Roberto Piva e a saga da vanguarda poética paulistana

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Ontem, o poeta Roberto Piva completaria 76 anos. Nascido em 25 de setembro de 1937 e morto em 2010, Piva foi um dos mais inquietos e talentosos poetas paulistanos e influenciou toda uma geração de escritores nos anos 60 e 70. Verborrágico, vivia segundo seu lema: “eu digo que o verdadeiro poeta é marginal”.

O intenso Roberto Piva exercia uma espécie de liderança anárquica de um grupo de escritores que habitava a efervescente cena cultural em Sampa nos anos de chumbo.  Ao seu lado, o poeta Cláudio Willer, mais centrado (dentro do possível), exercia uma espécie de dobradinha do ‘movimento’.

A busca pelo companheirismo sempre foi a urgência de muitos criadores e fez surgir movimentos artísticos e literários. A efervescência de determinada época, as coincidências e as amizades levam artistas ao convívio entre iguais e incrementa e, por vezes, até modifica o trabalho solitário de cada um deles.

As reuniões no apartamento da escritora Gertrude Stein na rue de Fleurus, na rive Gauche em Paris na década de 20 reunia talentos do calibre de Picasso, Apollinaire e Jean Cocteau. A revista Cahiers du Cinéma na década de 60, também em Paris, juntava em sua redação diretores de cinema como Godard e Truffaut.

Sem paralelos e exageros, isso aconteceu na Sampa entre as décadas de 60 e 80. No meio do regime repressivo brasileiro, São Paulo abrigava a vanguarda em várias searas artísticas. Na música com, por exemplo, Arrigo Barnabé, Ira!, Itamar Assumpção, Titãs e Joelho de Porco. No teatro, com José Celso Martinez e Antunes. Nos quadrinhos, Angeli com seu Chiclete com Banana. E, na literatura, a turma dos beats paulistanos: Roberto Piva, Cláudio Willer, Roberto Bicelli, Antonio Fernando de Francheschi, entre outros.

Em belo trabalho de pesquisa (40 entrevistas entre 2007 e 2010), o livro Os Dentes da Memória, de Camila Hungria e Renata D’Elia, narra em formato de longa entrevista as histórias da vanguarda poética paulistana. Os excessos, os causos e os arroubos do grupo são contados principalmente com base nos relatos de Piva e Willer .

Para Piva, o verdadeiro poeta é marginal
Para Piva, o verdadeiro poeta é marginal

Lautréamont, Massao Ohno e o anarco-monarquismo de Piva

Willer foi o tradutor da obra que realmente fez a cabeça dessa geração, Cantos de Maldoror, o genial livro do enigmático poeta Lautréamont. Apesar da profunda admiração dos poetas do período pelos escritores beats norte-americanos, o uruguaio Lautréamont  traduziu como poucos a atmosfera dos sixties: “recebi a vida como uma ferida, e proibi ao suicídio que curasse a cicatriz”.

No papel de agregador do desregrado movimento figura o editor Massao Ohno. Sua pequena editora publicou muitos ‘primeiros livros’ de alguns escritores e poetas. Como ele próprio explica: “não se tratava de uma editora que modificasse as normas vigentes. Havia somente a necessidade de criar uma nova maneira de divulgar trabalhos pioneiros. Assim surgiu a Coleção dos Novíssimos, para publicar gente que desse um perfil próprio à sua época”.

Poetas da megalópole perdida
Poetas da megalópole perdida (créditos da imagem: Renata D’Elia)

O clima desses artistas pode ser experimentado pela leitura do manifesto Bules, bilis e bolas:

“Nós convidamos todos a se entregarem à dissolução e ao desregramento. A vida não pode sucumbir ao torniquete da Consciência. A Vida explode sempre no mais além. Abaixo as Faculdades e que triunfem os maconheiros. É preciso não ter medo de deixar irromper a nossa Alma Fecal. Metodistas, psicólogos, advogados, engenheiros, estudantes, patrões, operários, químicos, cientistas, contra vós deve estar o espírito da juventude. Abaixo a Segurança Pública, quem precisa disso? Somos deliciosamente desorganizados e usualmente nos associamos com a Liberdade.”

Em plena ditadura militar, Roberto Piva polemizava com os poetas identificados como de esquerda e os poetas concretos. Piva também chegou a defender o anarco-monarquismo e, nos anos 90, a declarar apoio ao presidente Fernando Henrique Cardoso.  Sem papas na língua, Piva comete heresias imperdoáveis aos esquerdistas empedernidos:: “a esquerda foi mais repressiva que os militares. Eles tinham a hegemonia da intelectualidade…. flertei com todas as correntes que eram contrárias à ditadura. Mas você não precisava ser marxista para ir contra a ditadura.”

O escritor João Silvério Trevisan resume bem o pensamento político de Piva: “o Piva se desdiz com certa frequência. Mais isso não quer dizer que ele seja incoerente. Sua maior coerência é justamente ter sido fiel à não separação entre poesia e vida. Essas falas e opiniões extremas são parte de uma irresponsabilidade criativa poética que ele próprio considera importante em si mesmo”. Willer ainda complementa sobre as contradições políticas do amigo: “em matéria de política. Piva sempre foi de uma oscilação notável”.

Sempre mais comedido, Cláudio Willer se embrenhou na política cultural e exerceu cargos públicos a partir dos anos 80 como assessor do Ministério da Cultura e outros, além de ter ocupado por 4 mandatos a presidência da União Brasileira dos Escritores.

Em 2010, a vida segundo Eros de Piva encontra Tânato em péssimas condições: “aos 72 anos, tremendo e com alguma dificuldade para ler, estava cada vez mais difícil complementar o orçamento.  Sem convênio médico, Piva contava como o SUS e com a ajuda de amigos para bancar seu tratamento”. Lembrei do triste fim de um dos maiores críticos literários desse país, Leo Gilson Ribeiro (que acompanhei bem de perto) e também precisou da ajuda de amigos nos seus últimos meses. A falta de grana maltrata até o fim quem se dedica de coração à literatura no Brasil.