Rubem Alves e a insistência pela liberdade

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Diferente da maioria das pessoas, ele não tinha medo de morrer, apenas não gostaria de deixar de viver. Gostava intensamente da vida, de todas as possibilidades, sensações e prazeres que nela encontrou com o passar dos anos.

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Rubem Alves.

Rubem Alves, nascido no dia 15 de Setembro de 1933 em Boa Esperança, não se dedicou apenas a transpor suas emoções e percepções sobre a vida por meio da literatura, mas também caminhou amplamente sobre as questões da educação, religião, crenças e a respeito da infância. Mestre em Teologia e Doutor em Filosofia via na literatura uma forma de se desconectar das coisas ruins pelas quais passava, mas não era sua única paixão. Logo que se aposentou decidiu se dedicar à gastronomia, tornando-se proprietário de um restaurante em Campinas.

Para Alves o ofício de ensinar não deveria ser levado apenas como um árduo trabalho, mas sim ser exercido todos os dias com amor à profissão. Do contrário a principal essência de ser professor estaria perdida no meio da rotina incansável de salas de aulas, livros, provas e alunos que precisariam suportar aulas monótonas e sem valor algum. Esta perspectiva do autor ao valor do docente e de sua real função fica evidente no fragmento do texto Gaiolas e Asas abaixo:

Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas. Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o vôo. Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.Esse simples aforismo nasceu de um sofrimento: sofri conversando com professoras de segundo grau, em escolas de periferia. O que elas contam são relatos de horror e medo. Balbúrdia, gritaria, desrespeito, ofensas, ameaças… E elas, timidamente, pedindo silêncio, tentando fazer as coisas que a burocracia determina que sejam feitas, dar o programa, fazer avaliações… Ouvindo os seus relatos vi uma jaula cheia de tigres famintos, dentes arreganhados, garras à mostra – e a domadoras com seus chicotes, fazendo ameaças fracas demais para a força dos tigres… Sentir alegria ao sair da casa para ir para escola? Ter prazer em ensinar? Amar os alunos? O seu sonho é livrar-se de tudo aquilo. Mas não podem. A porta de ferro que fecha os tigres é a mesma porta que as fecha junto com os tigres.Nos tempos da minha infância eu tinha um prazer cruel: pegar passarinhos. Fazia minhas próprias arapucas, punha fubá dentro e ficava escondido, esperando… O pobre passarinho vinha, atraído pelo fubá. Ia comendo, entrava na arapuca, pisava no poleiro – e era uma vez um passarinho voante. Cuidadosamente eu enfiava a mão na arapuca, pegava o passarinho e o colocava dentro de uma gaiola. O pássaro se lançava furiosamente contra os arames, batia as asas, crispava as garras, enfiava o bico entre nos vãos, na inútil tentativa de ganhar de novo o espaço, ficava ensanguetado… Sempre me lembro com tristeza da minha crueldade infantil. Violento, o pássaro que luta contra os arames da gaiola? Ou violenta será a imóvel gaiola que o prende? Violentos, os adolescentes de periferia? Ou serão as escolas que são violentas? As escolas serão gaiolas?

 

Membro da Academia Campinense de Letras, professor com mérito da Unicamp e cidadão honorário de Campinas, onde recebeu a medalha Carlos Gomes de contribuição à cultura, este grande escritor nos deixou no último sábado, dia 19 de Julho de 2014. Seus questionamentos a respeito da conduta humana, tal como da docência, crenças e da sociedade como um todo ficarão presentes em suas obras e como ensinamento para sermos sempre melhores, independente de nossas escolhas.