Sade e Nelson Rodrigues: a perversão dos costumes na literatura

Sade e Nelson Rodrigues têm muito a nos dizer sobre as hipocrisias sociais e nossas pequenas e grandes perversidades.

10 frases do escandalizante 120 Dias de Sodoma, de Marquês de Sade -  NotaTerapia
Sade

Marquês de Sade, o autor maldito

Donatien Alphonse François de Sade, o Marquês de Sade (1740-1814), teve uma vida quase tão conturbada quanto sua obra. Preso e internado em hospícios inúmeras vezes por acusações diversas, como maltratar e envenenar prostitutas, participar de orgias e atuar politicamente contra o sistema. Foi perseguido por todos os regimes políticos de sua época.

E foi encarcerado que criou a maior parte de sua produção literária. Com medo de perseguição, não assumiu a publicação de obras como Justine e Juliette, que conquistaram sucesso de público, ainda que clandestinamente.

Sua obra é um verdadeiro inventário das paixões humanas, onde os libertinos pregam uma filosofia do Mal, justificando suas ações cruéis e injustas de acordo com o que chamam de “leis da natureza”. A partir dessa ótica, o mais forte vence o mais fraco e nada pode impedi-lo de atingir o gozo. Com isso, o autor inspirou a criação do conceito de sadismo, que se caracteriza pela capacidade de sentir prazer a partir da dor alheia.

Apenas muito mais tarde Sade se tornaria um clássico da literatura francesa. Jean-Jacques Pauvert publicou sua obra completa a partir de 1949 e encarou um processo por isso em 1960. Mais tarde, ao final do século XX, Michel Delon o incluiu na Bibliothèque de la Pléiade, série da editora Gallimard dedicada às obras consagradas da literatura universal.

Nelson Rodrigues, o “anjo pornográfico”

Nelson Falcão Rodrigues, mais conhecido como Nelson Rodrigues (1912-1980), foi escritor, jornalista, romancista, teatrólogo, contista e cronista de costumes e de futebol brasileiro. Nasceu em Recife, Pernambuco, e se mudou com 4 anos para o Rio de Janeiro, então capital do Brasil. Já adulto, trabalhou no jornal de seu pai, Mário Rodrigues,

Nelson Rodrigues

intitulado A Manhã. Por muitos anos, foi repórter policial, o que influenciou fortemente sua escrita.

Adquiriu grande prestígio com a peça Vestido de Noiva, em 1943. Hoje, é considerado o maior dramaturgo brasileiro do século XX. Porém, assim como Sade, também sofreu muita repreensão por parte da crítica, que considerava suas obras “obscenas”, “imorais” e “vulgares”. Em seus livros e peças, denuncia as hipocrisias sociais e expõe as neuroses e perversidades humanas a nu. Por isso, costuma chocar com seu estilo “escrachado”, ao mesmo tempo cômico e trágico.

É apelidado como o “anjo pornográfico”. Segundo o próprio autor:

“Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico (desde menino).”

Justine ou os infortúnios da virtude

A título comparativo, vamos considerar duas das principais obras dos autores. São elas: “Justine ou os infortúnios da virtude”, do Marquês de Sade, e “Asfalto Selvagem: Engraçadinha, seus amores e seus pecados”, de Nelson Rodrigues.

Na primeira, a personagem-título é uma moça bem educada que cai em desgraça após perder seus pais. A irmã, Juliette, se torna prostituta e adquire certo prestígio social, enquanto Justine escolhe se guiar pela virtude e só encontra sofrimento por onde passa.

Pobres e ricos, homens e mulheres se aproveitam da fragilidade e inocência da jovem. Quem tenta ajudá-la de algum modo acaba sendo removido do caminho. E, quando lhe oferecem alguma proposta de roubo ou assassinato, ela recusa, preferindo se manter fiel aos seus valores. Com isso, é injustamente acusada de crimes que não cometeu, violada, torturada e quase assassinada durante sua jornada. Ao final, encontra sua irmã Juliette, que consegue protegê-la e abrigá-la. Em pouco tempo, porém, ela é atingida por um raio e morre tragicamente.

Engraçadinha, seus amores e seus pecados

Já a personagem “rodrigueana” é voluptuosa desde a adolescência. É secretamente apaixonada por seu primo, Sílvio, que está noivo de outra prima, Letícia. Engraçadinha o seduz no dia do seu noivado, quando aparece nua para ele na biblioteca. Ela tenta manipular a situação para que Sílvio se case com ela, e não com Letícia. Porém, acaba descobrindo que o rapaz é, na verdade, seu irmão. Ao saber do fato, Sílvio se mutila com uma navalha e acaba falecendo. O pai deles, Dr. Arnaldo, se mata com uma bala na cabeça na mesma biblioteca onde foi cometido o incesto.

Na segunda parte do romance, Engraçadinha está casada com o insosso Zózimo, com quem possui três filhas, e com quem cria Durval, fruto de seu romance com Sílvio. Ela é religiosa, batista fervorosa, e vive uma rotina banal com a família na zona norte do Rio de Janeiro. Porém, alguns fantasmas do passado voltam para assombrá-la, como o advogado Odorico e a prima Letícia, ambos apaixonados por ela. Engraçadinha se preocupa também com a filha mais nova, Silene, que, aos quatorze anos, já dá mostras de possuir a mesma voluptuosidade da mãe quando jovem. Ao final, a protagonista redescobre o prazer ao arranjar um amante, Luís Cláudio, mais novo que ela.

A perversão dos costumes

Podemos observar que, tanto em “Justine” quanto em “Engraçadinha”, os personagens que se aproximam das mulheres sempre possuem segundas intenções. Os libertinos que Justine conhece tentam convertê-la a seu mundo de crime, onde poderia adquirir prazeres e fortuna. Os amigos e parentes de Engraçadinha tentam seduzi-la em nome de um “amor” ou “tara” que perturbariam seu cotidiano de mãe de família.

Em ambas as obras, ninguém é totalmente inocente. No universo sadiano, só há libertinos e vítimas. No rodrigueano, os homens são “canalhas” e as mulheres, “prostitutas”. Justine, a única que tenta a todo custo seguir seus valores e fé, cai de armadilha em armadilha. Engraçadinha só encontra felicidade ao se render a uma nova paixão. A moral é questionável e questionada. Afinal, de que adianta ser virtuosa em uma sociedade corrompida?

Os libertinos sadianos pertencem, majoritariamente, ao clero e à nobreza. O autor faz, assim, uma forte crítica às hipocrisias sociais. Da mesma forma, Nelson Rodrigues expõe o comportamento abusivo de figuras de autoridade como juízes e policiais. Dr. Odorico quer sempre se valer de seu título para obter privilégios. Ele se considera, porém, um “homem de bem” e defende a “família brasileira” ao criticar um filme da época que apresentava uma cena de sexo oral, Les Amants. Qualquer semelhança com o Brasil atual não deve ser mera coincidência…

Quanto ao leitor, relaxado em sua poltrona, pode se deliciar com os martírios e questionamentos das personagens, enquanto reflete sobre suas próprias perversidades. Podemos considerar o leitor sádico porque ele é capaz de saborear cada momento de adversidade vivido pelas protagonistas, já que é protegido pelo pacto ficcional. Essas histórias não são reais, mas poderiam ser. E nos revelam muito sobre quem somos, individual e socialmente.

Referências:

SADE, Marquês de. Justine ou os tormentos da virtude. Trad. Marcela Vieira e Eduardo Jorge de Oliveira. 1 ed. São Paulo: Iluminuras, 2019.

RODRIGUES, Nelson. Asfalto Selvagem: Engraçadinha, seus amores e seus pecados. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2021.

Créditos HL

Esse texto foi escrito por Nicole Ayres. A revisão é de Fernando Araújo e a edição final de Mario Filipe Cavalcanti, Editora-chefe do Homo Literatus.


Nicole Ayreshttp://sentimentosemcompotas.blogspot.com.br/
Professora de francês, Mestra em Teoria da Literatura pela UERJ, escritora e editora assistente no Homo Literatus. Apaixonada pelas palavras e pela vida. Não sabe definir os limites entre seu fazer artístico, professoral e humano, e nem pretende.
Nicole Ayreshttp://sentimentosemcompotas.blogspot.com.br/
Professora de francês, Mestra em Teoria da Literatura pela UERJ, escritora e editora assistente no Homo Literatus. Apaixonada pelas palavras e pela vida. Não sabe definir os limites entre seu fazer artístico, professoral e humano, e nem pretende.
Revisão por
Fernando Araujo Neto
Recifense, graduando em ciências sociais pela UFPE, apaixonado por cultura popular
Editoria por
Mario Filipe Cavalcanti
http://editora.cepe.com.br/autor/mario-filipe-cavalcanti
Editor-chefe do Homo Literatus, é recifense de nascimento, paulistano de contemporaneidade, Bacharel em Direito pela UFPE e advogado em Propriedade Intelectual e Privacidade, escritor com ênfase em contos, Prêmio Pernambuco de Literatura. Mestrando em Ciências da Comunicação pela USP, algumas coisas mais e, sobretudo, absolutamente nada.
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