Roberto Bolaño: um ranking do pior ao melhor romance

Uma lista sobre os romances do escritor chileno Roberto Bolaño, falecido em 2003, avaliando os seus romances do pior ao melhor

roberto bolaño

Roberto Bolaño viveu a literatura como poucos. Sua vida e perambulações o levaram do seu Chile ao México e por fim à Espanha. Assim, nunca foi um literatura comum, o que pode explicar sua obra.

Assim, seus romances trataram de tudo, sobretudo da própria literatura. Com personagens sem dinheiro e cheio de ideias, Bolaño povoou páginas e páginas de mistérios, discussões sobre poesia, ubiquidades, iconoclastas e sobre livros.

O que mais dizer? Apenas que leiam seus romances. Porém, quais e por quê? Continua lendo e descubra.

No entanto, há dois pontos breves.

Falaremos apenas dos romances publicados em português. Logo, La Literatura Nazi en América (1996), Ambares (2002) e Una Novelita Lumpen (2002) não farão parte da lista.

Mesmo assim, recomendo fortemente La Literatura Nazi en América. É uma das ideias mais geniais da literatura: uma manual literário de autores reais, todos nazistas, de todos os países da América. Caso tivesse edição em português, estaria no top 3 desta lista.

É isso.

Divirta-se!

 

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***

  1. Monsieur Pain (1999)

Na Paris do entre guerras, Pain se vê envolvido numa conspiração insólita ao ser contratado por madame Reynard cuidar de um homem. No entanto, este homem se revela sendo o poeta peruano César Vallejo, que sofre de soluções incuráveis.

Misturando ocultismo e uma trama insólita, Bolaño nos apresenta um novela com todos as características que viriam a se tornar marcas da sua obra. Contudo, ainda lhe falta folego e experiência, o que pode tornar o romance um tanto quanto estranho.

Talvez o fato mais notável sobre o romance, escrito nos anos 80, é o fato de Bolaño tê-lo enviado a vários concursos literários na Espanha, apenas mudando o título, e ganhando os prêmios. Anedota essa que ele narra num de seus contos.

 

  1. Estrela distante (1996)

Ambientado no Chile pré e pós golpe de Pinochet em 1973, seguimos o narrador que une as pontas entre dois personagens aparentemente diferentes.

De um lado, um jovem poeta que frequente oficinas literárias antes do golpe. Do outro, um aviador que escreve poemas e versículos da bíblia no ar depois do golpe. A nossa jornada é entender junto ao narrados como estas pessoas são a mesma.

Roberto Bolaño nos apresenta a sua própria geração. Chilenos jovens que viram suas vidas mudar com a implementação de um dos regimes mais cruéis da américa latina.

 

  1. O espírito da ficção científica (2016)

Ao invés de gastar palavras para descrever esse romance de Roberto Bolaño, deixemos o escritor Antônio Xerxenesky descrevê-lo no vídeo abaixo.

 

  1. As agruras do verdadeiro tira (2011)

Nessa versão alternativa da vida de Amalfitano, professor universitário e personagem de Os detetives selvagens, seguimos sua descoberta sexual. Aos 50 anos, ele acaba se envolvendo com um aluno e se descobre homossexual. A partir dessa relação, que dá errado, ele se vê obrigado a mudar para uma pequena cidade no México.

Mais um dos romances póstumos de Roberto Bolaño, aqui temos uma versão alternativa a vida de Amalfitano. O romance é um tour de force de vários estilos que Bolaño adorava brincar. Um romance curioso, que lido junto a Os detetives selvagens cria a sensação de confusa e euforia.

 

  1. Amuleto (1999)

Outro romance com personagens que já tiveram a vez em Os detetives selvagens. No caso, acompanhamos a poetisa uruguaia Auxilio Lacouture, autointitulada “a mãe de todos os poetas e da poesia mexicana”. Escondida no banheiro da UNAM, no México, durante uma invasão de tropas do exército, ela rememora a vida de muitos poetas e artistas e poetas latino americanos enquanto se esconde.

Uma ode à política e à brutalidade do nosso continente, Roberto Bolaño constrói um mundo único a partir da visão Auxilio Lacouture. Uma brincadeira literária, mas também um jogral da violência política do nosso continente.

 

  1. Noturno do Chile (2000)

Um longo monólogo do padre Sebastián Urrutia Lacroix constituído de apenas dois parágrafos narra a posição política do Chile sob Pinochet. Crítico literário e poeta, Lacroix também é padre e vive no Chile dominado por militares encabeçados pelo ditador Pinochet. Este, por sua vez, o protege e pede para que lhe ensine sobre marxismo, bem como aos seus amigos.

Em mais um embate de Bolaño com seu passado, o autor critica a posição dos intelectuais chilenos frente ao regime militar, inclusive Pablo Neruda. Um romance engraçado e tenso, uma longa crítica aos intelectuais do seu país.

 

  1. O terceiro Reich (2010)

Parece pouco provável, mas este romance gira em torno de um jogo de tabuleiro. Assim, Roberto Bolaño cria mais uma das suas histórias insólitas e profundas.

Udo Berger e sua namorada viajam para uma praia perto de Barcelona no que parece ser o melhor momento da vida dele. Dessa forma, ele aproveita a praia e pratica sua jogo de tabuleiro preferido. Sua ambição é se tornar do próximo campeonato regional do tal jogo. No entanto, algo começa a desviá-lo do seu objetivo. Ele conhece uma gama de personagens estranhos que o tiram do eixo, cada qual da sua forma. Queimado, um homem de pele queimada pelo fogo e aluga pedalinhos, é um caso a parte. Ele consegue desafiá-lo no único campo em que ele se acha imbatível: o jogo de tabuleiro.

Um romance de clima único e cativante. Uma boa entrada para a obra do autor chileno.

 

  1. Pista de Gelo (1993)

Boa parte dos romances de Bolaño carregam a estrutura policial. Assim, não é novidade nota-la presente em Pista de Gelo. Contudo, esta busca não é tão óbvia como as outras.

Narrado por três personagens diferentes, seguimos a história de um assassinato ocorrido em Z, uma cidadezinha na Espanha. O que pode parecer óbvio acaba por aqui, pois temos que esperar até o fim do livro para saber quem foi morto. Cheio de personagens exóticos e esquisitos, é menos um romance de trama (o assassinato) do que de tramas (a vida dos personagens e como eles se conhecem). Divertidíssimo, vale cada página e nos prepara para seus grandes romances.

 

  1. Os detetives selvagens (1998)

Há muitas formas de se explicar Os detetives selvagens. Uma delas é a busca de Arturo Belano e Ulises Lima a uma poetisa desaparecida no deserto mexicano. Outra seria o retrato de uma geração, perdida em meio à política, à literatura e de si mesmos.

É difícil não ficarmos encantados pela forma com que Roberto Bolaño cria seus relatos e personagens. Poetas pobres e enérgicos do realismo visceral, exilados na Europa e na américa latina, a vida de Arturo e Ulises, os detetives selvagens, durante vinte anos. Não há nada que não seja digno de um grande livro nessa obra.

 

  1. 2666 (2004)

Publicado após a morte de Bolaño em 2003, este é com certeza uma obra monumental em todos os sentidos. Dividido em cinco partes, cada qual com seus personagens e problemas, 2666 tem como ponto de união a cidade mexicana de Santa Teresa na fronteira com os Estados Unidos.

Dessa forma, temos de tudo: quatro críticos literários em busca de um autor desconhecido; um professor universitário com problemas existenciais; um jornalista político sem muita vontade de cobrir uma luta de boxe no México; assassinatos e mais assassinatos em Santa Teresa; a vida de um autor alemão e suas perambulações.

Portanto, um romance que tenta abranger tudo mesmo sabendo que é impossível, 2666 é uma leitura misteriosa e deliciosa. Do título às tramas, tudo vale a pena nesse romance.

José Figueiredo Autor

editor-chefe do homoliteratus, podcaster (30:MIN), mestrando em teoria da literatura (UFRGS), autor de "Há um tubarão na piscina" (2018)