh captain, my captain!

1
374

5.0.2

Quando somos jovens, muito jovens, muitas vezes não nos damos conta da importância dos fatos que ocorrem em nossa vida. Precisamos daquele choque de realidade para podermos perceber que há grandes chances daquele caminho que esta sendo mostrado à nós seja o qual devemos seguir. Mesmo que pareça loucura ou incrivelmente improvável dada às circunstâncias. Um momento único como esse aconteceu em minha conturbada adolescência, em meio a incertezas, rebeldias, descontroles e dúvidas que me consumiam a alma.

Lembro-me bem que a culpada pela minha “salvação” foi certa professora de língua portuguesa e literatura de meu ensino médio, a Sra. Blandina. Aquela pessoa que se entregava inteiramente à profissão escolhida há anos, expressava amor em cada nova fase dos períodos literários, nos apresentava grandes escritores, declamava poemas e conseguia bagunçar ainda mais aquelas mentes confusas de uma certa turma de segundo ano. Blandina, creio que jamais esquecerei esse nome, e ainda irei me emocionar com cada lembrança que permanece viva em minha mente, que hoje é ainda mais conturbada do que naquela época, mas ao menos agora sabe onde achar um meio de fuga.

O episódio que aconteceu, o qual me lembro com intenso carinho, foi naquele ano de colegial. Poderia ser apenas mais uma aula de literatura, onde eu leria algum poema ultrarromântico e me fascinaria com toda aquela essência obscura, mas ao invés disso foi-me apresentado um filme: The Dead Poet Society. Quando a professora anunciava que teríamos filme a turma inteira se agitava, porque para muitos isso significaria não copiar matéria no caderno, não precisar ler e estar “livre” para passar aqueles minutos da forma como bem quisesse, até mesmo dormindo. Não que eu fosse a melhor aluna da classe, longe disso, mas já que a matéria muito me interessava e eu estava no processo de desenvolvimento do amor pelo cinema, me foquei no tal filme. Quando ficou evidente que se tratava de jovens e sua rotina dentro de um colégio achei meio cômico, afinal o que exatamente minha professora estaria pensando ao escolher um tema tão familiar ao nosso cotidiano? Inocente, me coloquei meio na defensiva, mas continuei acompanhando. No desenrolar dos fatos, nas abordagens sobre a vida de cada um daqueles amigos, os quais entraram para o “clube dos poetas mortos” comecei a perceber o que estava acontecendo naquela sala de aula. Percebi que não era apenas um filme, não era um meio de minha professora mostrar como deveríamos ser educados com ela, nos comportar de maneira correta ou qualquer outra coisa desse tipo. Não! Aquele filme era a forma que ela havia encontrado para despertar uma daquelas pobres almas daquela sala para uma das coisas mais maravilhosas, fantásticas e tocantes da vida: a literatura!

Foi terrível. Senti como se o mundo tivesse parado naquele dia e nada mais fizesse qualquer sentido. O que acabei fazendo depois daquela descoberta creio que foi exatamente o que minha professora esperava que acontecesse. Comecei a escrever, sentimentos de adolescente descontrolada que apenas deixa-se conduzir por seus pensamentos e mãos, escrevendo coisas grotescas, algumas bem elaboradas até, mas a maioria infantis demais para serem levadas a sério. Naquele tempo sentia-me mais à vontade expressando-me em diários (na verdade, até hoje), como se eu pudesse ter controle daquilo tudo.

Sei que não foi somente o filme que me tocou, a brilhante atuação de Robin Willians como professor daquele colégio, a ajuda que ele deu para aqueles garotos ou o maravilhoso enredo que me prendeu do começo ao fim. Tudo isso fez um sentido maior para mim justamente por conta daquela Sra. Blandina, a minha professora de literatura que acreditou em mim, que me mostrou um caminho diferente daquele que eu estava seguindo. Para mim ela foi e sempre será minha capitã!

Hoje fiquei triste com a morte desse grande ator, o qual tenho tanta admiração por muitas de suas atuações nos filmes que assisti, sendo eles famosos ou não. Ele sabia exatamente o que fazer e como fazer em seu trabalho, indiscutivelmente. Da mesma forma que minha professora de literatura, e se der tudo certo, eu também serei capaz de continuar a desenvolver um bom trabalho dentro das minhas salas de aula, indo muito mais além do que regras gramaticais e períodos literários.