Revisitando a condição humana

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2w403n6Para começar nossa reflexão, gostaria de apresentar o seguinte poema:

Com quem posso falar hoje?
Os irmãos são maus;
Os amigos de hoje não amam.
Com quem posso falar hoje?
O homem gentil sucumbiu;
O atrevido anda em toda parte.
Com quem posso falar hoje?
De desgraças estou carregado,
Sem nenhum amigo de boa-fé.
Com quem posso falar hoje?
A iniquidade assola o país;
Ela não tem fim.

Do que fala o poeta? Da situação atual da sociedade ocidental? Talvez da realidade brasileira em ebulição desde junho de 2013, por que não? Talvez de um solitário sem família e ou amigos, que projeta sua melancolia para todos aspectos da vida? Ou o clássico deprimido, segundo a CID 10 – Classificação Internacional de Doenças em seu décimo volume.

Tal poema pode ser emprestado às situações acima descritas sem problema algum, mas sua origem é diferente, o poeta não pertence a esta realidade. O autor anônimo de Diálogo de um Misantropo com sua alma viveu no Egito por volta de 2000 anos a.C. O trecho destacado faz parte de um papiro encontrado em 1896 por Adolf Erman.

Creio não ser necessário destacar a importância da escrita e da arte para o desenvolvimento da humanidade, assunto tratado em diversos livros e artigos. O que gostaria de destacar é a utilização do poema como meio para a expressão/confissão da condição humana. Esta, independentemente da época, continua a mesma, embora certos discursos sócio-históricos tentem convencer do contrário.

As palavras do poema acima revelam a angústia de um homem, ou de uma mulher, por que não, diante da vida. Ela ou ele viveu em outra época, outra sociedade, com valores éticos, estéticos, políticos e espirituais muito diferentes dos nossos. Mas, a angústia é a mesma. O sofrimento com a vida e com o viver foi talhado em cada palavra do papiro sobrevivente.

Graças a esse achado, assim como outros de diversas épocas, podemos entrar em contato com a Arte de um ser humano separado de nós pelos véus do tempo. Ele nos mostra que sua condição humana é similar à nossa, quando por exemplo lemos um jornal, ou ligamos a TV e nos deparamos com um escândalo político, ou quando somos atacados com acusações subjetivas em nossas redes sociais. Os meios podem ser diferentes, mas a angústia persiste.

A Arte preenche a carência das coisas, ela transmite duração ao que na natureza só é finitude, transitoriedade. Arte é um processo de infinitização do finito. Hegel

Em uma época de informação em tempo real, com quem posso falar hoje? Falar no sentido de conversar e não apenas vomitar palavras, ou fazer monólogos a dois. Os irmãos são maus, como estão as famílias hoje em dia? Os amigos de hoje não amam, como são/estão estabelecidas as relações de vínculo, de intimidade, em uma era de exposição midiática e limitação da privacidade?

As constantes acusações de roubo e corrupção no país nos últimos anos; A iniquidade assola o país; Ela não tem fim. Se você é um pouco mais velho pode se lembrar de 1964. Se é mais jovem, talvez das Diretas Já ou Caras Pintadas. Ou se você é antenado, está a par de tudo o que ocorre desde Junho de 2013.

O poema pode ainda ser revisitado a partir da perspectiva intrapsíquica, ou seja, a partir do sujeito – De desgraças estou carregado. Há angústia de viver e sentir-se deslocado do seu meio social, como se ele fosse um alienígena e não pertencesse àquelas pessoas próximas. Ou como se carregasse uma tristeza profunda que não podia ser compartilhada por questão de preconceito alheio ou simplesmente porque as pessoas não sabem/querem ouvir.

Você reconhece os padrões? Mudam-se as roupas, as máscaras, o país, mas a essência se mantém.

Não se trata de uma reflexão moralista, a proclamação da verdade com V maiúsculo ou mais uma verborragia em tempos de descontentamento. Trata-se de refletir nossa condição a partir da Arte. Nosso amigo ou amiga de quatro mil anos atrás humildemente nos contou que também sofreu, também não se conformou com a realidade. Queixou-se daquilo de que hoje nos queixamos, reclamou assim como nós reclamamos e protestamos com tanta veemência. A diferença é que uns saem às ruas e batem em panelas, outros xingam muito no twitter, outros ainda rezam, alguns fingem como os poetas fingem.

O poema nos convida (ou pode convidar) a olhar para nós mesmos e assim enxergar o que sempre esteve aqui e que, pelo jeito, sempre estará. Talvez, se entrássemos mais em contato com nossa humanidade limitante e pífia, talvez deixássemos de dar importância para questões irrelevantes e nos contentássemos mais com aquilo que somos e podemos ser – meramente humanos.

Referências

CAMPBELL, Joseph. As Máscaras de Deus: mitologia oriental. Vol. 2. Palhas Atenas, 2008.

MATTOS, Delmo. O sublime e o belo artístico em Hegel: uma discussão sobre a questão do belo no sistema filosófico de Hegel a partir de um diálogo com os argumentos sobre a Estética de Platão e Kant. In: Filosofia, Ciência e Vida. Ano: VIII. ed. 96. São Paulo: Editora Escala, 2014.