Revista Flaubert chega ao décimo número, em edição especial de fim de ano

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Publicação gratuita, voltada exclusivamente para o conto brasileiro, reúne 25 narrativas inéditas, assinadas por autores renomados e iniciantes

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Num crescendo ao momento derradeiro de Moby Dick, há um trecho funcional para ilustrar como homens-de-sal poderiam demolir o monumento aquátil. O capitão Ahab está num bote, quando avista a baleia gigante se aproximando:

“(…) subitamente, examinando o abismo com mais minúcia, viu surgindo das profundezas uma imensa mancha branca, não maior do que uma doninha branca, ascendendo com prodigiosa celeridade e ganhando volume à medida que subia, até que se virou, e então apareceram distintamente duas longas e arqueadas fileiras de dentes brancos, brilhantes, emersas do fundo indistinto. Eram a boca aberta e as volutas da mandíbula de Moby Dick (…) Ahab fez girar a embarcação, afastando-a da terrível aparição. Então, chamando Fedallah para trocar de posição com ele, encaminhou-se para a proa e, tomando o arpão de Perth, ordenou à população que pegasse nos remos e se preparasse para recuar”.

Veio-me à mente essa cena, logo assim que recebi o honroso convite do escritor Mariel Reis, editor-chefe da Revista Flaubert, para atuar como editor convidado da publicação de fim de ano.

De fato, a plasticidade da cena ligou a minha memória ao livro, a sequência de movimentos protagonizados pelos tripulantes, dentro do exíguo bote, no preparo para enfrentar o monstruoso cetáceo.

Fiz uma conexão imediata com o que seria produzir uma revista, senão organizar pessoas e ideias a fim de se preparar para enfrentar um desafio. No caso da Flaubert, sustentar o arpão diante do compromisso de entregar ao leitor uma coletânea de contos brasileiros que prima, indispensavelmente, pela diversidade e pela qualidade. A baleia branca, que emerge do “fundo indistinto”, é a literatura.

E, como visto nesse décimo número, a revista tem tido uma experiência muito melhor que a do Pequod, navegando de vento em popa, sem atribulações. Com princípios editoriais independentes, a Flaubert é, hoje, uma das publicações mais significativas do gênero conto, sobretudo por promover uma combinação harmônica entre autores renomados e estreantes, de diferentes regiões do Brasil e, até mesmo, fora do seu território. O critério de seleção é único: o valor literário do texto.

Isso pode ser comprovado no time dos 25 escritores que fazem esse número especial em tantos sentidos. Para destacar um, que possa bem representar a todos, temos um texto inédito do B. Kucinski, premiado autor do romance K., que segue com sua visitação pungente ao regime militar.

Explicar, contudo, não basta. Portanto, convido a todos à leitura da Flaubert, no link abaixo. Um edição que, avistando um novo ano, aponta os bons rumos da revista. Viva o conto brasileiro!