Romance que se passa na final da Copa de 1950 é sucesso em site de financiamento coletivo – Entrevista com o autor

0
419
EMPATE_Foto_Vinícius1
Vinícius Neves Mariano, autor de “Empate”

A goleada sofrida pelo Brasil na Copa do Mundo de 2014 nem se compara ao sentimento do brasileiro perante a derrota de 1950. Perder um título em casa, quando ainda não se tinha nenhum, deixou o povo desolado.

Mas o que isso tem a ver com literatura? Tudo. Conflito/drama/personagens.

Daí nasce o romance Empate, de Vinícius Neves Mariano. Um homem vai ao jogo final, Brasil X Uruguai, porém para se vingar de nosso país, posto que se sente traído pela nação ao não receber remuneração alguma em relação a ter se tornando deficiente na Segunda Guerra. Não contava, no entanto, que a superlotação do Maracanã o lançaria no fosso que separa as arquibancadas do campo. Acompanhando de outro homem de personalidade oposta, o protagonista terá que imaginar o que se passa no jogo, “a poucos metros de suas cabeças.”

O projeto do livro foi disponibilizado em financiamento coletivo. E em poucos dias, já é um sucesso.

Abaixo, você confere uma conversa com o autor de Empate, Vinícius Neves Mariano.

***

Vinícius, para tirar a bola do centro, nos conte um pouco sobre o surgimento de Empate e como este livro se relaciona com você enquanto escritor.
VNM: Vilto, Empate não tem uma certidão de nascimento com data e local de origem. Se tem uma, é desconhecida por mim. A verdade é que antes de sentar para escrever as primeiras linhas do livro, eu já o escrevia há muito tempo, sem lápis nem papel, mas com os olhos e com os ouvidos. Minha família é apaixonada por esportes. Meu pai, meus tios e meu avô sempre me semearam com histórias do futebol, tanto de times nacionais quanto do Alfenense, da Cruz Preta e do América, times da minha cidade. De alguma forma, posso dizer que escrevi Empate desde a minha infância, ao mesmo tempo em que Empate vinha sendo escrito muito antes de sua ideia ocorrer à minha mente.

Em Empate, temos uma mescla de jornalismo literário e técnicas cinematográficas para construir um romance sobre futebol. O tema exige uma abordagem assim diferente? Ou é algo que vem de você como autor?
VNM: Se você se refere ao futebol quando diz tema, acredito que ele não exigia exatamente essa abordagem. Imagine que foi um repórter de campo quem viu a premissa do livro. Ele poderia simplesmente publicar: “Dois torcedores caem no fosso do Maracanã minutos antes da final começar.” E de forma direta e clara, a história seria contada. Hoje o futebol é tratado de forma maçante.
Porém, se você se refere como tema a história de um homem traumatizado pela guerra e conduzido por suas dores, talvez sim, talvez a abordagem para se contar essa história tenha sido necessária. O jornalismo para a reconstrução de uma época, as técnicas cinematográficas para a construção de um determinado tipo de narrativa e uma boa calda de lirismo, que penso ser fundamental para amenizar tais dores.
Se é algo que vem de mim como autor? Talvez venha de minhas referências. Como disse, escrevo com os olhos e com os ouvidos.

No Brasil, sempre tivemos cronistas interessados em falar de futebol. Romancistas, no entanto, é algo recente. Em sua opinião a que se deve esta mudança? Se permitiu falar de futebol no meio literário?
VNM: De fato a tradição literária em torno do futebol brasileiro se foca na crônica jornalística e nos registros documentais. Por quê? Talvez porque nosso futebol nunca precisou ser romanceado. A magia, os heróis sobre-humanos, as grandes histórias, os dramas, tudo isso nós vimos em campo. Quem seria capaz de criar um herói trágico mais dramaticamente perfeito que Garrincha ou Heleno? Quem seria capaz de criar uma fantasia mais melodramática que um menino de 17 anos marcar um gol dando chapéu dentro da área em uma final de Copa do Mundo?
Contudo, à medida que nosso futebol decaiu, à medida que ele se torna cada vez mais comum e mundano, a necessidade apareceu. Talvez não seja o meio literário que permitiu falar de futebol, mas sim o futebol que demanda mais “literatura” hoje em dia.

Esta questão da realidade ser tão mágica que parece ficção pode ser de fato a resposta. E até me faz perguntar para você, a partir do que comentou, se tem projetos para escrever outros romances futebolísticos, por assim dizer?
VNM: Durante um período da minha carreira, tive um chefe que só conversava comigo usando metáforas de futebol. “Nesse tipo de situação, você tem que ser mais Gilmar Fubá do que Falcão, entende?” ou “Nesse projeto eu quero que você seja o camisa 10, que receba a bola e arme a jogada.” E através dessas metáforas eu entedia exatamente o que ele queria. O futebol para mim é como o mar para poetas. Consigo enxergar nele metáforas e lições e dramas para inúmeras histórias. Portanto, sim. Tenho planos de transformar Empate no primeiro livro de uma trilogia das tragédias do futebol brasileiro (Empate é 1950; os outros seriam histórias que se passariam nos jogos de 1982 e 2014), além de uma série de contos.

Percebe-se que você vem refletindo sobre esse tema da ficção de/sobre futebol há algum tempo, além de ela estar internalizada em você. Portanto, não poderia deixar passar a oportunidade de perguntar quais leituras você indica, e quais dicas que você daria para quem também deseja escrever sobre futebol?
VNM: Eu gosto do futebol como cenário, Vilto. Não pretendo escrever sobre futebol como substantivo, como objeto. Para mim ele é contexto – um poderoso contexto repleto de possibilidades humanas, é verdade. Gosto muito de dois filmes brasileiros que encaram o futebol assim: Boleiros e Linha de Passe. O futebol ali é meio.  Em EMPATE tentei o mesmo. Em seu coração, o livro não é de futebol, mas sim de um homem soterrado por seus traumas. Portanto, não poderia indicar aqui livros incríveis na linha do Como o futebol explica o mundo, por exemplo. Há pouco dele em Empate. Mas poderia indicar, por exemplo, Meio sol amarelo, da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, que me mostrou os horrores vividos em uma guerra.
De qualquer modo, posso dizer a quem se interessar pelo tema futebol que leia Conquistando o Inimigo, livro que foi base para o filme Invictus. Ali entendemos que nenhum esporte é só um esporte.

Ao acompanhar a proposta do romance e o trabalho de comunicação criado, o público deve se perguntar por que você optou pelo caminho do financiamento coletivo. Gostaria que você comentasse a respeito.
VNM:  Vilto, existem duas respostas para sua pergunta. Uma é numérica e a outra é, digamos, menos material. Para um autor estreante, o financiamento coletivo é ótimo porque elimina os riscos mercadológicos. Resumindo todo o processo, ao fim da campanha o livro é lançado já com um número X de cópias vendidas. Já o outro aspecto desse tipo de estratégia é o envolvimento com a obra. Quando alguém apoia o projeto, está na verdade se tornando uma espécie de patrocinador, isto é, alguém que acreditou na proposta e “pagou pra ver”. E esse tipo de envolvimento é único.

Se tiver algo mais para falar aos leitores, este é o momento.
VNM: Como Empate será lançado por meio de um financiamento coletivo, tenho muito a agradecer por todos que já apoiaram o projeto. Em uma semana de campanha, alcançamos 50% da meta. Mais do que apoiadores do projeto, essas pessoas são meus apoiadores. Muito obrigado!

Assista ao vídeo de divulgação do livro: aqui!