Ricardo Lísias reúne seus textos em ‘Concentração e outros contos’

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Concentração e outros contos reúne textos de Ricardo Lísias entre 2001 e 2015. O mais antigo é Capuz, e Autoficção surge como a única história inédita dessa edição que a Alfaguara colocou no mercado esse ano.

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Está tudo ali. Ou melhor, Ricardo está todo ali mais uma vez.

As referências básicas de seus romances, solidão, xadrez, André, Argentina, política sul-americana surgem como repertório que, ao que parece, não abre mão em sua trajetória. Assim como reafirma uma proposta ligada a escrita de si, a qual a crítica gosta de chamar de autoficção – termo que o próprio autor rechaça.

Não por acaso o seu único texto inédito possui esse nome, já que se trata de uma brincadeira com o rótulo que ganhou. Ricardo Lísias apresenta, nesse conto, Ricardo Lísias, escritor a um passo de desistir da carreira. Mas esse é só o ponto de partida, pois a história ganha contornos fantásticos a cada parágrafo, quando surge a relação que o protagonista estabelece com uma suposta reportagem.

Dentro dessa situação o autor conta como seria o Ricardo Lísias que aparece na imprensa, e como ele gostaria que realmente fosse essa representação.

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Concentração e outros contos (Alfaguara, 2015)

Essa capacidade de elaborar histórias dentro da história, de articular representações transitando em universos paralelos é um dos pontos mais fortes do autor. Se a estratégia da escrita de si já é uma identidade, a criatividade é a válvula de escape que permite ao leitor nunca cansar, ou mesmo ficar indiferente à literatura produzida por Lísias.

O primeiro conto, Evo Morales, começa como uma insólita história sobre as bochechas do presidente boliviano. Porém, no andamento do texto, começamos a desconfiar que algo está fora do lugar, provocando um estranho incômodo que se estenderá até a última página dessa compilação de textos.

Mas será no conto seguinte, Dos nervos, que Lísias irá decretar a incapacidade do leitor acompanhar suas histórias sem estar em permanente estado de riso nervoso. Há uma eletricidade no caso da mulher que recebe uma “visita” inesperada, evidenciando com toda criatividade possível uma presença materna arrasadora, ao mesmo tempo em que expõe uma partida de xadrez com forte pano de fundo político.

Nesse momento, outras duas características técnicas aparecem: a criação de sentenças chaves, que servem como elementos que acentuam algum tipo de desespero latente, que nesse caso surge da expressão “minha mãe sempre fala”; a desmontagem, quando constrói a historia a partir de diferentes modulações da mesma situação, a ponto de recriar, a partir da repetição, outra narrativa interna que dá ainda mais consistência ao que está sendo contado no arco central.

Fisiologias é uma sequência de textos que compreende os temas memória, medo, dor, solidão, amizade, infância e família. Os três primeiros remetem a André, personagem de O Céu dos Suicidas (2012), enquanto as outras fisiologias são elaboradas em uma perspectiva de rememoração bastante comum dentro da obra de Lísias, seja de si, da família ou da reelaboração fictícia que faz de tudo isso.

Crio histórias sobretudo porque sou muito solitário (…) É a literatura que diminui o peso da minha solidão (p. 121).

Especificamente em Fisiologia da solidão, ele aponta para o elemento da técnica, e sua fascinação pelas experimentações. Nas palavras do próprio personagem/autor: “A obsessão pela técnica revelou outro traço da minha personalidade: o gosto por repetidas variações com algumas mudanças.” (p. 123).

Concentração cria variáveis a partir do nome Damião, e com isso surge uma história moderna da Argentina e seu cenário de “sentimento político macabro” – descrição cirúrgica desse país. Anna O, já no terço final do livro, apresenta o mesmo cenário hispanohablante, só que dessa vez relacionado ao Chile – e com um final tão surpreendente quanto engraçado.

O último texto, Capuz, escrito originalmente em 2001, mas publicado em apenas em 2007. Além de angustiante, ele já concebe alguns artifícios que viria a usar anos depois em Divórcio (2013), especialmente a forma como usa a metáfora do capuz, precursor da troca de pele que ele materializa no seu último romance.

Se apenas um dos contos é inédito, pode soar estranho empilhar informações sobre um material que já circula faz muito tempo no mercado. Não há dúvida que eles mereceram o devido destaque na época, porém a diferença é que, reunidos, fornecem uma unidade impressionante à proposta literária de Ricardo Lísias.

A força do conjunto, dessa eletricidade que circula por cada conto, permanece no campo das sensações do leitor. E alcançar isso reeditando, reunindo material pensado para diferentes suportes, só confirma o protagonismo desse autor na literatura brasileira produzida na última década.